Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

‘Obama faz história’, diz editorial da Folha

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 06/11/2008 na edição 510

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 6 de novembro de 2008


 


ELEIÇÕES NOS EUA
Folha de S. Paulo – Editorial


Obama faz história


‘OS MAIS de 62 milhões de votos que elegeram Barack Obama o 44º presidente dos Estados Unidos mudaram a história do país. O movimento por ele liderado revigorou a democracia americana, ao colocar abaixo barreiras que a continham numa moldura tradicional.


A pretensão presidencial do jovem político democrata não passava de uma aventura quando foi oficializada. O senador por Illinois, que nem completara metade de seu primeiro mandato federal, teria de desbancar quadros experientes, que davam as cartas na máquina do partido.


Se vencesse a etapa, Obama estaria diante de outro tabu: a rejeição, decantada em grande parte do eleitorado americano, contra democratas oriundos da franja cosmopolita e ultra-urbanizada do país. Tal antipatia, explorada pelos republicanos, ajudara a derrotar John Kerry em 2004. Desde a eleição do último desta linhagem -John Kennedy, em 1960-, só parecia haver esperança para candidatos democratas com raízes no Sul, como Jimmy Carter e Bill Clinton.


O racismo, por fim, seria adversário não-declarado, subterrâneo e tenaz, de Obama. A candidatura do filho de pai queniano e mãe branca desafiou uma sociedade que, 50 anos atrás -pouco tempo para a evolução de padrões culturais e morais-, admitia o segregacionismo, quando não o praticava, caso de Estados meridionais, com força de lei.


Ao assinar, em meados da década de 1960, as leis que puseram fim à segregação racial nos EUA, o presidente democrata Lyndon Johnson teria vaticinado com clarividência que, em conseqüência, seu partido perderia a hegemonia no Sul por uma geração. A vitória de um candidato democrata mestiço na Virgínia, bastião republicano por 40 anos, talvez enfeixe, melhor que outros acontecimentos extraordinários desta eleição, os significados mais profundos da mudança.


Sim, ‘a mudança chegou’, como disse Obama no discurso da vitória, em Chicago. Mas os cidadãos americanos estarão a cada dia mais ansiosos para saber qual a substância concreta da plataforma genericamente reformista enunciada, em tons proféticos, pelo presidente eleito. A façanha histórica da ascensão do senador democrata é um fato. Seu governo, contudo, enfrentará desafios administrativos de proporções também gigantescas.


Enquanto corriam os últimos atos da campanha presidencial, mais dados desoladores da economia americana eram publicados. A recessão aguda em setores com efeito multiplicador sobre a atividade econômica, caso do automobilístico, prenuncia golpes fortíssimos no nível de emprego para breve -com repercussões na quantidade de famílias despejadas de suas casas e no desconforto social como um todo.


Se não bastasse a maior crise econômica desde 1929, a agenda emergencial de Obama também incluirá as ocupações militares no Iraque e no Afeganistão. A magnífica eloqüência do presidente eleito não substituirá a sua completa falta de experiência em gestão pública.


A nomeação, já em curso, de um time de assessores tarimbados para comandar a transição de governo é um primeiro passo para aplacar a demanda imediata do público, americano e internacional, por medidas capazes de retirar os EUA da encruzilhada.’


 


 


Clóvis Rossi


Obama e Guantánamo


‘SÃO PAULO – Peço perdão antecipadamente aos que ainda se entusiasmam com política/políticos, mas sou obrigado a olhar a eleição de Barack Obama com os olhos de um velho brasileiro cético, cansado de ver surgirem promessas de ‘Nova República’, ‘Reconstrução Nacional’ e outras refundações da pátria, apenas para, na vida real, acabar tudo em mais do mesmo.


Claro que Obama pode ser diferente, mas, repito, a cor da pele e o extraordinário que é eleger um negro nos Estados Unidos não significam que a mudança virá de fato.


O próprio Obama, no discurso da vitória, já cuidou prudente e sabiamente de jogá-la para um futuro talvez remoto. ‘O caminho à frente será longo. Nossa subida será íngreme. Nós podemos não chegar lá em um ano ou mesmo em um período [presidencial]. Mas eu nunca estive mais esperançoso como esta noite de que chegaremos lá. Eu prometo a vocês -nós-, como povo: chegaremos lá’.


OK, Obama, tomara. Mas antes é preciso que você defina o que é ‘lá’, o que é a ‘mudança’. Antes ainda é preciso entender se foi Obama (e portanto a mudança) que ganhou ou se foi Bush (e tudo o que ele significa, inclusive John McCain) que perdeu.


Essa resposta não está disponível, mas há sinais desalentadores: em quatro votações estaduais sobre legislação a respeito de energia/ meio ambiente, a limpeza ambiental perdeu em três.


Significa que o tal de povo não parece lá muito disposto à mudança, ao menos nesse quesito.


Se o presidente eleito está de fato empenhado em uma mudança profunda, não precisa esperar um ano, não precisa esperar todo os quatro anos do mandato. Basta, no dia de sua posse, em 20 de janeiro, anunciar o fechamento da prisão de Guantánamo e a entrega de seus prisioneiros ao sistema judicial.


Devolveria os EUA ao ‘rule of law’, primeiro e vital passo.’


 


 


Eliane Cantanhêde


Salvador do mundo?


‘BRASÍLIA – Planalto e Itamaraty estavam tão eufóricos com a vitória espetacular de Barack Obama que nem se preocuparam com uma praxe: elogiar o presidente que sai.


Ninguém tocou no nome de Bush.


O que houve foi uma enxurrada de adjetivos para enaltecer a chegada de um negro à Presidência da maior potência do mundo, com uma bela biografia, um bom currículo escolar e cheio de boas intenções. A principal delas não é modesta: criar uma nova ordem internacional, com menos arrogância e mais parcerias. Isso interessa ao Brasil, emergente que se auto-intitula líder da América Latina.


Obama é eleito lá e já apresentamos cá uma extensa pauta para ele: reatamento com Cuba, solução para o Oriente Médio, maior presença na África, fortalecimento da ONU, maior relação com a América Latina, retomada da agenda do clima, reativação da Rodada Doha de comércio… Ops! Antes de salvador da humanidade, Obama precisa ser salvador da pátria.


Ao assumir, em janeiro, vai dar de cara com uma crise gigantesca e com os indicadores norte-americanos destrambelhados na área fiscal e início de recessão. Vai ter muito trabalho para arrumar a própria casa antes de pensar no mundo.


Para isso, conta com fatores objetivos e subjetivos. Obama assume em 20 de janeiro com uma votação extraordinária (contrariando a tradição de eleições apertadas, vide Bush), com ampla maioria democrata no Senado e na Câmara (contrariando o pêndulo Democrata-Republicano na Casa Branca e no Congresso) e com enorme boa vontade internacional. Isso ajuda principalmente na hora de pedir ‘sacrifício’, como já pediu.


As condições objetivas, portanto, são favoráveis. E há o fator subjetivo: a sorte. A própria crise, aguda na campanha, tende a amenizar até a posse. Só falta agora o mito da campanha estar à altura de ser presidente da maior potência -e com a economia de pernas para o ar.’


 


 


Claudia Antunes


A vitória do ‘outro’


‘A VITÓRIA de Barack Obama é a derrota simbólica das idéias de Samuel Huntington, cientista político americano influente em círculos conservadores. Huntington lançou, nos anos 90, a tese do ‘choque de civilizações’, segundo a qual, no mundo pós-Guerra Fria, o ‘outro’, eventual inimigo, seria definido não por sua ideologia, mas por sua cultura.


Seu último livro, de 2004, é um corolário dessa tese e sustenta que os imigrantes de origem latino-americana, para ele poucos afeitos à disciplina, eram uma ameaça à identidade dos Estados Unidos.


Com mais de 52% dos votos, Obama teve a maior votação proporcional de um candidato democrata à Presidência desde Lyndon Johnson, em 1964. Na eleição seguinte, em 1968, Richard Nixon derrotou um Partido Democrata dividido evocando a ‘maioria silenciosa’ -branca, sulista e socialmente conservadora- que a partir dali formaria a base do Partido Republicano em sua conquista da hegemonia ideológica.


A vitória de Barack Obama deve muito, óbvio, à debacle de George W. Bush, começando pelo militarismo sem fim da ‘guerra ao terror’ -ancorada, em sua concepção, na idéia do choque entre o Ocidente anglo-saxão e o islã- e desembocando na falência da crença nos mercados auto-regulados e nas políticas que privilegiam o topo da pirâmide econômica.


Mas os EUA já eram um país dividido ao meio quando Bush, ainda beneficiado pela onda de medo pós-11 de Setembro, venceu o democrata John Kerry, em 2004, por 50,7% a 48,3%. Só que os democratas haviam se rendido a lugares-comuns do conservadorismo e não tinham nem mensagem nem estratégia para inverter esse placar em seu benefício.


