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Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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INTERESSE PúBLICO > FIM DA ERA BUSH

O sapato como meio e mensagem

Por Alberto Dines em 21/12/2008 na edição 516

Este surpreendente ano de 2008 encerra-se de forma ainda mais inusitada. Talvez venha a ser considerado no futuro como o Ano da Verdade, se as revelações e desvendamentos prosseguirem com a mesma intensidade em todas as direções. Caíram por terra as promessas, as ilusões, as quimeras políticas, filosóficas e religiosas. Está ruindo o imbatível e infalível Sr. Mercado, cuja sabedoria e engenho eram vendidos há 200 anos como panacéia para todos os males. A natureza humana, artífice de tantas falcatruas, mostrou cabalmente o quanto é mesquinha e até que ponto está corrompida.


No sacolejo global, na vizinhança da antiga Babilônia – lá mesmo onde os homens pretendiam construir a imensa torre para chegar aos céus e impor-se ao Todo Poderoso – chega uma parábola rude e simples. Como todas. Um jornalista revoltado arvora-se em porta-voz do mundo e resolve castigar aquele que considera como culpado pelas maldições que afligem o seu país.


Ao contrário de tantos correligionários, não pretende imolar-se nem derramar uma gota de sangue. Quer mostrar a sua repulsa e escolhe a mais imunda extensão do corpo, aquela que pisa o chão e convive diretamente com a sujeira: o sapato.


O repórter iraquiano Muntadhar al-Zaidi tinha à disposição a imagem, o som, o papel e a palavra. Abriu mão do jornalismo, da imprensa, do manual da redação e dos códigos de conduta para inventar o sapato como veículo de comunicação. Louvado seja: lá onde os homens-bomba proclamam diariamente o seu horror à vida, al-Zaidi fez do calçado uma ação afirmativa.


Direitos humanos


O presidente Lula, preferiu a chacota, falou em chulé no meio de uma reunião de chefes de Estado sul-americanos e caribenhos, não percebeu o sentido e o alcance da inovação introduzida por al-Zaidi. Marshall McLuhan, o grande teórico da comunicação moderna, não contava com essa: o sapato é o meio e a mensagem.


Estadistas não devem mais temer atentados terroristas, porém não há equipamento confiável nem guarda-costas capazes de evitar que um sapato – ou tênis, sandália, chinelo, bota, com sola de borracha ou salto 12 – seja jogado nas fuças de um presidente mentiroso ou cínico.


Raul Castro, com o seu ar de general de pijama, candidata-se a alvo da segunda sapatada: a proposta feita em Brasília para a troca dos ‘dissidentes’ presos em seu país pelos cinco espiões (‘heróis’, segundo ele) presos nos EUA é indecente.


Os dissidentes cubanos são na verdade ativistas de direitos humanos, não pretendiam tomar o poder, não pretendiam sair do país, queriam melhorá-lo, lutavam pela liberdade. A mesma, aliás, pela qual lutaram os dissidentes de 1958 – os irmãos Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e tantos outros.


Momento mágico


Sapatada merece o presidente do Senado, Garibaldi Alves, como castigo pela espúria manobra de aprovar de madrugada a emenda constitucional que cria mais 7.343 vagas de vereadores sob o pretexto de aumentar a representatividade do cidadão. Em plena crise mundial, diante da real ameaça de uma brutal recessão, quando cada tostão deve ser investido em crescimento, o chefe do Poder Legislativo não tem pudor em assumir o seu incontrolável e entranhado coronelismo. Com estas credenciais pretende driblar a Constituição e candidatar-se novamente à presidência da Câmara Alta.


Candidato a receber um protesto modelo al-Zaidi é o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, homem-enguia que escapole de todas as crises e emergências em seu estado. As fotos de Divinópolis publicadas na sexta-feira (19/12) mostram um rio caudaloso, ondas revoltas, dilúvio bíblico: 41 municípios em estado de emergência, doze mortos, 23 mil desabrigados, 13 mil casas danificadas e o homem não aparece, mesmo encarapitado num helicóptero. Não é com ele, nunca é com ele.


A fila é grande – depois de Bush, al-Zaidi necessitaria de um formidável estoque de sapatos para veicular sua indignação. O sapato como veículo de comunicação pode apressar o fim do jornal impresso, pode ser mais instantâneo do que a internet, mais eficaz do que comícios. Estamos diante de um momento mágico em que o ser humano redescobriu o poder de dizer o essencial.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/12/2008 Ibsen MARQUES

    Pode ter sido um ato premeditado ou não, mas foi fruto de uma indignação que atingeiu em cheio também a imprensa. Aquela que foi incapaz de denunciar a invasão e os escusos interesses americanos, não só pelo petróleo, mas pela saúde de sua indústria bélica sempre ameaçada pela paz. Jornalista ou não, presenciar a morte de irmão e familiares talvez ultrapasse os limites do suportável. Ver e ouvir todo um povo achincalhado como excremento deve doer demais. O homem exposto a determinadas situações age de maneira inusitada até para si mesmo. Mas nada do governo bush foi inusitado. O eleitor americano sabia quem estava elegendo: Um homem da indústria do petróleo, filho de um presidente atormentado e, às vezes, desafiado por Saddam Hussein, apoiado fortemente pela indústria bélica americana e pelos radicais religiosos. Infelizmente, Bush não cumpriu corretamente seu papel. Não se iludam, Obama não foi eleito por ser um negro bonzinho e porque pretende representar o fim do preconceito racial. Ele foi eleito para defender o interesse dos americanos. Custe o que custar o que precisa prevalecer é o ‘american way of life’. Estados unidos e China estabelecem um dos maiores paradoxos políticos: Um é socialista e se abre democraticamente ao mercado externo, o outro é Democrático e se fecha como proprietário e imperador do mercado externo.

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