Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

INTERESSE PúBLICO > TV GLOBO

O português dos locutores esportivos

Por Deonisio da Silva em 16/10/2007 na edição 455

Quem acompanhou pela TV Globo o jogo Colômbia e Brasil, domingo último, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, pôde mais uma vez apreciar os desvios da norma culta, às vezes enriquecedores, por ensejarem visão de todo original, outras empobrecedores, por representarem simples abusos e irresponsabilidades, como se os jornalistas esportivos estivessem acima de obrigações de colegas de outras especialidades na imprensa e tivessem licença para transgredir as normas.

Assim, o narrador Galvão Bueno pergunta ao comentarista Paulo Roberto Falcão se o Brasil ‘mexeu’ no intervalo.

Bem, um dos sentidos do verbo mexer, do latim miscere, misturar, é movimentar-se, e nesse sentido o Brasil não se mexeu muito no primeiro tempo.

Provavelmente, pelo contexto, os telespectadores entendiam o novo significado do verbo mexer, que não era o de misturar ou de movimentar-se, mas o de substituir alguém. Mexer no time tem este significado.

Com todos os recursos tecnológicos disponíveis, cuja excelência era constantemente reiterada por closes, repetições e novos ângulos, os telespectadores passaram quase todo o primeiro tempo sem saber que o goleiro Júlio César não levara um cartão amarelo, informação passada logo nos primeiros minutos.

O goleiro não recebera cartão amarelo, tal como erroneamente tinha sido informado por Galvão Bueno, no lance em que tentara substituir a bola murcha. E quando recebeu o primeiro, que para Galvão era o segundo, e portanto deveria ser expulso, pois de acordo com as normas o segundo cartão amarelo num jogo vale por um vermelho, permaneceu em campo. Foi preciso o intervalo do primeiro para o segundo tempo para se saber que o cartão amarelo atribuído a Júlio César tinha sido dado a Lúcio.

Outro verbo curioso é enfiar, cuja origem é fio, do latim filum. No sentido figurado, como era o caso, quando se diz que determinado jogador enfiou a bola para o companheiro, é como se um fio a levasse de um a outro jogador.

Enfiar, verbo de múltiplas acepções, tem, neste caso, o sentido de colocar a bola num determinado ponto, entre adversários.

Mas colocar, no futebol, tem um significado bem diverso do que lhe dão os dicionários. Significa chute fraco e preciso na cobrança de faltas, especialmente do pênalti, em que a bola é como que colocada em seu destino com a mão. Ou, no dizer poético de Armando Nogueira, quando o jogador dá ao pé astúcias de mão.

Linguagem barroca

Desde as criativas metáforas e outras ricas figuras de linguagem barroca, com as quais o locutor de rádio, Fiori Gigliotti maravilhava os ouvintes, passando pelo entusiasmo e arranjos engenhosos na sintaxe, como fazia Osmar Santos com ‘ripa na chulipa e pimba na gorduchinha’, têm sido raros os lampejos de criatividade de nossos locutores e comentaristas esportivos. Parece que a televisão os desobriga de dominar a língua portuguesa…

Na TV Globo, especialmente, eles se distinguem pela aparência bem cuidada, ternos e gravatas de grife.

Aliás, também a origem desta palavra remete a luta. Vem do francês griffe e originalmente designava a garra pontiaguda de certos animais, passando depois, por metáfora, a significar também a engrenagem do projetor em cujos dentes as perfurações do filme são encaixadas para que ele possa ser exibido.

A grife de uma roupa, como é o caso, ensejaria que no campo e fora dele locutores e jogadores tivessem a garra de bons lutadores, convictos de que o futebol brasileiro tem uma grife insuperável, como demonstram os títulos conquistados, entre os quais o de pentacampeão do mundo, expressão literalmente inadequada e incorreta, pois o Brasil não foi campeão cinco vezes ininterruptas! Mas o uso alterou a norma e, a partir do tricampeonato conquistado no México, consolidou-se o novo uso. A rigor, o Brasil foi apenas bicampeão (1958 e 1962).

Domingo último, porém, parece que a altitude afetou também o mais popular de nossos narradores.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2007 Miriam de Fátima Cruz

    Realmente é lastimável o descompromisso por parte de grande parte da mídia impressa e a dita ‘televisada’ com a língua porotuguesa. Parece que o único compromisso é colaborar com a falta de educação generalizada que vivenciamos em nossos dias.
    Só posso dizer ‘ quem dera fossem os lucutores esportivos’ a cometerem erros absurdos e grosseiros, pior são aqueles que se consideram o ‘sal da terra’ como certos analistas políticos e econômicos’ que ao menos se dão ao trabalho de consertar os erros grosseiros que cometem, como se todo o telespectador ou leitor fosse analfabeto funcional.
    Apenas um toque saudosista, em minha infância, quando a televisão apenar engatinhava minha mãe dizia, que quando o locutor cometia um erro de português era descontado em seu salário, acho hoje que se um dia isso de fato ocorreu, já não acontece mais, pois muita gente chegaria ao final do mês devendo salário. E mais, ainda lembro de um tempo em que alguns dos grandes jornais não admitiam erros de português, e ao que me consta os cursos superiores de Jornalismo ainda nem existiam. Um detalhe, acho que ainda não estou muito velha, tenho 52 anos e já tenho saudades destes tempos.

  2. Comentou em 22/10/2007 Ricardo Augusto Pontes

    Ótimo!! Vamos todos falar a língua portuguesa com a perfeição exigida pelos gloriosos professores universitários, jornalistas e filósofos de final de semana… Vão arrumar o que fazer!! Eu torço PRO Brasil, dou TAPA na bola, COLOCO a bola numa falta e ENFIO em uma jogada em velocidade… E se o time não está satisfatório eu MEXO nele mesmo!! Vamos parar com essa frescura de tentar trazer tudo o que nos cerca para as cadeiras escolares! Futebol não combina com isoo! Tem suas gírias próprias e seus TABUS!! Afinal, futebol não é jogado na sala de aula, e sim na hora do recreio!

  3. Comentou em 20/10/2007 Ricardo Camargo

    Parece impressionante que haja algumas pessoas que absolvam até mesmo as liberdades tomadas com a língua por parte de quem tem o dever de a conhecer pelo simples fato de o responsável pelo mau trato ser um dos integrantes da equipagem (permitam-me o galicismo, a esta altura, perdoável) da Globo! Entretanto, como dizem os ianques, este é um País livre. O que garante a quem quer que seja, também, o direito de sustentar que quanto mais cuidados se tomem com a língua, especialmente em se tratando de figuras que se apresentam como ícones, que se apresentam como exemplos com maior capacidade de influenciar comportamentos, maior a possibilidade de as pessoas enriquecerem o vocabulário, por um lado, e maior a facilidade de se fazerem entendidas. E o termo de comparação escolhido pelo Prof. Deonísio – e, desde logo, adianto que, no particular, subscrevo os posicionamentos dos leitores srs. Ubirajara e Marco Antônio -, ou seja, Osmar Santos, é muito feliz, quer porque desmente a idéia de que se trata de mero desconforto com a Globo, quer porque se trata de um exemplo de que, para ser criativo, não é necessário demolir a língua. Só é possível pretender inovar em qualquer ramo do conhecimento quando sejam dominados os fundamentos deste ramo do conhecimento. Um jornalista não saber o trato com a língua é o mesmo que um engenheiro não saber o trato com números.

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