Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

INTERESSE PúBLICO > LANDELL DE MOURA

O verdadeiro pai do rádio

Por Luiz Guilherme Melo em 02/02/2010 na edição 575

Referência bibliográfica

COSTELLA, Antonio F. Comunicação – do Grito ao Satélite. 5a ed.Campos do Jordão: Editora Mantiqueira, 2002

Para quem não sabe, e muitos não sabem, o padre, cientista e brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928) foi o inventor do rádio. Sim, ele foi o primeiro a fazer a transmissão pública da voz humana. Isso entre 1893 e 1894, nas suas demonstrações de telefonia sem fio em São Paulo. Enquanto as transmissões do padre alcançavam oito quilômetros, o aparelho do italiano Guglielmo Marconi, que muitos consideram o pai do rádio, conseguia alcançar apenas alguns metros.


Na época das experiências públicas, a imprensa brasileira falou sobre a criação do padre e divulgou a data da transmissão (em 16 de julho de 1899), contudo, não deu o destaque merecido aos resultados. Até a imprensa estrangeira deu destaque às experiências de Landell de Moura – o jornal New York Herald publicou uma reportagem sobre seus experimentos.


Meses depois de outra demonstração pública de seu invento, na avenida Paulista e no Morro de Santana, Landell finalmente patenteou sua criação, em março de 1901.


Mesmo com essa invenção relevante para a mundo das comunicações, as pessoas não entenderam o que o padre tinha feito e por isso, ninguém se interessou em patrocinar. Ele ainda foi acusado pelos fiéis de ter pacto com o demônio por acharem que ele conversava com o próprio diabo, chegando, inclusive, a invadir seu laboratório e destruir seus equipamentos – tudo porque a invenção dele era um engenhoca sem fio que transmitia a voz humana, algo de outro mundo naquela época – uma bruxaria, portanto.


‘O padre é maluco!’


Esquecido e tachado de maluco no Brasil, Landell de Moura foi para os Estados Unidos, onde morou por três anos. Lá, conseguiu patentear, em 1904, três aparelhos – o wave transmitter (transmissor de ondas), o wireless telephone (telefone sem fio) e o wireless telegraph (telégrafo sem fio) –, recusou ofertas americanas por seus inventos e depois cometeu um grande erro: decidiu voltar ao Brasil, onde só encontrou incompreensão e até o seu direito de rezar missas havia sido cassado.


Descobri a triste saga desse brasileiro durante uma pesquisa sobre a história do rádio no livro Comunicação – do Grito ao Satélite (editora Mantiqueira), do professor e escritor Antonio F.Costella. É desse livro que tiro esta passagem reveladora:




‘Acolhido no Rio de Janeiro, em 1905, pelo almirante José Carlos de Carvalho – ao menos esse homem o apoiou –, concede entrevista ao Jornal do Commercio. Entusiasmado com a repercussão da entrevista, escreve carta ao presidente Rodrigues Alves, solicitando a oportunidade de utilizar dois navios da Marinha para demonstração de seus inventos. Um emissário do presidente vai procurá-lo e lhe pergunta a que distância deveriam postar-se os tais navios dentro da baía da Guanabara. Landell responde: `Baía da Guanabara, coisa nenhuma! Em alto mar, à distância maior possível. No futuro, as transmissões poderão ser até interplanetárias.´ O emissário – quem terá sido essa desgraçada criatura? – voltou ao palácio e relatou ao presidente: `O padre é totalmente maluco. Quer até falar com os astros!´ No mesmo momento que Marconi dispunha de esquadras navais inteiras, as autoridades brasileiras negaram ao nosso inventor o empréstimo de dois míseros barcos (…). Landell de Moura, afinal desacorçoado, desistiu de tudo. (…) Faleceu em 30 de junho de 1928, na Beneficência Portuguesa de Porto Alegre. Morreu em completo anonimato’ (p.158-160).


150 anos de um gênio esquecido


Enquanto Marconi tinha total apoio do governo da Itália (seu país de origem), e principalmente da Inglaterra, Landell de Moura, sozinho, não teve a oportunidade de aperfeiçoar seus inventos, ou seja, de alçar voos mais altos.


Agora, resta a nós – povo de memória fraca – e principalmente às nossas autoridades aprender uma lição com esse episódio lamentável da história da ciência brasileira e impedir que outros ‘Landells de Moura’ espalhados por esse país de extensões continentais tenham o mesmo triste fim. Depois, como diz sabiamente aquele velho ditado, não adianta chorar sobre o leite derramado.


Para nos redimirmos, em parte, do erro de jogar no esquecimento um gênio nascido em solo brasileiro, foi criado o ‘Movimento Landell de Moura’ (MLM). No site do MLM podemos encontrar a biografia completa do inventor e um abaixo-assinado para que as autoridades brasileiras reconheçam Landell de Moura como o inventor do rádio, esse meio de comunicação que é tão poderoso quanto a televisão, no quesito alcance. O objetivo é atingir um milhão de assinaturas até 21/01/2011, dia em que o padre completaria 150 anos de vida.


 

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Jornalista e acadêmico de Letras – Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Manaus, AM

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