Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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INTERESSE PúBLICO >

O inconformismo do pastor

Por Elyson Scafati em 06/10/2009 na edição 558

Um artigo escrito pelo senhor Douglas Reis (Aqui) chamou-me muito a atenção, fiz as devidas criticas, mas como bom fundamentalista, falso e desonesto intelectual que é, para variar me calou. O artigo em questão intitula-se ‘O evolucionismo de cada Marcelo’ e o foco é criticar a Teoria da Evolução, como se isso automaticamente validasse a fantasia bíblica do criacionismo.

O sr. Douglas se propõe a ponderar o que Marcelo Leite e Marcelo Gleiser defendem. Marcelo Leite critica o posicionamento criacionista de Marina Silva e sua dubiedade onde, em um primeiro momento ela parece apoiar esta doutrina religiosa e em um segundo momento ela nega seu apoio. Deu-me a entender que Marina em seu íntimo é criacionista e por questões referentes ao ‘politicamente correto’ não o apóia formalmente.

Palavras do sr. Douglas entre colchetes:

Aqui vai uma colocação do texto em que o sr. Douglas Reis e sua total incompreensão do que é democracia e estado laico.

[O que é um Estado Laico? Certamente a expressão ‘laico’ não adquire o sentido de ‘irreligioso’ ou ‘ateu’. Num Estado Laico não se pode beneficiar uma religião em detrimento de outras, o que caracterizaria favoritismo. Todos têm o direito de crer no que quiserem, isso é fato. Agora, cabe refletirmos:ensinar, ou mesmo cogitar a possibilidade alternativa de se ensinar o Criacionismo (como proposta científica) iria prejudicar a democracia em quê? Desde que alunos tenham a possibilidade de avaliar modelos de origens ou visões distintas da ciência, a democracia estaria salvaguarda – muito mais do que ao se beneficiar um modelo em detrimento de outros.]

Formas opostas de pensamento

Bem, Douglas, vejamos:

Qual modelo de criacionismo, Douglas? É a pergunta que não quer calar. Existem ‘n’ deles por aí, conforme cada versão religiosa. Se ensinar um em detrimento dos demais, prejudica-se a democracia sim e muito, ou seja, é dar respaldo a uma crença em detrimento das demais que existem no Brasil o que contraria a idéia de Estado laico.

Há e muito que se respeitar o direito das minorias (veja a questão do sábado para os adventistas). Em resumo vocês agem assim: vinde ao meu reino; ao vosso uma banana. Belo exemplo de cristianismo (a cada dia vocês me decepcionam mais).

Quanto à questão de alunos terem visões alternativas da ciência, estas visões alternativas’ tem de ter evidências concretas que as apóiem. A ciência não se trata de uma plataforma para cada um expressar o que pensa, baseado em retórica sem fundamento lógico formal e protestar em contrário àquilo que atenta a sua ideologia.

Assim, sr. Douglas, o lugar de se tratar a respeito de visões e vertentes religiosas, não é em sala de aula, mas no templo da sua respectiva crença.

[Um exemplo pode ser útil. Imagine que uma corrente de pensamento, a qual defendesse a infidelidade de Capitu (do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis), se impusse nos livros didáticos de Literatura. Entretanto, após a aceitação generalizada dessa corrente, surgisse uma outra, advogando justamente o oposto – a inocência de Capitu. Até aí, seria uma disputa justa entre formas opostas de pensamento. Mas, e se os professores que advogassem a primeira corrente conseguissem apoio e, através da sanção de uma lei, impedissem o ensino do pensamento diferente? Seria isso democrático? Favoreceria os educandos confiná-los ao acesso a uma forma de ver as coisas?]

A orientação filosófica dos modelos

Quanto a comparar o absurdo do criacionismo à trama de Dom Casmurro, isso foi bárbaro, pois, até hoje, a suposta traição de Capitu, para a literatura nacional, é um mistério do Grande Machado que talvez nem ele mesmo soubesse responder.

Mas, quanto ao criacionismo, em suas pseudo-investigações, sequer se compara a isso. Diferentemente da trama de Capitu, nada absolutamente nada em termos científicos o apóia, que enseje uma outra versão dos fatos.

Somente a fantasia cristã fundamentalista e seus pseudocientistas, que sequer se submetem ao escrutínio científico, o tomam como uma visão alternativa da ciência. Pergunto essa postura é fazer ciência?

É engraçado que apenas cristãos fundamentalistas, em sua maioria, engajam-se nesse movimento. Muitos se passam por cientistas – alguns até possuem credenciais científicas, mas, na maioria, tais credenciais provêm de universidades de fundo de quintal, como a Bob Jonnes e Loma Linda, sem nenhuma credibilidade no meio acadêmico.

Já lhe disse isso várias vezes, Douglas, e você se nega a seguir este conselho:

‘Seja honesto consigo mesmo!’ A mentira nobre somente existe se ela luta contra um sistema de injustiças, mas jamais deve ser usada para fazer proselitismos baratos, na defesa de ideologias e crenças religiosas.

[Quanto ao segundo ponto, o que dizer de uma suposta ‘distinção fundamental’ entre ciência e religião? Trata-e de uma típica falácia argumentum ad nauseam (na qual algo que é repetido à exaustão adquire foros de verdade). Criacionismo não é religião. Claramente, o criacionismo tem pressupostos calcados no Teísmo bíblico (e isso no Ocidente; os muçulmanos também advogam um outro tipo de criacionismo, o que não interessa aos propósitos dessa discussão). Se pensarmos no Evolucionismo, poderemos notar que sua matriz filosófica também norteia uma determinada praxis. Ambos os modelos trabalham com inferências, levantamento de dados, avaliação, hipóteses, construções de teorias, etc. As descobertas que fazem agregam conhecimento, mas não mudam a orientação filosófica dos modelos. Nesse aspecto, criacionismo e evolucionismo são similares. A prova é que os primeiros a empregarem o método científico eram… criacionistas.]

Base sólida em evidências

Estranho… algo que é pautado no teísmo bíblico não é religião? Isso soa no mínimo paradoxal, Douglas.

É obvio que todo o conhecimento humano está calcado na filosofia. Todo e qualquer modelo científico faz suas inferências levantamento de dados, avaliação, hipóteses, construções de teorias etc. Porém, entre ciência e pseudociência há uma pequena diferença: nesta, os autores não se submetem ao escrutínio científico, e se porventura o fizerem, serão reprovados e naquela os autores se submetem a este escrutínio e seus trabalhos são constantemente testados a fim de que se confirme ou se rechace a teoria construída.

Douglas, porque muçulmanos, wiccas, taoistas, hinduístas e macumbeiros advogam seus criacionismos, isso não valida nenhum deles no que se refere à ótica científica.

Realmente, demais criacionismos não interessam sob a ótica cristã de ver o mundo. Maravilha! Você chegou onde eu queria! Esse é o pluralismo cristão. Enquanto a discussão está no âmbito de promover a minha crença tudo bem… Se for o criacionismo bíblico se batendo para desbancar a ciência, tudo bem. Mas, e um embate de criacionismos para fomentar o pluralismo; que tal? Qual dos ‘n’ criacionismos é o mais verdadeiro? O bíblico ou os demais?

Demonstre essa questão por meio de evidências científicas e não por meio de conversa mole que diz o que o ouvinte quer ouvir. Lembra de todo aquele debate sobre lógica formal e dialética que você me calou ao final? Pois é, aqui temos o exemplo de como elas se aplicam.

Simplesmente, Douglas, o criacionismo não é ciência pelo fato de não se pautar no método científico. Sua premissa base (Deus) é uma petição de princípio, sem nada que a evidencie ou respalde de modo concreto. Ao contrário, a ciência para construir uma teoria tem de ter base sólida em evidências e estas têm de se passar pelo escrutínio científico. Quando o criacionismo se submeteu a isso? Traga-me uma única evidência concreta do criacionismo que tenha passado pelo escrutínio científico. Apenas uma.

‘A simplicidade do não-saber’

Dizer que os precursores da ciência eram criacionistas, isso é um argumento completamente descontextualizado. Os exemplos clássicos como Newton, Kepler, Galilleo, etc. viveram em uma época complicada. Se a pessoa se posicionasse contra os preceitos da igreja, ou morreria ou seria presa. Além disso, o conhecimento era algo que estava começando a ganhar corpo e assim muito ainda era atribuído a Deus.

Tal forma de argumentar, Douglas, também não traz qualquer validade ao criacionismo. Se estes autores vivessem hoje, certamente seriam os primeiros a ir contra todo esse arcabouço de idéias sem sentido que os criacionistas pregam.

No segundo ponto, Marcelo se preocupa com uma questão antiga: o argumento da primeira causa. Gleiser trabalha no sentido de negar a necessidade dessa causa.