O pulo-do-gato de Obama foi explorar a nova demografia americana, em que os americanos ‘autênticos’, idealizados por gente como Huntington, deixavam de ser maioria e os jovens andavam descrentes da política. Descrito pela campanha republicana como o ‘outro’ exótico, elitista, terrorista e socialista, ele ganhou o impulso para a vitória com os votos dos eleitores de até 30 anos, dos negros e dos latinos.


Com programa vago como os de candidatos majoritários em qualquer parte, é impossível prever se Obama conseguirá, em tempos de crise, manter unida a base que o elegeu. É improvável, por outro lado, que sob seu comando o país atenda de bom grado às expectativas mundiais por um multilateralismo de fato, que não se resuma à recomposição da parceria histórica entre EUA e Europa.


Barack Obama não é o messias que se supõe que parte de seus eleitores imagina. Mas é um político que teve a ousadia de desafiar fatalismos.


CLAUDIA ANTUNES é editora de Mundo. O colunista Kenneth Maxwell está de licença.’


 


 


Painel do Leitor


Festa e tragédia


‘‘Como um jornal sério e conceituado como este publica o texto ‘Família brasileira vota em Obama e o compara a Lula’?


Obama estudou no Occidental College, na Universidade de Columbia e na Faculdade de Direito de Harvard. Trabalhou como advogado especializado em direitos civis em Chicago e foi eleito para o Senado em 2004.


E a carreira do presidente Lula?


Qual é a sua formação educacional e profissional?


Ambos vêm de famílias pobres, mas com estrutura de valores diferentes: coragem de vencer as dificuldades, de ter um bom estudo, responsabilidade em querer fazer realmente a diferença para si e para o outro, de fazer crescer dentro de si o empreendedorismo.


Desculpem-me, mas falta muito para Lula chegar aos degraus em que Obama está.’


YARA KASSAB, doutoranda em história social pela USP (São Paulo, SP)’


 


 


Janio de Freitas


À espera de Obama


‘AS ESPERANÇAS postas em Barack Obama, convictas e ardentes, no entanto são também difusas. Não traduzem identificação com pontos programáticos do candidato, que procurou ser tão superficial e generalista quanto possível. O que faltou nem sequer lhe foi cobrado, contando só com hipotéticos preenchimentos por comentaristas, tão vagos quanto o candidato de sua simpatia.


O desprendimento entre as esperanças e as esperáveis propostas objetivas e precisas, ao menos a respeito de problemas extremos como a guerra no Iraque e o terrorismo, deve-se talvez ao fato de que o apoio a Obama tem raízes sobretudo emocionais, sentimentais mesmo, humanitárias. Criadas pela dor imprecisa que as injustiças históricas e persistentes disseminam. É o apoio dos bons sentimentos, que a figura pacífica, amena e simplesmente humana de Obama parece feita para atrair.


Apoio, contraditoriamente em uma eleição à Presidência, quase apolítico, não fossem o seu e o sentido da candidatura democrata impregnados de repúdio a tudo o que Bush representa e contamina.


O que aguardar de Barack Obama é questão em aberto. Já o seria em grande medida, à parte a existência de planos bem definidos, porque as circunstâncias internas e externas não lhe oferecem boas vindas. Para debelar a crise financeira interna e suas conseqüências, e até para para a correção dos mecanismos do mercado internacional de dinheiro, por certo as credenciais de Obama não são as melhores nos Estados Unidos. É por outras vias que sua Presidência pode ser uma promessa de exceção.


No lema que definiu em seu primeiro discurso de vitorioso, Obama referiu-se a ‘democracia, liberdade e oportunidade’. O primeiro item, em sua acepção legítima, inclui os outros dois. Ao citar os três, Obama parece ter desejado uma referência, indireta como ainda lhe convém, à discriminação racial e econômica que compromete tanto a democracia nos Estados Unidos. Se conseguir avanços legislativos e práticos nesses dois aspectos indissociáveis da democracia, no plano interno Barack Obama já terá sido vitorioso.


Como centro de decisões mundiais, porém, os Estados Unidos não podem dissociar a sua vida interna e a relação que têm com tudo o que se passa no mundo em geopolítica, em políticas nacionais, em economia, em escolhas ideológicas, competições e conflitos. Em um exemplo agudo, a guerra de espasmos de ferocidade que Israel trava é também uma guerra dos EUA, o que lhe acarreta fortes reflexos na política interna e numerosos efeitos colaterais em grande parte do mundo.


Enquanto não for acomodada a situação no hoje chamado Oriente Médio, que sempre foi e é o Oriente Próximo, não haverá solução independente para áreas de perigo -Irã, Afeganistão, Paquistão, Líbano, Síria e países de grande presença muçulmana no extremo asiático. E, muito menos, para o tenebroso terrorismo. Do confronto entre israelenses e palestinos em pequena orla do Mediterrâneo pelo mundo afora, espalharam-se problemas que, com o terrorismo, levaram a mudar até a vida nos Estados Unidos. Eis aí um labirinto à espera de algo novo.


Nos planos interno e externo, Barack Obama será vitorioso se ao fim do seu mandato os norte-americanos puderem viver sem pensar em guerra. Há 70 anos, desde os primeiros compassos europeus da Segunda Guerra até hoje, o povo dos Estados Unidos não pôde viver sem as angústias das guerras, já em curso ou pressentidas. Barack Obama será um vitorioso além das esperanças se lhe der paz. O que requer outro êxito: sobreviver.’


 


 


Sérgio Dávila


Vitória de Barack Obama interrompe a hegemonia conservadora nos EUA


‘O eixo dos EUA mudou.


A pior crise econômica em décadas, aliada a uma nova coalizão de eleitores inflada pela maior mudança demográfica na história recente, elegeu anteontem o democrata Barack Obama o 44º presidente do país, o primeiro negro a alcançar o cargo. Com isso, abalou uma era de hegemonia conservadora consolidada a partir da eleição do republicano Ronald Reagan, em 1980.


Progressista pragmático, o presidente eleito de 47 anos tem o registro de votação mais à esquerda do Senado, mas foi forjado na política tradicional de Chicago. Sua eleição quebra a regra não escrita de que um democrata só é eleito presidente se tiver sido governador e for sulista. Primeiro presidente do norte liberal desde John F. Kennedy, apresenta-se como conciliador e promete um governo de centro, um meio termo entre o que fez no Congresso e o que pregou na campanha.


Em seu discurso de vitória, Obama retomou o tema da colaboração entre os partidos ao citar a fala de 2004 que o lançou no cenário político nacional. ‘Vamos resistir à tentação de voltar aos mesmos partidarismo, pequenez e imaturidade que envenenaram nossa política por tanto tempo’, disse o presidente eleito anteontem.


‘Os presidentes fazem campanha em preto e branco, mas geralmente governam em cinza’, resume Richard Haass, presidente do influente Council on Foreign Relations. ‘Obama deve juntar moderados e liberais (progressistas) numa coalizão renovada de governo de mudança’, define Mark Penn, estrategista político da fracassada campanha de Hillary Clinton.


Ele herda de George W. Bush um país à beira de recessão profunda, um mercado financeiro mundial que espera por uma reforma e duas guerras em andamento, do Iraque e do Afeganistão, que drenam recursos e abalaram a imagem do país no mundo. Terá de lidar com a ascensão econômica da China e o renascimento da Rússia como potência internacional.


Seu desafio é comparado por historiadores com o que esperava o democrata Franklin Delano Roosevelt em 1932, ao ser eleito no meio da Grande Depressão com uma plataforma de rigidez orçamentária que ele transformaria depois no New Deal (novo acordo). Anteontem, ao comentar a expectativa internacional sobre seu mandato, Obama falou de uma New Dawn (nova aurora).


‘Para os que estão assistindo hoje à noite de além de nossas costas (…), nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é compartilhado, e uma nova aurora de liderança americana está ao alcance’, discursou ele.


Se começa com a simpatia de grande parte do mundo, domesticamente ele terá a seu favor um Congresso em que seu partido comandará a Câmara e o Senado. Terá ainda uma expressiva votação no Colégio Eleitoral e o amparo da maioria absoluta do voto popular, um feito atingido por um democrata pela última vez em 1976, com Jimmy Carter.


‘Estamos entrando numa nova era, em que as mudanças transcendem a política’, disse Simon Rosenberg, da ONG jovem New Democratic Network. ‘Há a emergência de uma nova agenda de governo que é em essência do século 21, e Obama venceu com essa coalizão do século 21’, disse.


Para o senador democrata Charles Schummer, ‘é uma eleição de movimento tectônico, que acontece uma vez a cada geração e redefinem a relação das pessoas com o governo’.


O motor dessa vitória foi a economia, que bateu a raça, que ameaçava ser o fator oculto desta eleição, e os valores morais, que levaram George W. Bush adiante em 2004. A crise foi o tema principal para 62% dos eleitores, segundo boca-de-urna. Dos ouvidos, 92% disseram que o país está na direção errada, e 93%, que a situação econômica é ruim, ambos recordes históricos.


‘A economia foi o tal telefonema às 3h da manhã de Barack Obama’, resumiu Mark Penn, referindo-se ao comercial que aludia ao fato de Obama estar supostamente despreparado para atender, como presidente, a um chamado de emergência no meio da madrugada.


Ainda assim, não pode ser apequenado o fato de um filho de um queniano com uma americana do Meio-Oeste ter sido eleito presidente dos EUA, o primeiro país de maioria branca da história a escolher um negro como líder. Há 44 anos, o 44º presidente norte-americano poderia ser morto só por votar em determinadas regiões do país que agora comanda.


‘Se tem alguém aí que ainda duvida que a América é o lugar em que todas as coisas são possíveis, que ainda pensa se o sonho de nossos fundadores sobreviveu ao nosso tempo, se ainda questiona o poder de nossa democracia, essa noite é sua resposta’, disse Obama, no discurso de vitória. Na platéia, uma pessoa segurava um cartaz com a frase ‘A ajuda está a caminho’, que remetia ao que mostravam as equipes de salvamento às vítimas do furacão Katrina, outro fiasco de Bush.’


 


 


Em discurso, Obama invoca esforço de eleitora negra de 106 anos


‘No primeiro pronunciamento como vencedor da eleição, Barack Obama citou Ann Nixon Cooper, 106. Moradora de Atlanta, ela votou antecipadamente no democrata no dia 20 de outubro, ocasião em que foi personagem de uma reportagem da CNN. Nos anos 80, Ann foi premiada por uma emissora de TV do Estado da Geórgia pelo trabalho voluntário para melhorar as condições de vida dos negros nos EUA.’


 


 


Daniel Bergamasco


Para negros, Obama é ápice do processo de inclusão política


‘‘Ao ver o Obama ganhar, eu só pensava em quantas pessoas morreram neste país para que um negro como eu pudesse votar. E agora este país elegeu um negro para seu cargo mais alto. Era uma página da história sendo escrita e eu estava vendo aquilo ao vivo’, definia David Johnson à Folha, operário da indústria fonográfica, sobre assistir ao discurso pós-eleição do democrata Barack Obama, na noite de terça-feira.


Ao redor de Johnson, e assim como ele, negros e brancos circulavam por Chicago com a imagem e o nome do próximo presidente do país estampados em camisetas e broches. A diferença está nas conversas. Entre os primeiros, ecoa a expressão ‘fazer história’. ‘Que país é este com um presidente negro? Não sei. Espero que menos racista, no qual eu entre em um restaurante e não me olhem como se eu não pudesse pagar a conta’, diz o operário.


Mas que peso terá essa vitória nas relações raciais nos EUA? ‘Obama marca um ponto importante para os negros na América, mas o racismo não vai sumir no dia da posse’, disse à Folha o historiador Hendrik Hartog, do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade Princeton.


‘A vitória de Obama é uma evolução de um processo de participação dos negros na política americana. Nos últimos 30 anos, quase todas as nossas grandes cidades tiveram em algum momento um prefeito negro. Outros chegaram a cargos altos no governo, como [o ex e a atual secretária de Estado] Colin Powell e Condoleezza Rice. A Presidência é um grande passo, mas houve outros para que chegássemos aqui.’


Da noite para o dia?


Nas ruas, há quem veja (ou deseje) mudança mais brusca. ‘O país está diferente da noite para o dia. Chicago, ao menos, está’, dizia o artista plástico McArthur Binion, 62. ‘Os brancos estão olhando para mim e dizendo ‘oi’. Não entendo o porquê. Talvez estejam dividindo a alegria da vitória, mas talvez dividindo sua culpa.’


Hartog discorda. Para ele, a questão racial embalou Obama entre os negros, mas se teve algum peso entre os brancos, foi negativo. ‘Não acho que os americanos brancos sintam que são descendentes dos senhores de escravos e que têm de fazer justiça racial ao votar.’


Para Richard Parker, analista político da Universidade Harvard, a eleição de Obama já tem um impacto imediato e definitivo: a participação eleitoral.


‘O eleitorado negro não será mais o mesmo. É um segmento com uma tradição de voto menor que a dos brancos, mas o momento mostrou a todos que o voto deles importa muito. Isso não quer dizer que todos os próximos presidentes dos EUA serão afro-americanos, mas que o fato de essa possibilidade ser real fará com que não só negros, mas também latinos, se sintam mais incluídos no processo eleitoral’, disse à Folha.


Página da história


Para Hartog, a vitória de Obama é um dos pontos altos na integração entre negros e brancos nos últimos cem anos. ‘A integração militar na Segunda Guerra, quando negros passaram a poder comandar brancos, foi sem dúvida um grande passo. Depois veio a luta por direitos civis e [o líder negro] Martin Luther King. O movimento Black Power [anos anos 70]. Décadas depois, temos Barack Obama, fato histórico dentro de um contexto, mas que deverá ser lembrado como um degrau alcançado.’


Obama não havia nascido quando, há 53 anos, Rosa Parks despertou o movimento pelos direitos civis nos EUA ao se recusar a cumprir a ordem de um motorista de ônibus a ceder seu assento a um passageiro branco, no Alabama. Vigoravam no Estado, como em parte do país, leis de segregação racial.


Do movimento, emergiu Martin Luther King, assassinado em 1968 na mesma Chicago onde Obama celebrou sua vitória. No dia da eleição, a lembrança de Parks e King veio à tona em diversas citações.


‘Rosa Parks se sentou, e Martin Luther King pôde andar. Martin Luther King andou, e Obama pôde correr. Obama está correndo, e nós todos podemos voar’, disse o rapper Jay-Z em festa para Obama.’


 


 


Fernando Rodrigues


McCain louva valor histórico da vitória do adversário


‘O republicano John McCain fez um discurso elegante para admitir a derrota na noite de terça-feira em Phoenix, já madrugada de quarta no Brasil.


Foi generoso com o vencedor, o democrata Barack Obama, a quem disse respeitar por ter ‘inspirado a esperança de tantos milhões de americanos que erradamente eram considerados sem força ou com pouco poder de influência na eleição de um presidente’.


Depois, citou episódio do início do século passado, quando em 1910 o então presidente Theodore Roosevelt convidou o ex-escravo e educador negro Booker T. Washington para visitar a Casa Branca. ‘Pessoas se sentiram insultadas’, disse McCain. ‘A América hoje está longe daquele período de intolerância cruel e horrenda. Não há prova melhor disso do que a eleição de um afro-americano para a Presidência dos EUA’.


A cordialidade não conteve o mau humor da platéia, reunida desde o início da noite no mais luxuoso hotel da capital do Arizona, o Biltmore. A cada menção a Obama, a público começava a resmungar ou a vaiar.


McCain fazia gestos com os braços para conter as reações, mas sem muito sucesso.


Logo no início do discurso, McCain disse ter telefonado para Obama para dar parabéns pela vitória. As reclamações do público começaram aí.


Uma das militantes irritadas foi Debbie Wyatt, 56, vendedora aposentada. ‘Estou triste porque me preocupo que o país esteja indo em direção ao socialismo. O nosso país é cristão.


Não acreditamos em governos muito grandes. Mas talvez daqui a quatro anos as pessoas abram os seus olhos e vejam as conseqüências do que fizeram hoje [terça-feira]’, disse ela.


O único momento de euforia foi quando McCain começou a fazer agradecimentos aos que participaram de sua campanha.


Ao chegar ao nome de Sarah Palin, a platéia republicana gritou o nome da governadora do Alasca e a aplaudiu da forma mais entusiasmada da noite.


McCain descreveu Palin como ‘uma das melhores pessoas para fazer campanha’ que ele já havia visto e ‘uma impressionante nova voz’ no partido.


‘Eu gosto dela e acho que o partido vai prepará-la para algum papel mais importante no futuro’, disse Debbie Wyatt.


McCain teve apenas um momento de alguma ovação ao assumir responsabilidade pela derrota. ‘Nós lutamos. Nós lutamos o máximo que pudemos.


E apesar de termos chegado perto, o fracasso é meu, não de vocês’, disse.


Quando o candidato derrotado deixou o local, o clima geral começou a ficar ainda mais para baixo. As cerca de 2.000 pessoas que estiveram presentes começaram a se dirigir ao estacionamento ouvindo gritos de ‘cinco dólares, cinco dólares’.


Eram os vendedores de camisetas preparadas para a ocasião com a inscrição ‘McCain – Palin Vitória 2008’. No início do evento, a camiseta era vendida por US$ 15.’


 


 


Leia a íntegra do primeiro discurso de Barack Obama após a vitória


‘Oi, Chicago. Se alguém ainda duvida que a América é um lugar onde tudo é possível, pergunta se o sonho dos pioneiros está vivo em nossos tempos e questiona o poder da nossa democracia, esta noite é sua resposta.


É a resposta das filas que cercaram escolas e igrejas em números que essa nação nunca havia visto. [É a resposta] das pessoas que esperaram três ou quatro horas, muitas pela primeira vez em suas vidas, porque acreditavam que agora precisava ser diferente, que as suas vozes podiam fazer diferença.


É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram ao mundo a mensagem de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis. Nós somos e sempre seremos os Estados Unidos da América.


