Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

INTERESSE PúBLICO > MÍDIA RADIOFÔNICA

O rádio que realmente merecemos

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 31/08/2010 na edição 605

O rádio que imaginamos é um rádio que valorize o cidadão e que seja usado no sentido de melhorar a sociedade com uma programação respeitosa, altruísta, plural e ética em todos os sentidos. No entanto, não é este o rádio que temos no momento, pois os grupos políticos, religiosos e econômicos têm se apoderado deste meio de comunicação e mandado mensagens deturpadas e completamente deslocadas do sentido da comunicação. O rádio tem grandes contribuições a dar para a construção da cidadania e mudança do sentido da vida de muitas pessoas, pois seu caráter de versatilidade e facilidade de comunicação faz com que chegue rápido e eficaz a todos os indivíduos. O grande problema é a mensagem que tem sido veiculada no rádio, que às vezes busca lavagem cerebral, venda de milagres, utilização política, destruição da pluralidade cultural de nosso povo e povoamento de programas com palavrões, desrespeito ao ouvinte e mensagens que não fazem parte do verdadeiro sentido da comunicação.

A grande pergunta é: por que o rádio tem sido tão vilipendiado em seu caráter comunicativo? A resposta correta é que falta aos seus usuários um processo organizativo que mude a situação deste meio, que exija respeito ao ouvinte, que questione o processo comunicativo via rádio. Há também necessidade de discutir o rádio em todos os setores da vida acadêmica com produção de textos, artigos e até teses sobre a importância do rádio e seu papel no cotidiano de milhões de usuários que às vezes têm no rádio a única maneira de conhecer o mundo em que vivemos. Sabemos que o rádio está presente em quase todas as residências e que, apesar da existência de outros meios de comunicação supostamente mais eficientes, o rádio ainda é o meio que faz parte da vida de pessoas de todas as classes sociais em seu dia-a-dia.

É preciso, sim, mudar o rádio e talvez o Poder Público tenha grande responsabilidade sobre este aspecto, considerando o caráter de concessão pública que este meio de comunicação é. É preciso que o Estado fiscalize o caráter das concessões e o uso que o mesmo tem em nossa sociedade. Há mecanismos que precisam ser utilizados para exigir o rádio como um instrumento de comunicação popular fazendo com que o povo tenha direito de ouvir um rádio plural e voltado para seus verdadeiros interesses. É preciso cassar concessões de rádio que hoje foram negociadas para grupos políticos e religiosos que não trazem contribuição alguma para a comunicação e para o bem dos indivíduos, pois vendem indulgências e não deixam que o rádio cumpra seu verdadeiro papel.

Pela dignidade e pluralismo

O rádio que muitos querem não está sendo posto em prática neste momento, pois há interesses em jogo que não são os verdadeiros interesses da população em geral. O rádio precisa de gente que lute para que a comunicação seja respeitosa, pois há muito lixo sendo verbalizado na comunicação e não vemos até o momento nem seleção de conteúdos nem responsabilidade do Poder Público no sentido da mudança e da garantia de um processo comunicativo que realmente atenda aos interesses dos que querem o bem do rádio e da comunicação em geral.

O rádio precisa de muita luta para a mudança de seu caráter e para o fim das baixarias que são promovidas em comunicações que não levam a lugar algum e que só poluem a mente e os ouvidos de nosso povo. A comunicação verdadeira tem de fazer parte das emissões radiofônicas com ideias e ideais que precisam aglutinar o povo em prol da construção da cidadania plena e da formação de um conhecimento que seja realmente voltado para a melhoria da sociedade.

Um rádio ético e cidadão tem de ser incentivado e buscado por todos os membros da sociedade que ainda não se deu conta da importância do rádio e que muitos insistem em negar no momento em que permitem que este meio seja agredido com mensagens pornofônicas, com utilização para interesses políticos e com massificação de ideias religiosas que são em muitos dos casos enganosas e visam exclusivamente a vantagem econômica a partir de mensagens que não tem nada a ver com religião.

Precisamos mudar o rádio, mas a mudança só virar no momento em que haja um processo organizativo da sociedade em busca de um rádio melhor, mais digno e, sobretudo, plural em todos os sentidos.

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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