Marcelo Gleiser afirma: ‘A ciência não se propõe a responder a todas as perguntas. E por um motivo simples: nós nem sabemos que perguntas são essas. Dado que jamais teremos um conhecimento completo da realidade, jamais poderemos construir uma narrativa científica completa.’

[Oposto ao triunfalismo disfarçado de Marcelo Leite, que desqualifica o criacionismo, vociferando que só o evolucionismo é ciência, o seu homônimo expõe a debilidade da ciência, afirmando coisas que fariam Dawkins corar – de raiva. Em seu livro, O Capelão do Diabo, Richard Dawkins escreve um capítulo contra o relativismo na ciência, reivindicando a condição da ciência como detentora do verdadeiro conhecimento. Contudo, Gleiser prefere a essa certeza máxima a ‘simplicidade do não-saber’. Curiosamente, os darwinistas acusam cristãos de fomentar a ignorância e de crerem no que não podem explicar.]

Tarô e curandeirismo

Douglas, a ciência responde aquilo que se encontra no mundo material, ou seja, lida com questões objetivas. Daí ela ser realmente a detentora do conhecimento. O que está no mundo imaterial não é objeto da ciência, uma vez que esse mundo carece de evidencias palpáveis, além de ser altamente subjetivo conforme cada cultura existente neste planeta.

A ciência lida com objetividade, com conhecimento que vale tanto para a cultura japonesa como para a congolesa.

A ciência Douglas, ela consiste em observar as coisas e os fatos que se passam ao nosso redor; procurar descobrir o que significam as coisas e os fatos e as regras segundo as quais se comportam e, por fim aplicar essas descobertas para o uso e bem estar do planeta e de todos os seus seres viventes.

Não saber algo, Douglas, não se trata de propagar a ignorância, mas saber e dissimular em prol de interesses escusos e passar uma falsa idéia ao ouvinte sim. Esta última atitude é a propagação da ignorância.

Como exemplo de atitude propagadora da ignorância, é dizer que um local tem marcas de inundação, logo isso confirma o modelo antediluviano é uma idiotice desmedida, pois não há evidências concretas de tal evento. É o mesmo que eu dizer que sou saudável porque dou maçã ao gnomo que vive em minha casa ou porque tenho um amuleto com um trevinho de 4 folhas ou porque como testículos de tigre.

Tomar o criacionismo como ciência é o mesmo que se ler a sorte no tarô, em vez de usar o conhecimento estatístico para aplicar na bolsa de valores, se valer de curandeirismo para curar uma infecção ou dançar para os deuses fazerem chover, em vez de bombardear as nuvens com cloreto de sódio.

Questões científicas são zetéticas

[A declaração final de Gleiser é tentadora, no sentido de favorecer uma leitura que a ampliasse, tornando-a um severo juízo sobre a própria cosmovisão evolucionista (embora, muito provavelmente, o autor não quisesse dar a entender isso): ‘[…] Prefiro continuar tentando [ao invés de admitir Deus como causa primeira] e aceitar que, por ser humano, minha visão de mundo tem limites.’]

Chutar o que ainda não sabemos para os deuses, Douglas, é o muro que se constrói além do qual não se pode ir, ou seja, é o limitar o conhecimento, ou seja, é propagar a ignorância. É confundir o insondado (o que ainda não sabemos e não temos tecnologia para tal) com o insondável (o que os reles mortais jamais compreenderão, pois as divindades assim desejam).

[Nas duas colunas analisadas, percebe-se que velhos preconceitos impedem os autores de encarar pressupostos com base religiosa apenas pela própria base religiosa. Este tipo de falácia genética, infelizmente, tem marcado a nossa época, impedindo uma averiguação racional de pressupostos cristãos. Esperemos que mais consideração sobre causas e efeitos favoreçam o debate, substituindo o preconceito, promotor de um não-debate, o qual a ninguém favorece.]

Douglas, entenda que religião é uma forma dogmática de se pensar. Parte-se da petição de princípio (deuses) e se constrói toda uma ‘teologia’ ou sistema filosófico.

Questões científicas são zetéticas, ou seja, parte-se de uma observação e tenta-se entende-la, por meio de inferências, dados, comparações, resultados, etc. Por trás de um porquê, há infinitos por quês, que levam a infinitos questionamentos sem chegar a um ponto estanque.

