Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > NÚMEROS DO IBGE

Nem fome nem obesidade: desigualdade

Por Mauro Malin em 21/12/2004 na edição 308

Embora o Jornal Nacional de quinta-feira (16/12) tenha feito uma edição admirável [veja remissões abaixo] com os dados da Pesquisa sobre Orçamento Familiar do IBGE – que permitiu calcular em 3,8 milhões, ou 4%, o número de subnutridos no país, parte deles simplesmente magros –, a mídia toda perdeu mais uma oportunidade de tratar seriamente o problema da desigualdade no Brasil.


Perdeu também a oportunidade de acertar contas, num assunto fundamental, com a espetacularização dos problemas sociais.


Que os números da fome eram exagerados já se sabia há muito. Na segunda edição deste Observatório na internet [julho de 1996, veja abaixo] isso era dito com todas as letras. E também não surgiu agora a constatação de que a obesidade, por nutrição desbalanceada e/ou falta de exercício físico, virou epidemia [vide, por exemplo, Diário de S. Paulo, 23/12/2003, remissão abaixo].


O destaque dado pela TV Globo ao assunto foi um golpe político sério nas manipulações estatísticas que estão por trás da jogada de marketing denominada Fome Zero. A emissora mostrou vídeo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva falando em ’43 milhões ou 50 milhões de pessoas passando fome no Brasil’, ao lançar o programa, em 2003.


Nem Lula acredita


Quem viu o documentário Entreatos, de João Moreira Salles, que mostra o dia-a-dia da campanha presidencial petista de 2002, sabe que nem Lula acredita nesses números. Mas convinham, e foram usados. O presidente se baseou em dados fornecidos pelo então ministro extraordinário da Segurança Alimentar, José Graziano, e em argumentação publicada numa cartilha divulgada pelo Instituto Ethos em fevereiro de 2003 (‘Como as empresas podem apoiar e participar do combate à fome’).


A Globo entrevistou o professor Simon Schwartzman – ex-presidente do IBGE –, que apontou a origem das confusões: o mapa da fome elaborado pelo Ipea em 1993, no qual se baseou Betinho para lançar, naquele ano, a Campanha contra a Fome. Betinho, por sinal, foi capa de Veja na ocasião (29/12/1993, ‘Betinho, o grão da cidadania’).


Os veículos impressos não chegaram perto da edição redonda da Globo, que tratou os telespectadores como adultos (isso está longe de ser freqüente…), embora se deva registrar que a Folha de S. Paulo ofereceu, entre os jornais, a melhor cobertura.


Caldeirão de maluquices


Por que a mídia errou na cobertura dos resultados da Pesquisa sobre Orçamento Familiar?


** Primeiro, porque substituiu uma ‘lebre’, a medonha fome de ’50 milhões de indigentes’, por outra: a epidemia de obesidade. Trombetear é preciso, informar não é preciso (verbo e adjetivo). Há distintos problemas de saúde pública relacionados com a obesidade. Uns são de pobres, outros dos que têm dinheiro bastante para comer à vontade. E tudo foi misturado num caldeirão, para dar lead e manchete. O excesso e a falta de peso. De algum jeito, as coisas têm que andar mal.


** Segundo, porque evita reconhecer sua poderosa e inesquecível contribuição para a veiculação dessas maluquices estatísticas (o mais provável é que a maior parte dos atuais editores – mas não todos – nem tenha consciência plena do problema).


Maluquices que jogam o país para baixo, tornam as soluções quase ‘impossíveis’ (se o problema é ‘imenso’, como resolvê-lo?), desanimam os pesquisadores sérios, abrem as portas para todo tipo de demagogia e patetadas regidas por boas intenções. E vigarices.


Dados incorretos


No domingo (19/12), a Folha, parabéns, dava na capa: ‘Déficit oficial de moradias é exagerado, afirma estudo’. A diferença é de 7,2 milhões de casas, número com que trabalha o Ministério das Cidades, baseado em estudos da Fundação João Pinheiro, para 4,1 milhões, total apurado em estudo do IBGE e da Unicamp. Quanto custa essa diferença, ainda que apenas no plano da percepção?


O maior problema dos dados inflacionados é que eles constituem uma espécie de lastro para atuação sem critério de entes públicos e não-governamentais, e impedem uma avaliação correta, mediante participação democrática, das políticas públicas.


** Terceiro, porque ela, a mídia, leu as estatísticas e não viu o dado mais relevante, que esteve, está e continuará no centro dos dilemas brasileiros: a fome e a desnutrição recuaram espetacularmente – não acabaram, e as estimativas da desnutrição de crianças se somarão em breve às dos adultos –, mas a concentração de renda permaneceu inabalável, e desigualdades regionais sérias persistem. Nisso os resultados de 2002-03 são semelhantes aos de 1973-74. Nem as políticas sociais dos últimos dez anos conseguiram alterar o quadro.


A manchete mais espetacular seria: ‘Mídia se despede da década de 1990’ – durante a qual se usou e abusou de dados incorretos sobre os dramas, nunca suficientemente descritos ou avaliados, da população brasileira.

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