É a resposta que motivou aqueles que ouviram por tanto tempo e de tanta gente que era preciso ser cínico, medroso e cético em relação ao que poderiam conquistar até colocar a mão no arco da história e abraçá-lo uma vez mais na esperança de dias melhores.


O caminho foi longo, mas esta noite, graças ao que fizemos nesse dia de eleição, nesse momento decisivo, a mudança chegou à América. Há alguns instantes, recebi um telefonema extraordinariamente gracioso do senador McCain. Ele lutou muito e por muito tempo nesta campanha. Ele lutou ainda mais e por mais tempo ainda por esse país que ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças ao serviços desse líder corajoso e altruísta. Eu o parabenizo e parabenizo a governadora Palin por tudo o que eles conquistaram. Estou ansioso por trabalhar com eles e renovar a promessa da nação nos próximos meses.


Eu quero agradecer ao meu parceiro nessa jornada, ao homem que fez campanha com o coração e falou pelos homens e mulheres ao lado de quem cresceu nas ruas de Scranton e com os quais andou de trem a caminho de Delaware: o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.


E eu não estaria aqui nesta noite sem o incansável apoio da minha melhor amiga nos últimos 16 anos, a pedra-angular da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama dessa nação: Michelle Obama. Sasha e Malia [filhas de Obama], eu amo vocês mais do que podem imaginar. E vocês mereceram o cachorrinho que irá morar conosco na nova Casa Branca.


E, embora ela não esteja mais entre nós, sei que minha avó está nos vendo, ao lado da família que me fez ser quem eu sou. Eu sinto falta deles nesta noite.


Sei que minha dívida com eles está além de qualquer medida.


À minha irmã Maya, à minha irmã Alma, a todos os meus outros irmãos e irmãs, muito obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a eles.


E agradeço ao meu chefe de campanha, David Plouffe, o herói anônimo que construiu aquela que eu considero a melhor campanha política da história dos EUA.


[Obrigado] ao meu estrategista-chefe David Axelrod, que tem sido um companheiro em cada passo desse caminho. [Obrigado] à melhor equipe de campanha na história da política -vocês fizeram isso acontecer, e eu serei eternamente grato pelos sacrifícios que vocês fizeram para chegarmos lá.


Mas, acima de tudo, eu nunca esquecerei a quem essa vitória realmente pertence. Ela pertence a vocês. Ela pertence a vocês. Eu nunca fui o candidato favorito na disputa por esse cargo. Nós não começamos com muito dinheiro ou apoios.


Nossa campanha não nasceu nos corredores de Washington. Ela nasceu nos quintais de Des Moines, nas salas de estar de Concord e nos portões de casa de Charleston. Ela foi construída por homens e mulheres trabalhadores que sacrificaram as pequenas poupanças que tinham para doar US$ 5, US$ 10 ou US$ 20 à [nossa] causa.


Ela [a campanha] cresceu por impulso dos jovens que rejeitaram o mito da apatia da sua geração e trocaram suas casas e suas famílias por empregos que ofereciam baixo salário e [poucas horas de] sono. Ela tirou suas forças de pessoas não tão jovens assim que bravamente enfrentaram frio e calor para bater às portas de estranhos, e dos milhões de americanos que se voluntariaram e se organizaram e provaram que, mais de dois séculos depois, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra. Essa é a nossa vitória.


E eu sei que vocês não fizeram isso só para ganhar uma eleição. Eu sei que vocês não fizeram tudo isso por mim.


Vocês fizeram isso porque entendem a grandiosidade da tarefa que nos espera. Por mais que comemoremos nesta noite, entendemos que os desafios que de amanhã são os maiores de nossos tempos -duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira em um século.


Enquanto estamos aqui nesta noite, sabemos que há corajosos americanos acordando no deserto do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para arriscar suas vidas por nós. Há mães e pais que ficam acordados depois de os filhos terem dormido, se perguntando como poderão pagar suas hipotecas e consultas médicas, ou poupar o suficiente para financiar os estudos dos filhos. Há novas energias para explorar, novos empregos para criar, novas escolas para construir, ameaças para enfrentar e alianças para consertar.


O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, nunca tive mais esperança do que hoje de que chegaremos lá. Eu prometo a vocês que nós, como pessoas, chegaremos lá. Haverá atrasos e inícios em falso.


Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que eu adotarei como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas.


Mas eu sempre serei sincero com vocês sobre os desafios que enfrentaremos. Eu os ouvirei, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, eu peço que vocês participem do trabalho de reconstrução desta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos -bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada.


O que começamos há 21 meses em pleno inverno não pode terminar nesta noite de outono. Esta vitória isolada não é a mudança que buscamos. Ela representa apenas a oportunidade de fazermos a diferença. E isso não vai acontecer se voltarmos ao modo como as coisas eram. [A mudança] não pode se feita sem vocês, sem um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício. Então alcemo-nos até um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, graças ao qual cada um de nós irá se levantar e trabalhar ainda mais e cuidar não apenas de si mesmo mas também dos outros.


Vale lembrar que, se essa crise financeira deixou algum ensinamento, é o de que não podemos ter uma próspera Wall Street enquanto a Main Street [economia real] sofre.


Nesse país, nós crescemos ou caímos como uma mesma nação, como um só povo. Resistamos à tentação de voltar ao partidarismo, à mesquinhez e à imaturidade que envenenou nossa política por tanto tempo.


Lembremo-nos que foi um homem deste Estado o primeiro a carregar a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre valores de autoconfiança, liberdade individual e unidade nacional.


Esses são valores que todos compartilhamos. E mesmo que o Partido Democrata tenha conseguido uma grande vitória nesta noite, temos uma dose de humildade e de determinação para superar as divergências que têm travado nossos avanços.


Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] havia declarado a uma nação muito mais dividida do que a nossa, não somos inimigos, mas amigos. A paixão fervente pode ter se acirrado, mas não pode romper nossos elos de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto, mas eu ouço suas vozes. Preciso de sua ajuda. Serei seu presidente também.


E a todos aqueles que nos acompanham nesta noite, para além das nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, nossas histórias são únicas, mas nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.


Àqueles que querem destruir o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que vêm se perguntando se o farol da América ainda brilha como antes: nesta noite nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou do tamanho da nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.


Esse é o verdadeiro talento da América: a América é capaz de mudar. Nossa união pode ser aperfeiçoada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que precisamos alcançar amanhã.


Essa eleição teve muitos feitos inéditos e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma em especial, que está em minha mente nesta noite, a respeito de uma mulher que votou em Atlanta. Ela poderia ser mais uma entre milhões de pessoas que fizeram fila para terem a voz ouvida nessa eleição, não fosse por um detalhe: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.


Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; [uma época] na qual uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos -porque era mulher e por causa da cor de sua pele. Nesta noite penso em tudo que ela viu ao longo de seu século na América -as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que nos diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: Sim, nós podemos.


Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças, descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos.


Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e depressão por toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos.


Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos. Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que dizia ‘Devemos Superar’. Sim, nós podemos.


Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela [Cooper] tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, atravessando os melhores e os mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos.


América, nós chegamos de tão longe.


Vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver?


Quanto progresso teremos feito? Chegou a nossa hora de responder a esse chamado. É o nosso momento.


Esse é nosso tempo de devolver as pessoas ao trabalho e criar oportunidade para nossas crianças; [tempo de] restaurar a prosperidade e promover a paz; de reavivar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, em meio a tantos, nós somos um; de que, enquanto respirarmos, temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos.


Obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.


Tradução de GABRIELA MANZINI’


 


 


Eliane Cantanhêde e Simone Iglesias


Brasil espera guinada na política externa e cobra apoio à região


‘A expectativa do Brasil é que, depois de uma vitória espetacular, Barack Obama não apenas estanque a crise econômica como promova uma guinada na política externa norte-americana, para fortalecer a ONU, reabrir o diálogo com Cuba, aumentar a ajuda humanitária na África, concluir as negociações comerciais da Rodada Doha e retomar a pauta sobre mudança climática.


Além dessa mudança radical em relação ao governo de George W. Bush, Planalto e Itamaraty cobraram maior atenção dos EUA para a América Latina, como declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Ele irá a Washington no próximo dia 15 para a reunião do G-20 ampliada -dos 7 países ricos, mais Rússia e emergentes, como o Brasil. ‘Espero que haja um aperfeiçoamento das relações entre Brasil e EUA e acho que também [deve haver] uma política mais voltada para o desenvolvimento na América Latina’, disse Lula ontem.


Ele acrescentou: ‘É preciso que os EUA continuem uma política mais ativa em relação à América Latina, uma vez que durante toda a década de 60 e 70 você tinha a Guerra Fria, quando os EUA mantinham uma visão de luta contra guerrilhas na região. Agora mudou, a democracia consolidou-se’.


Lula também pediu o fim do bloqueio a Cuba, porque ‘não há nenhuma explicação política’ para mantê-lo, e defendeu que os EUA de Obama usem o seu ‘peso muito importante’ para encontrar ‘uma saída’ para o conflito do Oriente Médio.


