Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Notas de uma correspondente ocidental

07/11/2006 na edição 406

As relações entre o Irã e o Ocidente pioraram depois do anúncio do governo de sua intenção de expandir o programa de enriquecimento de material nuclear. Segundo Frances Harrison, correspondente da BBC News [26/10/06], trabalhar como jornalista no país neste período tornou-se extremamente difícil, principalmente para as mulheres.

Ao ligar para o escritório administrado pelo aiatolá Mesbah Yazdi, clérigo de direita que aconselha ideologicamente o presidente Mahmoud Ahmedinejad, a fim de descobrir quando ele daria uma palestra, uma colega da jornalista ouviu a seguinte questão do homem que a atendeu ao telefone: ‘Vocês estão do lado do Islã ou do lado deles?’. O aiatolá é um dos principais religiosos do país, e não dá entrevistas para jornalistas estrangeiros. O homem ao telefone ainda perguntou se era ela quem havia divulgado que apenas 100 pessoas teriam comparecido às manifestações de apoio ao governo, quando na verdade este número seria de mil pessoas. ‘Pelo menos ele tinha senso de humor’, observa Frances. ‘Em fevereiro, eu fui criticada durante uma semana em um programa noturno na TV iraniana porque eu disse que mais de 100 mil pessoas foram às ruas para celebrar o aniversário da revolução iraniana. O governo afirmou que havia uma multidão de três milhões e me acusou de ter subestimado os números’.

Imitação

A jornalista lembra que alguns dias depois deste caso compareceu a uma manifestação de apoio aos palestinos e viu um homem que, diante da multidão, satirizava, supostamente, ‘o correspondente da BBC’ no país. O imitador segurava uma cenoura como microfone e anunciava que falava ao vivo de Teerã e que, até aquela hora, podia confirmar que ninguém havia comparecido para a manifestação organizada pelo governo. ‘Fiquei imaginando se estas pessoas já assistiram alguma vez à BBC – porque certamente elas saberiam que a correspondente da BBC em Teerã pelos últimos dois anos era uma mulher –, ou se elas realmente pensavam que eu era um homem grisalho’, conta.

Frances diz que, certa vez, um telespectador ligou para a BBC para reclamar que ela estava usando um véu de cor vermelha na TV. Além do vestuário, a jornalista também é criticada em blogs por ser casada com um iraniano. Segundo ela, seu marido é acusado de ser ‘um jornalista aprovado pelo governo’, embora não tenha conseguido um passe de imprensa do governo por mais de um ano. ‘Quando perguntaram à minha colega se estávamos com o Islã ou com eles, ela respondeu que éramos independentes. Mas, cada vez mais, nós nos sentimos pressionadas a escolher um lado’, conclui.

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