Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > MÍDIA RADIOFÔNICA

Ninguém quer nada com o rádio

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 30/03/2010 na edição 583

Mesmo com problemas evidentes e calamitosos há com certeza um grande desprezo ao rádio tanto em relação à sua importância quanto às formas como vêm sendo veiculados os programas de rádio ao completo arrepio da legislação vigente ou do que preceitua nossa Constituição em relação ao direito à comunicação. Dizer que não há quem se preocupe com os problemas do rádio seria leviandade, mas há com certeza uma quase completa desmobilização em relação ao dilema da radiodifusão em nosso país, cada vez mais dominada pelos grandes grupos de comunicação e pelo número interminável de seitas, igrejas e grupos religiosos. O imobilismo em relação ao que se passa no rádio é grande não vemos ação de sindicatos de categoria, grupos políticos e órgãos de fiscalização em cima dos problemas que o rádio tem e não se vê nenhum tipo de ação no sentido de enaltecer a importância do rádio nem debater os problemas que o mesmo enfrenta preferindo empurrar o lixo para debaixo do tapete.

O processo de sucateamento do rádio vem sendo desenvolvido de forma crescente onde não vemos nenhum tipo de investimento no setor para melhorar a programação, para gerar receita e para dar viabilidade de emprego no setor. Hoje em dia a maioria dos radialistas faz o que quer no rádio emitindo mensagens de todos os tipos, em muitos casos agressivas, desrespeitosas e que acabam promovendo idéias de discriminação a grupos marginalizados pela sociedade. Claro que temos o direito de imprensa, porém isso não significa que o rádio agrida as famílias com palavrões de todo tipo e com apelações em nome de uma suposta audiência. Os problemas por que o rádio vem passando são evidentes e levam a um processo que vai acabar destruindo este meio de comunicação, já octogenário e que ainda faz muito pela sociedade pelo seu imediatismo, versatilidade e presença marcante na vida da maioria das pessoas.

Monopólios e conglomerados

Em muitos casos vemos um completo desinteresse pelo rádio nos cursos de Jornalismo, onde a maioria dos professores do curso sequer ouve rádio. Os grupos sociais pouco fazem pelo rádio. As comissões de direitos humanos das instituições políticas ainda não colocaram a comunicação como um direito real preferindo debater o que está na moda ou o que causa repercussão. Nas andanças de luta pelo rádio já procuramos parlamentares ligados ao rádio que acham nossa causa nobre, porém em pouco contribuem para levar o debate adiante e criar ações que possam dar ao rádio o alento necessário para o crescimento e sobrevivência. O mundo da política se utiliza do rádio, porém no momento em que o mesmo precisa vira-lhe as costas, pois parece que luta por um rádio que seja cidadão e conscientize as pessoas não se alia aos interesses do voto e do conchavo político.

Temos vários blogs e páginas de internet dedicadas ao rádio que procuram apenas divulgar seu interesse próprio ou promover o autor da página sem mexer uma palha no sentido de criar uma rede de força em nome do rádio ético, cidadão e de qualidade. Esses blogs e sites tem supostamente canais de comunicação, porém não passam de objetos de marketing ou da enganação da interatividade, pois sequer respondem mensagens enviadas. A maioria destes espaços tem o objetivo de divulgar livros ou o currículo de seus autores sem nenhum tipo de atitude que favoreça a melhoria do rádio. A comunicação radiofônica não tem por parte destas páginas eletrônicas nenhum tipo de busca de associação em nome do rádio ou em prol de seu crescimento ou melhoramento.

No lado oficial o rádio continua sendo desprezado, pois os órgãos relacionados à comunicação não procuram fiscalizar o que se passa no rádio nem examinar as concessões de radiodifusão ou regulamentar o processo de outorga de rádios que não podem ser monopolizados ou formar conglomerados. Os órgãos ligados à comunicação do governo hoje não têm nenhum tipo de ação no sentido de coibir os excessos no rádio nem buscar a fundamentação legal deste meio de comunicação.

Leilão de interesses

O debate sobre o rádio tem de crescer, tem de ser aprofundado, porém é triste ver que há muitos poucos que se interessam pela realidade do que se passa no meio radiofônico. Os radialistas de maneira geral escondem a crise talvez pelo medo de perder a profissão ou se indispor com algum político de sua confiança ou mesmo por despreparo para o exercício da profissão. Vale ressaltar que grande parte dos radialistas consagrados em nossa terra (Ceará) são os que mais agridem os ouvintes com pornofonia e acabam sendo aplaudidos e enaltecidos pelos colegas de profissão e pelos próprios ouvintes o que faz crer que o povo gosta mesmo é de baixaria.

No meio jornalístico o rádio é completamente esquecido e desprezado. Onde estão as notícias sobre rádio nas revistas de circulação nacional ou nos jornais diários? Por que a maioria dos jornalistas despreza o rádio? Por que o rádio teve espaço limitadíssimo nas Conferências de Comunicação dominadas pelos jornalistas?

Os proprietários (concessionários) de rádio sequer ouvem a rádio da qual se dizem donos e loteiam suas emissoras como se loteia qualquer produto comercial. O rádio neste caso continua sendo uma mercadoria exposta no leilão de interesses que povoa nossa sociedade. Para estes proprietários (concessionários) a única coisa que importa é o balancete ao final do mês e a suposta rentabilidade de sua emissora talvez por isso arrendam seus horários a quem quer que seja sem se importar com a procedência do dinheiro que se paga pelo arrendamento. Para finalizar seria importante e vital para o rádio que houvesse urgentemente um processo de coesão em nome deste meio de comunicação que precisa de modernização acompanhada de respeito, valores éticos e, sobretudo cumprimento de sua função social.

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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