Mais do que focar em temas específicos, porém, o Brasil reagiu ao resultado da eleição com um tom otimista, recheado de adjetivos, e com a defesa de uma mudança de rumo.


Para Lula, foi ‘um feito extraordinário’ que os EUA tenham eleito um negro. Bem-humorado, brincou que preferia Obama desde sempre, ‘porque talvez ele seja corintiano’.


‘Quem duvidava de que um negro poderia ser eleito presidente dos EUA agora sabe que pode. Isso acontece num regime democrático, que é onde a sociedade se manifesta’.


Tanto Lula quanto o chanceler Celso Amorim, que ontem voltava do Irã, enviaram mensagens parabenizando Obama, como é de praxe.


Na mensagem de Lula, ele repete um slogan que integrou as duas campanhas, a dele próprio no Brasil e agora a de Obama nos EUA, contrapondo medo e esperança: ‘V. Excia. soube transmitir visão de futuro, capacidade de liderança e certeza de que a esperança é mais forte do que o medo’.


Ao citar os ‘desafios complexos para a ordem internacional intensificados pela gravidade da crise financeira’, Lula afirmou: ‘Estou certo de que os EUA responderão a esses desafios inspirados pela ‘intensa urgência do agora’ demandada por Martin Luther King’.


No seu texto, Amorim diz que ‘o povo norte-americano revelou mais uma vez ao mundo a força renovadora da pluralidade e da diversidade’ e acrescenta: ‘A sua eleição provou, ademais, que não há barreiras nem preconceitos que não possam ser vencidos’.


Até o tradicional discurso de que os democratas são mais protecionistas do que os republicanos e podem afetar os interesses comerciais brasileiros foi desativado.


‘A vitória do Obama é importantíssima para uma nova ordem mundial. O protecionismo democrata? Não existe mais. Foi soterrado pela crise econômica’, disse à Folha o embaixador Everton Vieira Vargas, subsecretário de Assuntos Políticos e principal responsável no Itamaraty pelo acompanhamento das eleições nos EUA.


O governo agora começa a focar a atenção na equipe de governo de Obama, principalmente para a área externa. Até ontem, só havia uma especulação: a de que o atual embaixador norte-americano em Brasília, Clifford Sobel, pode ser substituído por Thomas Shannon. Shannon é secretário assistente de Estado para o Hemisfério na era Bush, fala português e espanhol e tem tido um contato freqüente e fácil com o governo brasileiro.’


 


 


Euforia domina reação européia ao resultado


‘A esperança gerada pela campanha de Obama na Europa se transformou em euforia assim que a vitória do senador democrata foi confirmada.


O entusiasmo esteve estampado nos jornais, dominou festas que vararam a madrugada e ficou claro nas reações dos líderes europeus, que manifestaram admiração pelos EUA e sua capacidade de reinventar que havia muito não se via.


‘Bom dia, sr. presidente. Torne o mundo melhor!’, foi a manchete do jornal ‘Bild’, o mais popular da Alemanha.


O presidente francês, Nicolas Sarkozy, também aderiu ao clima de otimismo que tomou conta do continente. ‘Num momento em que devemos enfrentar juntos grandes desafios, sua eleição desperta enorme esperança na França, na Europa e além’, disse Sarkozy.


A chanceler alemã, Angela Merkel, que junto com Sarkozy ajudou a reaproximar europeus e americanos após a tensão causada pela invasão do Iraque, convidou o democrata a voltar a Berlim, onde em julho ele fez uma aparição digna de astro pop, diante de 200 mil pessoas.


O premiê britânico, Gordon Brown, elogiou ‘a campanha inspiradora’ conduzida por Obama e seus ‘valores progressistas’. Na Espanha, cujas relações com Washington ficaram abaladas depois que o governo socialista decidiu retirar as tropas do país do Iraque, o premiê José Luis Zapatero afirmou que a eleição de Obama ‘abre uma nova era de diálogo’.’


 


 


Raul Juste Lores


Na China, TV e telões ignoram a definição da disputa americana


‘Na China, só um canal de notícias entre os 15 canais da estatal CCTV cobriu o discurso da vitória de Obama ao vivo. Nos canais de maior audiência, a programação era a normal para uma quarta-feira de manhã, com reprises de novelas e musicais de época.


Com exceção de um punhado de cafés e restaurantes freqüentados por estrangeiros, telões em locais públicos de Pequim não mostravam o resultado da corrida pela Casa Branca.


Cientistas políticos concordam que a eleição não despertou muito interesse na China, mas alguns vêem a ‘normalidade’ como positiva. ‘Há um consenso nos EUA em como tratar a China e nesta campanha nem se usaram muitos ataques ao país’, diz o analista de relações internacionais Yang Hengjun.


‘De Nixon a Bush, a política americana em relação a China foi bem consistente. Mais conversas de alto nível serão necessárias com Obama, pois o futuro depende muito da cooperação dos dois países’, diz Zhou Qi, da Academia Chinesa de Ciências Sociais.


O presidente, Hu Jintao, e o primeiro-ministro, Wen Jiabao, enviaram mensagens de felicitações ao eleito. Hu falou em ‘feito histórico’.


As áreas de conflito na relação bilateral -direitos humanos, Taiwan, desvantagens na balança comercial, meio ambiente, a pouca transparência chinesa na divulgação de seus gastos militares- ficarão em segundo plano no governo Obama, graças à crise econômica, sugerem os especialistas.


‘Pequim tem cooperado por não de desfazer de seus títulos do Tesouro americano’, diz o professor Qi Zike, da Escola de Economia da Universidade de Pequim. A China possui US$ 550 bilhões em títulos do Tesouro americano.’


 


 


COLUNISTA
Folha de S. Paulo


Fernando Gabeira volta a escrever coluna na Folha às sextas-feiras


‘A partir de amanhã, o jornalista e deputado federal Fernando Gabeira (PV) passa a escrever, às sextas-feiras, a coluna ‘Rio de Janeiro’ da página 2, de Opinião, da Folha.


Gabeira está de volta ao jornal, onde já atuou como repórter especial e colunista da Ilustrada e da própria página 2. ‘Vou voltar com a intenção de colocar idéias, discutir algumas coisas. Os assuntos vão ser nacionais e internacionais, sempre com um viés político e cultural. Pretendo contribuir com as discussões. Nesse período [eleitoral] perdi um pouco o hábito de escrever. A coluna vai me ajudar’, afirmou.


O mineiro Fernando Paulo Nagle Gabeira, 67, acabou de disputar a eleição para prefeito do Rio pelo PV (Partido Verde), e teve 1,64 milhão de votos. Ele planeja, além da coluna, escrever um novo livro. É autor, entre outros, do best-seller ‘O Que é Isso, Companheiro?’, sobre sua experiência na luta armada durante o regime militar.


‘As colunas são mais curtas, vai ser um exercício muito interessante de contenção, concisão e de sugerir e questionar. Também será uma experiência estilística, ainda vou precisar de algumas colunas para chegar no ponto. Tenho alguns projetos literários, mas a campanha me atrasou algumas coisas, como o de fazer livro sobre meus 50 anos de vida pública.’’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


A história impressa


‘Mal amanheceu e surgiram relatos, na cobertura americana, de que os jornais haviam sumido. O blog City Room contou de uma banca de Nova York que não pôde atender a ‘centenas’ de compradores.


Do ‘Chicago Tribune’ ao ‘Dallas Morning News’, passando pelo ‘New York Times’, muitos tiveram que produzir segundas rodagens, além das tiragens já ampliadas programadas para o dia pós-eleição. Nos três citados, foram 50 mil a mais, cada. O ‘Chicago-Sun-Times’ elevou a tiragem em 50% e depois rodou mais. O blog de Jim Romenesko, uma referência em mídia, noticiou que o ‘Atlanta Journal-Constitution’ precisou mudar seu posto de venda depois que ‘uma multidão com fome de jornal’ tomou o prédio.


O site Politico fechou o dia brincando com o título ‘Como Obama salvou a indústria de jornais’. Avisou que o ‘Washington Post’ havia decidido publicar uma edição comemorativa de 150 mil exemplares e que os leitores formavam longa fila no prédio, à espera.


O editor do ‘WP’, em e-mail à redação postado pelo Politico, falou, sobre Obama: ‘Hoje começa uma nova história. Como vamos cobri-la vai influenciar o futuro do país e o futuro do nosso negócio aqui’, o jornal.


A CAPA


Jim Romenesko ressaltou e o blog do artista gráfico Robb Montgomery elegeu como melhor a capa do ‘Chicago Sun-Times’, da cidade de Barack Obama. Com foto em preto-e-branco, foi dada por ‘clássica e histórica’


CNN, O RETORNO


O blog TV Newser fez até piada, ao postar os dados da audiência na cobertura da noite da eleição, nos Estados Unidos. ‘Talvez tenham sido os hologramas.’ A CNN totalizou 12,3 milhões de telespectadores, perdendo por muito pouco de uma única rede, a ABC, que alcançou 13,1 milhões. A rede NBC veio em terceiro, com 12 milhões. Em patamar já mais baixo, no levantamento da Nielson, o canal de notícias Fox News marcou 9 milhões; a rede CBS, 7,8 milhões; e o canal MSNBC, 5,9 milhões. No total, 65 milhões acompanharam a cobertura pela televisão.


