Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
Menu

INTERESSE PúBLICO >

O decoro mais que necessário

Por Ricardo A. Setti em 28/11/2006 na edição 409

Aconteceu logo no começo do primeiro mandato, em março de 2003, e talvez ninguém mais se lembre direito. Vale, então, recordar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo ao lado a primeira-dama, Marisa Letícia, percorria o Palácio do Alvorada com Oscar Niemeyer, encarregado de supervisionar um projeto de restauração da residência presidencial oficial, que o grande arquiteto projetou em 1956 e estava sendo bancada por empresários.

Anda pra cá, anda pra lá, acabou se aproximando de um grande grupo de pessoas, inclusive jornalistas, que à época costumavam postar-se junto à cerca externa do Alvorada. E foi ali que decidiu tomar uma atitude importante no âmbito da política externa brasileira: criticou, em termos duros, a invasão do Iraque por forças militares dos Estados Unidos com o auxílio do Reino Unido, que acabara de ser deflagrada.

Lula manifestou sua oposição e, naturalmente, a do governo brasileiro à eventual presença de armas de destruição em massa no Iraque – pretexto para a ação militar, que os próprios americanos nunca conseguiram provar, nem após ocuparem o país de Saddam Hussein –, mas declarou que o ataque desrespeitava as Nações Unidas, acrescentando ainda que os EUA não tinham o direito de decidir sozinhos ‘o que é bom ou ruim para o mundo’.

Criticar os EUA, sim, mas desse jeito…

Nada demais, até aí. Lula expressou o que naquele momento representava um sentimento predominante no Brasil – no Congresso Nacional, em praticamente todos os partidos políticos, em diferentes organizações da sociedade e correntes de opinião, entre especialistas da academia e de outras áreas. Com as declarações, fez o país acompanhar a postura de boa parte dos países da União Européia, sem contar os da América Latina. O problema – e é aí o ponto deste artigo – estava em como foi feito o pronunciamento.

Lula desfechou suas críticas à superpotência americana – assunto obviamente de alta octanagem e suma delicadeza, pela fundamental importância das relações Brasil-EUA – num local, num cenário e num contexto extremamente inadequados, para dizer o mínimo: de pé, próximo à grade do palácio, cercado por jornalistas, com a sempre presente possibilidade de, num empurra-empurra que infelizmente não é exceção, mas a regra, inclusive quando se trata do presidente da República, levar um safanão involuntário ou ter o nariz ou a testa acertados por gravadores, câmeras de TV ou microfones.

Lulinha paz e amor com a imprensa?

Era evidente que a explicitação de posição tão relevante do governo brasileiro no âmbito internacional merecia um mínimo de adequação e solenidade. Para tais atos, não cabem improvisos. A possibilidade de um tropeço monumental, em casos semelhantes, nunca está afastada. Por sorte, não ocorreu naquele dia. Mas o correto seria o presidente manifestar-se num local apropriado da sede do governo, o Palácio do Planalto, devidamente preparado e brifado para o que iria dizer, eventualmente em meio a uma entrevista coletiva – que, como se recorda, o sempre loquaz presidente só acabou concedendo mais de 800 dias depois de empossado, e assim mesmo em condições grotescas, com os repórteres proibidos de complementar perguntas não respondidas adequadamente ou fazer réplicas.

No próprio dia da vitória eleitoral do segundo turno, o presidente reeleito prometeu mudar completamente, incorporando, também para com a imprensa que notoriamente não aprecia, o tal espírito do ‘Lulinha paz e amor’.

(Não parece, e basta lembrar alguns fatos recentes protagonizados por pessoas do PT ou do governo Lula: os jornalistas agredidos por militantes do PT em Brasília, por exemplo, ou as agulhadas do presidente do partido, Marco Aurélio Garcia, conclamando a mídia a uma ‘auto-reflexão’ sobre a cobertura da campanha eleitoral e praticamente sugerindo uma retratação a respeito das revelações feitas sobre o escândalo do ‘mensalão’. Sem esquecer, por certo, os constrangimentos a que foram submetidos jornalistas da revista Veja convidados a supostamente cooperar nas investigações sobre o escândalo do dossiê antitucanos para, uma vez na sede da Polícia Federal, serem tratados como suspeitos. Ou, ainda, o mal explicado caso da escuta telefônica realizada em telefone de trabalho da Folha de S.Paulo e num celular de uma repórter do jornal.)

Mas esqueçamos, como se fosse possível, tais fatos recentes, e voltemos à figura do presidente. Observe-se que ele passou de oito a oitenta: praticamente não falava com jornalistas durante seu primeiro mandato, agora não passa praticamente um dia sem isso – só que, novamente, de maneira errada, indevida, tumultuada, incorreta, no ‘formato’ da declaração contra a guerra no Iraque.

O interesse não é dos jornalistas, mas do público

Como ocorreu em Ciudad Guayana, na Venezuela, numa segunda-feira (13/11), quando, após proferir o que o Estado de S.Paulo considerou uma ‘espalhafatosa, desnecessária e até chocante diatribe (…) contra a imprensa de seu país em território estrangeiro’, Lula falou com jornalistas, debaixo de um sol de rachar e no meio de um virtual empurra-empurra. Como sucedeu diversas outras vezes. Por exemplo, na terça-feira (21/11), em Barra do Bugres (MT), depois que o presidente, tendo inaugurado uma usina de biodiesel, temerariamente discursou em cima de um carro de som, cercado por mais de mil pessoas em condições precárias de segurança. Uma nova entrevista improvisada e corrida, com o presidente sitiado por gravadores como um jogador de futebol, voltou a acontecer na quinta-feira (23), em seguida a sua reunião com governadores, em Brasília.

Parece uma tarefa impossível convencer Lula a respeito, mas é uma obrigação de jornalista proclamar, quantas vezes seja necessário, que exigir que os contatos de um presidente com a imprensa tenham decoro e a forma adequada não são reivindicações da mídia visando o conforto, a conveniência ou qualquer tipo de privilégio dos jornalistas. Constituem, isto sim, algo de profundo interesse coletivo, por envolver pelo menos duas circunstâncias relevantes: a primeira é a dignidade do cargo de presidente da República, que não pertence a Lula nem a ninguém, mas é um patrimônio dos cidadãos; a segunda é o direito de o público ser informado com correção, com freqüência e com clareza, ao qual corresponde dever de igual teor do chefe do governo.

É coisa simples: o presidente deveria falar com freqüência minimamente razoável com a imprensa, em entrevistas coletivas civilizadas e livres, no Palácio do Planalto. Quando estiver fora de Brasília, em instalações adequadas nos prédios públicos ou dependências de empresas a que comparecer para eventos, caso em que, previamente, o escalão avançado da Presidência providenciará som, o púlpito com as armas da República, as condições de segurança e outras que qualquer país organizado propicia nos encontros de seus governantes com os ‘olhos e ouvidos da sociedade’.

Será que, com Lula, chegaremos lá um dia?



***

Nota do OI: Esta matéria também está publicada na rubrica Jornal de Debates da edição nº 408. Clique aqui para ler os comentários ali postados.

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem