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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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O papel da mídia na consolidação da democracia

Por Lilia Diniz em 07/05/2008 na edição 484

No dia em que comemorou dez anos, o Observatório da Imprensa na TV (06/05), discutiu o papel dos meios de comunicação no aprimoramento da democracia no país. O debate ao vivo, exibido pela TV Brasil, contou com as participações do escritor e historiador Ronaldo Costa Couto, em Brasília, e do jornalista Roberto Müller Filho, em São Paulo. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco concederam entrevistas ao programa sobre a atuação da mídia no período em que estiveram no comando na nação. Os ex-presidentes Fernando Collor e José Sarney foram convidados a gravar depoimentos, mas recusaram. A assessoria do presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou que a agenda do presidente estava lotada e que por isto ele não poderia gravar.


Antes do debate, o jornalista Alberto Dines comentou os principais assuntos da semana. O primeiro foi o costume de autoridades culparem a imprensa por problemas gerados por políticos. Depois, comparou a cobertura da revista Veja e do programa Fantástico, da TV Globo, sobre o escândalo envolvendo o jogador de futebol Ronaldo Fenômeno e travestis no Rio de Janeiro. O último assunto foi o pedido de prisão do pai e da madrasta da menina Isabella Nardoni, assassinada dia 29 de março em São Paulo, solicitado na tarde de ontem (06/05) pelo promotor Francisco Cembranelli.


Em seguida, no editorial do programa, Dines relembrou o primeiro editorial, exibido em 1998, quando advertiu que o Observatório na TV não seria um espetáculo, mas sim uma ação cívica para contribuir para o aperfeiçoamento das instituições. ‘Ao longo desta década, ficou evidente que a imprensa não pode colocar-se acima de qualquer questionamento, ela não é infalível. Mas ela não pode ser cobrada pelo governo, neste caso a cobrança soaria como ameaça. Só a sociedade pode oferecer o contra-poder ao poder da imprensa’, disse.


A luta pela liberdade de expressão


Em entrevista gravada em maio de 2006, o presidente Lula afirmou que a liberdade de imprensa é a razão pela qual ele conseguiu chegar à presidência da República e relacionou a questão com o avança da democracia: ‘Hoje, o Brasil é um país que caminha a passos largos para não permitir que nenhuma intempérie menor coloque em risco a democracia’, disse Lula.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a existência de uma imprensa livre é fundamental e que o Brasil lutou muito por esta conquista. ‘Eu vivi em vários momentos em que isso não era seguido no Brasil. A campanha pelas Diretas Já só deu aquele impulso quando a mídia tomou coragem e rompeu. Em todos os momentos decisivos foi assim’, analisou.


O ex-presidente Itamar Franco relembrou que logo que assumiu o governo convidou os repórteres que cobriam o Executivo para uma reunião no Palácio do Planalto. Para ele, o resultado do encontro foi excelente. Itamar Franco afirmou que a imprensa tinha total liberdade em seu governo e que não tinha nada para dissimular.


No debate ao vivo, Dines perguntou a Ronaldo Costa Couto, que acompanhou de perto a trajetória de Tancredo Neves, como era o relacionamento do ex-presidente eleito com a imprensa. O escritor informou que a convivência era boa porque Tancredo Neves ‘tinha juízo’ e tinha consciência de que a imprensa atua como um quarto poder. Costa Couto ressaltou que no início da década de 1980, ainda havia um ‘resto de ditadura’, um regime de exceção e que neste contexto a mídia era o canal para o projeto de reencontro com a democracia. O escritor disse que Tancredo Neves sempre fora um ‘craque’ no uso da imprensa para se comunicar com a população.


Imprensa e Golpe Militar


Para Roberto Müller, a imprensa foi fundamental tanto na democratização quanto na implantação da ditadura. Em um primeiro momento, teria apoiado o golpe militar de 1964, mas quando passou a ser vítima das arbitrariedades do regime e sofreu a pressão da sociedade teria mudado de posição. Passou a incrementar a luta do povo brasileiro pelo retorno da democracia.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso relembrou o período em que escrevia para o jornal alternativo Opinião, na década de 70, na condição de sociólogo. Os artigos eram lidos pelos censores, que cortavam os trechos com os quais não concordavam. ‘Era uma luta’, comentou. O conteúdo saía deformado e os fatos importantes eram excluídos. ‘A mídia livre é a essência da democracia’, afirmou.


Em outro trecho de uma entrevista do presidente Lula concedida em maio de 2006, o ex-líder sindical comenta da importância da mídia para sua trajetória. ‘Eu nasci para o mundo político graças à liberdade de imprensa. No momento em que o movimento sindical ainda era pouco difundido na imprensa brasileira, no ano de 1975, eu fiz parte de um conjunto de dirigentes sindicais que chamou a atenção de uma parte da imprensa brasileira’. O presidente considera que em menos de cinco anos, sem que mudassem a legislação, esse grupo mudou a história do movimento sindical no Brasil e que não seria possível sem a liberdade de imprensa.