Segundo a AP, a CNN dobrou sua audiência em relação à cobertura da eleição presidencial de 2004.


OBAMA & LINCOLN


David Fitzsimmons, do ‘Arizona Daily Star’, e Mike Luckovich, do ‘Atlanta Journal-Constitution’, foram dois de muitos chargistas americanos que associaram as imagens de Barack Obama e de Abraham Lincoln


OBAMA & KING


A segunda inspiração para as charges históricas de ontem foi Martin Luther King, associado a Obama em charges publicadas por Henry Payne, no ‘Detroit News’, e Thomas Boldt, no canadense ‘Calgary Sun’, entre outros


O FIM DA GUERRA CIVIL?


Ecoando o momento histórico, o texto ‘mais popular’ no site do ‘NYT’ foi a coluna de Thomas L. Friedman, que abriu dizendo: ‘E então veio a se passar que em 4 de novembro de 2008, logo depois das 23h, horário do Leste, a Guerra Civil Americana terminou, quando um negro -Barack Hussein Obama- conquistou votos eleitorais bastantes para se tornar presidente dos Estados Unidos’. Guerra que começou 147 anos antes, na Virginia.


A coluna acaba falando de ‘um novo patriotismo’, sobre ‘o que significa ser um cidadão’, hoje -e proclama, ao fechar com estrondo: ‘Que a reconstrução comece’.


LIBERAIS VS.


A exemplo de Friedman, também Fareed Zakaria, que é editor na ‘Newsweek’, diz no ‘WP’ que Barack Obama tem agora a oportunidade de ‘realinhar a paisagem da nação e criar nova ideologia de governo para o Ocidente’. Sugere fugir da ‘terceira via’ de Bill Clinton e da ‘exaustão do conservadoradorismo’ de George W. Bush. Defende um liberalismo moderno.


CONSERVADORES


Por outro lado, no artigo ‘mais popular’ no site do ‘Wall Street Journal’ e num bloco de Neil Cavuto, âncora da Fox News, ambos órgãos conservadores, começou ontem um inusitado esforço de defesa de George W. Bush. Questionam, principalmente, o ‘tratamento’ que recebeu da mídia. Ao fundo, outro tópico: ‘Sarah Palin é o futuro dos republicanos?’.


‘TERRORISTA’ LÁ


Os sites de ‘WP’ e ‘New Yorker’ entrevistaram William Ayers, o ex-Weathermen que voltou a dizer que seus ‘atos radicais’ durante os anos 60 foram contra propriedade, sem ferir ninguém, e que seus contatos com Obama foram superficiais. Ele festejou em Chicago a vitória’


 


 


TECNOLOGIA
Folha de S. Paulo


Google desiste de acordo com rival Yahoo!


‘O Google disse ontem que desistiu de fechar a parceria com o Yahoo!, anunciada em junho, na área de publicidade associada a buscas na internet. Para a companhia, ‘está claro que os reguladores e alguns anunciantes continuam a ter preocupações’. A desistência abre espaço para nova investida da Microsoft sobre o Yahoo!.’


 


 


COMUNICAÇÃO
Folha de S. Paulo


Ministro quer impor ‘metas sociais’ a teles


‘O ministro Hélio Costa (Comunicações) disse ontem que o ministério estuda incluir no PGO (Plano Geral de Outorgas) obrigações sociais às empresas de telefonia fixa. O PGO é o documento que, na prática, permitirá a compra da Brasil Telecom pela Oi.


Poderão ser incluídas obrigações de atendimento a áreas remotas, de fronteira ou rurais. De acordo com o ministro, porém, a questão ainda não foi decidida.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Band troca telenovela por duas minisséries


‘A Band está negociando com o produtor Bruno Barreto a realização de uma nova versão da minissérie ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, baseada no texto de Jorge Amado.


Minisséries são a principal alternativa da Band para o futuro de sua teledramaturgia, quase extinta nesta semana, com a demissão de mais de 200 profissionais que trabalhavam na novela ‘Água na Boca’. A emissora cancelou a produção da que seria sua próxima novela.


O projeto de Barreto é de uma continuação da trama de ‘Dona Flor’ a partir do ponto em que acaba a escrita por Amado e reproduzida pela Globo numa minissérie, em 1997.


A Band também negocia a produção de uma versão brasileira da minissérie colombiana ‘Sin Tetas No Hay Paraiso’, sobre uma jovem que sonha com implante de seios de silicone e se envolve com narcotraficantes. Mas disputa os direitos com a Record, que já tem um pré-acordo para produzir uma novela sobre o texto.


A Band ainda trabalha com a possibilidade de fazer seriados. E, embora seus executivos digam que buscam um ‘novo conceito de dramaturgia’, que fuja da concorrência com Globo, Record e SBT, a hipótese de voltar a produzir novelas, em 2009, também não está totalmente descartada. A dramaturgia da emissora, literalmente, está sem rumo. Nos próximos meses, a prioridade será dos programas da faixa das 22h.


HOLOGRAFIA 1


Ao contrário da ‘Janela Mágica’, telão que funciona com ‘touchscreen’, no ‘Fantástico’, desta vez a Globo não pode ser acusada de copiar a CNN. A brasileira fez antes uma experiência de ‘teletransporte’.


HOLOGRAFIA 2


Anteontem, durante a cobertura das eleições americanas, a CNN fez uma repórter que estava em Chicago aparecer em um estúdio, como se fosse uma projeção em 3D de seu corpo.


HOLOGRAFIA 3


Em março deste ano, no ‘Esporte Espetacular’, a Globo fez Robinho, que estava na Espanha, aparecer no estúdio do programa no Brasil, interagindo com o apresentador. Diferentemente da CNN, o material da Globo foi pré-gravado. Mas o resultado foi muito parecido.


EM BAIXA 1


Sem o caso Eloá, o ‘Hoje em Dia’, da Record, desabou no Ibope. Depois de marcar 15 pontos, em 18 de outubro, está no patamar de cinco pontos.


EM BAIXA 2


Já o SBT continua levando surra no Ibope com o insosso ‘Olha Você’. Anteontem, o programa bateu novo recorde negativo. Com 2,3 pontos, ficou em quinto no ranking, atrás até da Cultura (2,6). Durante seis minutos, empatou com o culto de R.R. Soares na Rede TV!.


PERIGO


Adolescentes expostas a altos níveis de conteúdo sexual na televisão têm o dobro de possibilidade de terem uma gravidez precoce em relação às que recebem baixas doses de erotismo via TV. A conclusão é de um estudo feito nos EUA.’


 


 


Mônica Bergamo


Fome


‘Depois de fechar o patrocínio da seleção brasileira de futebol para a Copa de 2014, o Itaú se prepara para outras duas grandes tacadas: além de negociar contrato de patrocínio da transmissão pela TV Globo, tem conversa entabulada com a Fifa para ser o patrocinador oficial do evento. Caso consiga, tira os outros bancos de qualquer participação.’


 


 


Cristina Fibe


‘The Mentalist’ ri do gênero policial


‘Já era tempo de as populares séries de investigação pararem de se levar tão a sério. Irônica e sarcástica, ‘The Mentalist’, criada por Bruno Heller (‘Roma’), chega para quebrar um pouco as regras.


Patrick Jane (o australiano Simon Baker) é um ex-’médium’ (entre aspas, porque era tudo fingimento) cuja mulher e filha foram mortas, conforme saberemos no primeiro episódio, por um serial killer.


Após abandonar a vida espírita, o protagonista é chamado para ajudar uma equipe de investigação californiana com o ‘poder’ de sua mente -que se divide entre intuição, observação, inteligência e charme.


Sem grandes dramas, a série trata com leveza a solução de crimes. O mais importante é deixar o investigador-médium dar o seu show, encontrando em detalhes imperceptíveis provas incontestáveis.


Logo no início do primeiro episódio, exibido hoje pelo Warner Channel, o protagonista desconfia de um pai que matou a própria filha. Depois de pressionar (ou seduzir) a mãe da menina, a convence da culpa do pai e assiste ao assassinato dele. Diante da espantada equipe policial, dispara: ‘Não é tão ruim quanto parece’.


E aí até dá vontade de ver o resto do programa, que estreou em setembro nos EUA, onde foi bem recebido pela crítica.


THE MENTALIST


Quando: estréia hoje, às 21h


Onde: Warner Channel


Classificação: não informada’


 


 


LUTO
Folha de S. Paulo


Morre autor de ‘Parque dos Dinossauros’


‘O escritor norte-americano Michael Crichton, autor da saga ‘Parque dos Dinossauros’ e criador do seriado ‘E.R.’, morreu anteontem aos 66 anos, em Los Angeles (EUA). Seu site oficial (www.michaelcrichton.net) informa que Crichton morreu ‘inesperadamente’ e que lutava contra o câncer, sem especificar qual tipo.


