Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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O ecumenismo do deus Sol

Por Luiz Carlos Bordoni em 27/06/2006 na edição 387

Bolhas? Yes, nós somos bolhas. Ou piores. O circo está lá, mas os palhaços estão aqui. Hoje tem marmelada? E quando é que não tem!? E onde é que não tem? Tem até ‘mensalada’ (a marmelada mensal). Tinha, não. Tem. Aliás, até agora ninguém entendeu a grana gasta pelo MEC no Domingão dos Silva – do Fausto e do Luiz Inácio, um dado a ganhar uns, outro dado por Garanhuns.

Bolhas? Sobram em quem usa chuteiras Nike, mas inexistem nas mãos do pessoal do MST. E do MLST, também. Mão sem trabalho não tem bolha; sem bolha não tem calo. Calar? Não calo. Sou observateur. E eis que estou de olho no ministro Hélio Costa que, pelo andar do cortejo, quer ir para o céu, daí o que não faz para garantir a vaga. Pelo que nos conta a Folha, Costa destina televisão e rádios educativas a fundações ligadas a denominações religiosas.

Maré de sorte

Cansadas de depender de favores de políticos, as ditas instituições religiosas, além de montar um forte lobby dentro do Congresso Nacional, decidiram participar diretamente do é ‘dando que se recebe’, ainda que, à exceção da católica, nada tenham a ver com Francisco de Assis, embora sigam o lema ao pé da letra (mas este é o cânon de uma outra picaretagem).

Eu dizia que, mais que o lobby, as igrejas têm votos nos plenários das duas casas legislativas, aumentando o poder de barganha com o Executivo e, of course, o tráfico de influência (um dos tipos de corrupção). Tendo a nossa população cerca de 180 milhões de brasileiros e se as trupes evangélicas têm 15,5% deste total, é considerável o exército dos que marcham sob o comando pastoral. Golpe eleiçoeiro, nada melhor que conquistar a porção evangélica que vota, até porque, na hora da apuração, o voto é ecumênico.

E ecumenismo é o tipo de condição supra que muito apraz o nosso impoluto ministro das Comunicações. Assim, nada de mais conceder à Fundação Sara Nossa Terra, presidida pelo bispo Robson Rodovalho, uma ‘tevezinha’ em Mateus Leme (MG) e uma ‘radinha’ em Itaguaí (RJ). Aproveitando a ‘maré de sorte’, o bispo Rodovalho também conseguiu de Hélio Costa uma segunda ‘radinha’ (ou ‘radica de nada’, como diz o próprio) na cidade de Juquitiba, São Paulo, só que em nome da Fundação Ecológica Natureza e Vida, que tem como endereço uma igreja da Sara, na Barra da Tijuca, que, diz a geografia, fica na zona oeste do Rio.

Pitacos maldosos

Com tais mandriões no governo e nos templos, nihil obstat. O bom é ser pastor, nada me faltará. Mas também nada falta a padres e bispos da igreja católica. Quem não multiplica peixes consegue multiplicar concessões, o que já é alguma coisa. Para espiritualistas que vivem do materialismo, é estar a dois passos do Paraíso.

Enquanto isso, eu vivo no inferno. Do lado de casa, uma igreja. Sara. Quem vai sarar os nossos ouvidos? A resposta está na porta da própria. Uma enorme faixa traz os dizeres – ’40 dias de curas e milagres’. Não perguntei se aceitam cheques pré-datados, ou se plano de saúde, mas creio que não. Parece que não há câmara de compensação no céu.

Na Rádio Sara, pitacos maldosos ironizando o noticiário do paper dos Frias: a Folha denuncia porque tenta e não consegue a ‘tevezinha’ dela, nem a ‘radinha’ dela. O máximo que conseguiu, porque independe de concessão, é a capenga telinha do UOL na internet. O diabo é que o pastor havia acabado de falar em ‘amar o próximo como a ti mesmo, inclusive os inimigos’. Não, não há quem durma com um barulho desses.

Estranho caso

Uma coisa a Folha e o banzé jesuítico têm em comum: Simão. A primeira tem o José, que é um inferno para a vida de muitos; a segunda tem Simão Pedro, porteiro do céu e que ‘mora’ no bolso de todos. Ele e o homem do Baú. Dize-mo: para que serve o dízimo? Today, now, para ajudar a Record a tomar o segundo lugar do SBT. Tomorrow? Para tentar ‘dizimar’ a Globo.

Voltando às concessões. Onde está a regra contra o monopólio? Quantas emissoras um cidadão pode possuir? Lembro-me, trabalhei nela, da Rede Piratininga de Rádio. Quem era o dono? Miguel Leuzi, deputado federal. Quase uma centena. A ditadura cassou. Mas havia outras (do Vítor Costa e do Chatô, por exemplo), mas as emissoras eram espalhadas pelo interior de São Paulo e pelo país.

Estranho é o caso de Catanduva, SP, onde uma senhora é dona de todas as emissoras da cidade – exceção feita à alienígena Jovem Pan. Quem é demitido ou pede demissão de uma, pode mudar da cidade. O patrão… ops… a patroa é a mesma. Nada contra a ilustre senhora, mas absolutamente nada a favor do statu quo. Os jornais, por sua vez, não dizem absolutamente nada. Ela também é dona deles.

Moral da história: sempre há esperança. Afinal, ainda restam o circuito fechado de TV e o serviço de alto-falantes na estação rodoviária.

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Jornalista

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