Dines perguntou a Ronaldo Costa Couto sobre o relacionamento do ex-presidente José Sarney, que também é jornalista, com a mídia. O escritor disse que Tancredo Neves soube ‘fazer política até ao morrer’, pois entre o adoecimento e a morte houve tempo para as forças políticas entrarem em acordo. José Sarney assumiu sem questionamentos da sociedade e manteve os compromissos de Tancredo Neves. Ciente do papel da imprensa sabia usá-la um benefício dos objetivos do governo.


Müller comentou que a discussão sobre o papel da mídia é complexa e ‘sem fim’. Teria sido acentuada quando houve a necessidade de reunir forças para o movimento pela volta da democracia, após o golpe militar. Com as novas tecnologias de informação, voltou ao debate a necessidade de limitar a imprensa. Para ele, a liberdade de imprensa precisa ser exercida na plenitude, mas com mecanismos de controle que evitem excessos.


A cobertura do Plano Real


Lançado em julho de 1994 por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, o Plano Real estabilizou a economia no Brasil. Para Itamar Franco, a atuação da imprensa no período foi correta, mesmo havendo a impressão geral de que o plano não seria eficiente. A mídia teria dado espaço aos técnicos e ministros do governo para que estes ‘desenvolvessem um raciocínio’ e mostrassem que o plano não interferiria nos contratos já em vigência. Em um segundo momento, a mídia teria supervalorizado o aspecto econômico do plano, deixando de lado os aspectos políticos e sociais. O ex-presidente avalia que no início do governo encontrou um país ‘apático, difícil de ser governado’. Seu governo teria feito o sucessor, mantido o Estado de Direito e deixado ao próximo presidente ‘um país em sua ordem democrática’ e a mídia não teria destacado esses fatores.


‘Eu presidi o país depois de nós termos conseguido a estabilização, quando era ministro da Fazenda. Houve, assim, um alívio’, comentou Fernando Henrique Carsoso. O ex-presidente disse que, na média, teve um bom relacionamento com a imprensa e que sempre procurou manter uma boa relação não só com os proprietários dos veículos de imprensa como também editores, jornalistas, e até os novatos na profissão: ‘Sempre dei atenção. Nunca tentei usar o poder para promover ou coibir’.


Fernando Henrique comentou o trabalho da mídia durante algumas crises financeiras e cambiais. Para ele, há um conflito porque é de interesse do país que certas notícias não sejam veiculadas para não gerar pânico, mas os jornais querem publicar. ‘Há muitas denúncias falsas, mas há muitas verdadeiras. A mídia põe o dedo na ferida. Se não tiver liberdade, a tendência do governo é não dar informação’, avaliou.


Queixas sobre da imprensa


O presidente Lula, em abril de 2005, comentou que não há um político, da situação ou da oposição, que não se queixe da atuação dos meios de comunicação. Para ele, a imprensa é um ‘bom remédio para consolidar a democracia’. Serve para fiscalizar a administração pública nas esferas municipal, estadual e federal. ‘E por mais que a gente não goste, sem ela nós não teríamos democracia’, disse. Em maio de 2006, o presidente assegurou que, enquanto estiver no cargo, os jornalistas podem ter certeza de que serão cada vez mais livres porque não haverá censura por parte do governo: ‘Se compreendermos esse jogo, nós iremos construir a mais sólida liberdade de imprensa deste mundo.’


O Observatório da Imprensa na TV também é transmitido ao vivo, via internet. O vídeo está disponível a partir do final da tarde de quarta-feira no endereço www.tvbrasil.org.br/observatorio. A TV Cultura e suas afiliadas, a partir desta semana, passam a exibir o debate às 0h10m.


Perfil dos participantes do programa


Roberto Müller Filho é jornalista há mais de 40 anos. É vice-presidente de Desenvolvimento Estratégico do Grupo Segmento e responsável pela edição brasileira da Harvard Business Review. Foi vice-presidente da Gazeta Mercantil, onde trabalhou por 20 anos e diretor de jornalismo da Rede Globo.


Ronaldo Costa Couto, escritor, é doutor em história pela Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). Economista pela Universidade Federal de Minas Gerais é também jornalista, pesquisador e professor universitário. Acompanhou a transição para a democracia e ocupou diversos cargos no governo Sarney.


 


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Dez anos de OI na TV


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV nº 460, no ar em 6/05/2008


Este Observatório da Imprensa nasceu na televisão há exatos dez anos, em 5 de maio de 1998. Mas começou na internet dois anos antes, em 1996, onde continua até hoje. Dois anos antes, em 1994, inaugurava-se na Unicamp o Labjor, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Nosso projeto foi incubado numa universidade, mas não é um projeto acadêmico; o Observatório está na TV, mas não é um espetáculo, é uma ação cívica, porque numa democracia o acompanhamento crítico da imprensa é indispensável para o aperfeiçoamento das instituições.


Ao longo desta década ficou evidente que a imprensa não pode colocar-se acima de qualquer questionamento, ela não é infalível, mas ela não pode ser cobrada pelo governo – neste caso a cobrança soaria como ameaça. Só a sociedade pode oferecer o contra-poder ao poder da imprensa. Este Observatório é um dos seus auxiliares. Há outros, e quanto mais, melhor.


Se o cidadão precisa da ajuda da imprensa para entender o que se passa à sua volta, a imprensa não pode dispensar a ajuda do cidadão para melhorar o seu desempenho. É isso que dizemos há dez anos.

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