Chrichton largou a medicina para se dedicar à carreira de escritor e vendeu mais de 150 milhões de livros pelo mundo. Mais de uma dezena de seus romances foi adaptada ao cinema, como os filmes ‘Jurassic Park – Parque dos Dinossauros’ (93); ‘Twister’ (96); ‘Congo’ (95) e ‘Assédio Sexual’ (94), estrelado por Demi Moore e Michael Douglas.


Também dirigiu filmes como ‘Westworld’ (73) e ‘Coma’ (78) e foi indicado sete vezes ao Emmy pela série hospitalar ‘E.R.’ -a produção foi ao ar entre 1994 e 2008 e ganhou o prêmio de melhor série dramática em 1996.


O autor ficou conhecido pelo estilo que misturava tramas científicas misturadas a suspense e aventura, como ‘O Homem Terminal’; na história, um especialista em ciência da computação tem eletrodos implantados em seu cérebro.


‘Por meio de seus livros, Michael Crichton serviu de inspiração para estudantes de todas as idades, desafiou cientistas em diversos campos e iluminou os mistérios do mundo de uma maneira que todos nós pudéssemos entender’, diz a família do escritor no site.


Para Steven Spielberg, diretor de ‘Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros’ e a seqüência ‘O Mundo Perdido: Jurassic Park’ (97) -dois dos maiores blockbusters dos anos 90-, ‘o talento de Michael superava até mesmo os próprios dinossauros de ‘Jurassic’. ‘Ele era o melhor para misturar ciência com conceitos dramáticos, o que foi essencial para dar credibilidade a dinossauros voltando a andar sobre a Terra.’


Segundo o site sobre cinema Imdb, Crichton também é autor do roteiro do ainda inédito ‘Jurassic Park IV’, com lançamento previsto para 2010.


Best-seller


Crichton escreveu seus primeiros romances usando pseudônimos, enquanto freqüentava a escola de medicina de Harvard. É desta época a ficção científica ‘O Enigma de Andrômeda’ (69), sobre uma bactéria misteriosa que começa a dizimar a população de uma cidadezinha, logo após a queda de um satélite. Foi seu primeiro best-seller, depois transformado em filme em 1971.


Também escreveu o romance ‘Estado de Medo’, no qual criou polêmica ao negar o aquecimento global. Talvez por ter esta posição, era considerado um dos raros escritores pró-George W. Bush.


No Brasil, a editora Rocco publicou 17 títulos e promete para o começo de 2009 ‘Parque dos Dinossauros’. Seu último romance foi ‘Next: O Futuro Bem Próximo’ (06), no qual usa engenharia genética para contar a história de homem que pensa ter sido curado de câncer, mas foi usado como cobaia. O autor deixa a mulher, Sherri, e tinha uma filha, Taylor.’


 


 


Rodolfo Lucena


Escritor foi expoente do tecnothriller


‘Ação, emoção e desastre são os pilares da obra de Michael Crichton, que combina aqueles elementos com grandes doses de ciência e tecnologia nas mais diversas áreas, da manipulação genética vista em ‘O Parque dos Dinossauros’ aos problemas ligados ao aquecimento global em ‘Estado de Medo’.


Com esses ingredientes, seus livros se tornaram os grandes representantes de um gênero de ficção conhecido como tecnothriller, em que pesquisas científicas ficam no olho do furacão de histórias contadas em ritmo de tirar o fôlego.


Aparentemente adepto de um dos parágrafos da Lei de Murphy, segundo o qual ‘tudo o que pode dar errado vai dar errado’, Crichton construiu muitas de suas tramas sobre experimentos científicos que, em algum momento, atravessaram a linha, explodiram, saíram do controle.


É assim com os dinossauros revividos e outras criaturas de diversos tamanhos -como o vírus extraterrestre de ‘O Enigma de Andrômeda’ e as nanoameaças de ‘Presa’-, mas a crise também se desencadeia por causa de humanas emoções, como o ciúme, a cobiça e a prepotência vistos, por exemplo, nas disputas entre as equipes em ‘Twister’.


Ele procurava basear suas histórias em questões atuais, presentes nas discussões científicas. E não se furtava a colocar no centro dos romances outras polêmicas modernosas, como a do assédio sexual nas empresas. Claro que com algum tempero especial: em seu livro ‘Disclosure’ (‘Revelação’), o agressor é a mulher -vivida no cinema pela exuberante Demi Moore em um dos exemplos em que o filme pode ser melhor que o texto original em que se baseou.


Mas isso nem sempre foi verdade em se tratando da obra de Crichton. Sua prosa viva é quase vista, em vez de lida, e cada leitor cria na mente seu próprio filme -difícil, portanto, de ser batido. O exemplo mais famoso dessa dificuldade é ‘O Parque dos Dinossauros’, que, apesar de ter atraído multidões, é um filme basicamente ruim, que nem a grife Spielberg salva. De modo geral, os monstrengos mecânicos são os melhores atores em cena… Mesmo assim, livro e filme tiveram as indefectíveis seqüências, uma pior do que a outra.


Alguns de seus livros geraram polêmica e mereceram críticas ácidas da comunidade científica. Mas não é disso que vive um autor de best-sellers, e sim de sua relação com o público leitor. E este, Crichton soube conquistar como ninguém, como provam os milhões de exemplares de suas obras e os milhões de dólares gerados pelos filmes baseados nelas.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 6 de novembro de 2008


 


ELEIÇÕES NOS EUA
O Estado de S. Paulo


Sofisticação chega com estilo à Casa Branca


‘Quando os americanos elegeram na noite de terça-feira o democrata Barack Obama como o próximo presidente dos EUA, eles não apenas enviaram o primeiro líder negro para a Casa Branca, mas também escolheram um candidato cujo perfil erudito contrasta com a personalidade dos últimos homens que ocuparam o Salão Oval.


Ao contrário dos republicanos George W. Bush e Ronald Reagan, que transformaram sua aversão ao intelectualismo em uma espécie de virtude, Obama é devotado ao aprendizado. O democrata é fã dos trabalhos de Reinhold Niebuhr, renomado teólogo americano, e freqüentou instituições de ensino de ponta, como as Universidades Colúmbia e Harvard. Obama também é estudioso do método socrático aplicado às escolas de Direito dos EUA – o princípio da extração da verdade pela astuta interação de perguntas e respostas.


Enquanto o ex-presidente George H. W. Bush gostava de disfarçar sua educação obtida na Universidade Yale e sua experiência em política externa com botas de cowboy, Obama parece confortável em mostrar seu conhecimento – especialmente quando escreve discursos comovidos de maneira notável.


Já na questão familiar, Obama difere dos seus companheiros democratas Bill Clinton e John F. Kennedy. Os dois ex-presidentes, apesar de serem fortes intelectuais, ficaram conhecidos como mulherengos patológicos. Obama é um dedicado pai de família, que em seu primeiro discurso como presidente eleito agradeceu à mulher, Michelle, à qual qualificou como sua ‘melhor amiga’, ‘a rocha da família’ e ‘o amor da minha vida’.


Analistas, porém, ainda estão divididos em relação ao efeito que a sofisticação de Obama terá na Casa Branca.’


 


 


US$ 20,50


‘Este era o preço de um exemplar histórico do jornal ?The New York Times?, que trouxe a vitória de Obama na capa, colocado à venda no eBay. A edição custa US$ 1,50 nas bancas’


 


 


Powell chorou e Rice disse estar ‘orgulhosa’


‘O general Colin Powell, primeiro secretário de Estado negro dos EUA, se emocionou ao falar da vitória de Barack Obama. ‘Chorei quando vi a multidões em Washington, em Nova York e em Chicago’, disse em entrevista à CNN, ainda com a voz embargada. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, disse que a vitória de Obama foi ‘exemplar’. ‘Como negra, estou particularmente orgulhosa’, afirmou Condoleezza.’


 


 


João Domingos e Leonencio Nossa


Em mensagem a Obama, Lula elogia ‘superação histórica’


‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ontem mensagem ao presidente eleito americano, Barack Obama, parabenizando o democrata e o lembrando das boas relações dos EUA com o Brasil.


‘Sua vitória representa um momento de superação histórica para os Estados Unidos, que provam mais uma vez a capacidade transformadora de sua democracia e de sua sociedade. Vossa Excelência soube transmitir visão de futuro, capacidade de liderança e a certeza de que a esperança é mais forte do que o medo’, afirmou Lula, na mensagem enviada por fax ao presidente americano.


Lula procurou lembrar Obama das relações diplomáticas entre Washington e Brasília: ‘Sua escolha pelo povo norte-americano se dá em um momento particularmente favorável das relações entre Brasil e os Estados Unidos.’ O presidente brasileiro disse estar seguro de que os EUA continuarão a melhorar o ‘excelente relacionamento’ entre os dois países, ‘que é guiado por respeito mútuo, por laços históricos e por valores e objetivos comuns.’


Antes de enviar a mensagem a Obama, Lula havia dito que esperava melhorias nas relações entre Estados Unidos, Brasil, América Latina e África com a eleição do democrata.