Conduta criminosa

Vejamos o ponto estanque do criacionismo cristão é Deus, pois Ele assim disse (mas qual a evidencia Dele?). Já dentro da Teoria da Evolução não há o estanque ‘Darwin disse … Amém’. Se assim o fosse, ainda estaríamos elocubrando sobre a complexidade do olho. Darwin não a explicou por falta de conhecimento à época, mas para a infelicidade dos criacionistas, suas hipóteses de partir de algo simples para algo complexo se confirmaram.

Quanto ao preconceito aventado, este não existe. É mais um choramingo de criacionistas e sua ausência de evidências que realmente algo a ser considerado.

Mas que tal se eu fosse ao púlpito de sua igreja falar sobre as impossibilidades e a implausibilidade da criação bíblica? Seria a hora, o local e as pessoas certas?

Agora, inverta a situação; é interessante você ir a uma escola/universidade falar de criacionismo (religião) em plena aula de biologia, geofísica ou astrofísica?

Isso, Douglas, se chama desonestidade para com as pessoas, principalmente jovens, crianças e pessoas leigas de boa fé; é passar uma falsa idéia de algo, ou seja, é agir com dolo, é mentir, pois traveste-se a religião de ciência a fim de promover sua crença em detrimento das demais, contrariando preceitos constitucionais de liberdade religiosa e ensino adequado, além de auferir vantagens por meio do ardil. Ou seja, vossa conduta é criminosa (art. 171 do Código Penal – Estelionato), além de ensejar indenização cível pelos danos materiais e psicológicos causados às pessoas (alienação da realidade).

Uma válvula de escape

Quer promover sua crença; faça em seu templo ou nos locais e de forma adequada.

A questão, Douglas, é que vocês têm medo de que seu séqüito passe a cogitar que somos animais, produtos de contínua evolução das espécies e não somos feitos à imagem e semelhança de nada (as pessoas começarem a pensar é um problema para os dominadores). Assim deus é uma mentira criada por espertalhões em busca de controle da sociedade e de seus interesses próprios. Logo, nada de pecado original, portanto, ninguém precisa ser salvo de nada, assim sua crença vai por água abaixo, logo os fiéis debandariam, as finanças do templo cairiam, o que atentaria contra os interesses financeiros de muita gente. Ou seja, mexeu no meu bolso, mexeu comigo.

Tudo, Douglas, é uma ‘questão de confiança’ em ser transparente. Afinal qual é a de vocês em 200 anos de Darwin ainda estarem sendo atormentados pelas idéias dele, largamente confirmadas no decorrer desse par de séculos, e estarem promovendo suas ‘jihad’/ ‘cruzadas’ anticientíficas e obscurantistas?

Freud já deu o terceiro golpe na humanidade (a questão da consciência). Vocês estão bem atrasadinhos em sua luta.

Infelizmente, Douglas, evolução, big bang e muito da teoria da origem da vida já são fatos, enquanto deuses ainda estão no mundo da fantasia, impotência e medo humano (tratamento semelhante é o amiguinho imaginário que Freud estudou na análise infantil). Tememos morrer e acabar, por isso precisamos avidamente de uma válvula de escape para esta questão, que nos atormenta desde que tomamos consciência da vida.

Presas fáceis de interesses escusos

Aqui surge a religião, vendendo o que não pode cumprir e dando uma esperança implausível, por meio da ilusão de termos um espírito, àqueles que querem ser eternos (reencarnação, juízo final, ida ao Valhala, o Nirvana, o Paraíso, as montanhas azuis etc.) e em busca de auferir vantagens materiais aos seus pregadores e templos.

Infelizmente, me calar é o seu costume, quando atento contra sua ideologia.

Ser honesto, meu caro, começa em sermos conosco mesmos; é examinar tudo o que defendemos e seus prós e contras, a fim de sermos imparciais em nossas atitudes e juízos de valor.

Depois, fazemos isso com os demais para buscarmos a justiça e a democracia, não como conceitos vazios, como é o que mais se faz neste país e como claramente notei em seu texto.

Mas como princípios norteadores de uma sociedade igualitária e para todos, sem se dar preferência a este ou àquele indivíduo a esta ou àquela ideologia/crença religiosa, em detrimento das demais. É ser honesto com os jovens, crianças, desesperançosos e menos favorecidos, sem transformá-los em presas fáceis de nossos interesses escusos.

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Professor, funcionário público, São Paulo, SP

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