Lula também tratou da eleição de Obama e da relação dos EUA com a América Latina ao participar de uma cerimônia no Congresso que celebrou os 20 anos da Constituição. ‘Eu espero que (Obama) tenha uma política mais voltada para o desenvolvimento produtivo na América Latina.’


Segundo o presidente, durante toda a década de 60 e de 70, havia a Guerra Fria, portanto havia os EUA com uma visão de luta contra a guerrilha na América Latina. ‘Agora mudou, agora a democracia consolidou-se no continente, e eu espero que se construa aqui um (sub)continente de desenvolvimento, de investimento nos países mais pobres, de fim do subsídio.’


O embargo imposto pelos EUA a Cuba também foi citado por Lula, que disse ter confiança de que Obama acabará com o bloqueio econômico e comercial. ‘Espero que o bloqueio a Cuba acabe, porque não há mais nenhuma explicação na história da humanidade para que continue.’


ORGULHO


O presidente afirmou também que, por ser brasileiro e ter nascido na segunda maior nação negra do mundo – atrás apenas da Nigéria -, assistir à eleição de Obama o deixou muito orgulhoso. ‘Não é pouca coisa eleger um negro presidente dos EUA.’ De qualquer forma, continuou Lula, há uma diferença muito grande entre ganhar uma eleição e governar um país como os EUA.


DEMOCRACIA


Lula disse que a vitória de Obama representa, sobretudo, o reconhecimento do significado da democracia: ‘Quem duvidava que um negro poderia ser eleito presidente dos Estados Unidos agora sabe que pode, e só pode porque isso ocorre no regime democrático, que permite que a sociedade se manifeste.’


Para Lula, Obama é uma pessoa que tem demonstrado a competência política para lidar com questões complicadas, como o processo de paz no Oriente Médio. ‘Porque já faz décadas e décadas que se tenta (apaziguar a região) e não se consegue.’


Lula terminou sua mensagem dizendo que estava certo de que, sob a liderança de Obama, os EUA responderão aos desafios inspirados pela ‘intensa urgência do agora’ demandada por Martin Luther King.


AMÉRICA LATINA


VENEZUELA


O presidente Hugo Chávez destacou em comunicado a ‘importante vitória’ obtida por Obama, lembrando que a eleição americana atraiu a atenção de toda a opinião pública internacional. O presidente venezuelano ressaltou o fato de um negro chegar pela primeira vez à Casa Branca. ‘A eleição histórica de um afrodescendente na liderança da nação mais poderosa do mundo indica que uma mudança de época, iniciada no sul da América, pode estar batendo à porta dos Estados Unidos’, disse em um comunicado. ‘Estamos convencidos de que chegou o momento de estabelecer novas relações entre nossos países.’


CHILE


A presidente Michelle Bachelet afirmou que os dois países continuarão trabalhando para estreitar ainda mais sua relação e aproveitar oportunidades não apenas econômicas, mas também de intercâmbio tecnológico e desenvolvimento cultural. Durante um seminário internacional, Bachelet aproveitou para desejar sucesso ao presidente eleito dos EUA e classificou a eleição americana como um ‘momento histórico’, principalmente diante das crises energética e econômica. ‘Estou certa de que Barack Obama é a expressão dos sonhos de toda uma nação por um futuro melhor’, disse a líder chilena.


ARGENTINA


A presidente argentina, Cristina Kirchner, informou ter encaminhado uma carta ao presidente eleito dos EUA para cumprimentá-lo. A vitória nas urnas, segundo ela, representou um marco ‘em uma das epopéias mais apaixonantes da história’. Destacando a importância da eleição no combate à discriminação e na luta contra as desigualdades sociais, ela comparou o presidente eleito a Martin Luther King. E, ao citar a crise econômica, pediu medidas ‘inovadoras’ e ações conjuntas para solucionar o problema. Ao saudar Obama, Cristina disse que o presidente eleito poderá contar com sua ‘sincera amizade’.’


 


 


Tutty Vasquez


A derrota da má notícia


‘Os americanos não sabem onde foi exatamente que deixaram de errar para dar tudo certo desse jeito. Em algum momento da madrugada de ontem, a bagunça perdeu o controle do país e, antes do amanhecer, o mundo já conhecia o nome do novo presidente dos EUA. ‘Isso aqui está parecendo o Brasil depois do fechamento das urnas!’ – festejava o povo nas ruas alegres de São Francisco.


Foi tudo muito rápido e democrático para os padrões americanos. Não se confirmaram, sequer, as previsões de fraude, voto racial ou reedição de equívocos grosseiros da imprensa. A lisura da apuração desmoralizou as longas filas organizadas de véspera diante das urnas. A má notícia morreu na praia.


Pode ser o renascimento da boa notícia, fenômeno que, aliás, vem ensaiando algumas manchetes na cobertura da crise econômica no Brasil. Repara só: está pintando uma luz no fim do mundo, que ninguém sabe de onde vem. Não a perca de vista!’


 


 


INTERNET
O Estado de S. Paulo


Google encerra acordo com Yahoo


‘Após um mês de investigação pelo Departamento de Justiça dos EUA, o Google encerrou o acordo de busca com o Yahoo. ‘Prosseguir com o acordo significaria correr o risco não apenas de entrar numa prolongada disputa jurídica, como também de estragar as relações com parceiros valiosos’, informou a companhia. O acordo, fechado em junho, permitia ao Yahoo apresentar anúncios de busca vendidos pelo Google e compartilhar alguma receita.’


 


 


Cláudio Vieira e William Glauber


Google entrega 18 mil álbuns a CPI, que espera identificar 8 mil pedófilos


‘O Google Brasil entregou ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia, em Brasília, 18.330 álbuns do Orkut suspeitos de conter imagens de pornografia infantil. Os endereços eletrônicos, solicitados em 2 de julho, foram identificados com base em denúncias enviadas à ONG SaferNet. O presidente da CPI, senador Magno Malta (PR-ES), espera identificar até 8 mil pedófilos que atuam na maior rede virtual de relacionamentos do País, com 27 milhões de usuários. ‘O próximo passo será identificar os IPs (os computadores dos usuários) e quebrar o sigilo telefônico dos suspeitos.’


Malta disse que os novos dados, em conjunto com a aprovação pela Câmara dos Deputados hoje de uma legislação mais rígida contra a pedofilia, permitirão fazer a maior operação policial já vista no País contra abusos infantis. ‘E não será uma ação qualquer, como ocorre hoje, só com buscas e apreensões. Qualquer proprietário de qualquer computador que distribuir ou guardar pedofilia poderá ser preso.’


O diretor de Comunicação do Google Brasil, Félix Ximenes, disse que a empresa acatou uma ordem da comissão. ‘Entregamos o material porque a CPI tem poder de investigação e de polícia’, afirmou ele, ao destacar que a companhia está disposta a colaborar. ‘Se for comprovada qualquer irregularidade, excluiremos os usuários.’ Entre os denunciados há perfis ativos e inativos.


Segundo Ximenes, a demora em levantar as informações se deu porque a equipe técnica da CPI solicitou mudanças nos formatos das imagens. O presidente da SaferNet, Thiago Tavares, confirmou a necessidade de alteração dos arquivos, que serão processados por uma ferramenta desenvolvida pela ONG e cedida à CPI. O software permite triagem semi-automatizada de material pornográfico infantil.


Para Tavares, no entanto, o Google poderia ter sido mais ágil. ‘A empresa disse que eram muitas páginas, muito conteúdo e tiveram dificuldades para adaptar o formato. Levaram quatro meses para cumprir uma ordem de quebra de sigilo. Era possível reunir esse material em 30 dias’, afirmou Tavares.


Em abril, já haviam sido entregues à comissão 3.261 álbuns, que permitiram a identificação de 500 pedófilos e renderam material para a deflagração, em setembro, da Operação Carrossel 2, a maior do gênero já feita pela Polícia Federal, que resultou em busca e apreensão de farta quantidade de pornografia infantil em 113 endereços no País. O desbaratamento dessa rede ainda levou informações ao banco de dados da Interpol e permitiu operações inéditas na Europa. Mas só uma pessoa foi presa no Brasil – em flagrante, transmitindo imagens pornográficas.


GUERRA JUDICIAL


A abertura desses conteúdos no Orkut, porém, só foi possível após uma briga judicial. Em 2005, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ações civis contra o Google para conseguir acesso a dados de supostos pedófilos. Em junho deste ano, a CPI da Pedofilia ameaçou entrar com um processo para fechar a empresa, caso não colaborasse.


Os procuradores da República alegavam que a empresa se recusava a fornecer informações, com base na legislação da matriz americana. Também haveria resistência na manutenção dos dados além de 30 dias, insuficientes para se comprovar a ‘materialidade’ dos crimes. O conflito se agravou quando o MPF denunciou o serviço de mensagens e álbuns restritos a convidados autorizados pelos usuários, criado em 2007. O sigilo permitia, para os procuradores, trocas de imagens de pornografia infantil.


Uma solução só foi possível com a assinatura, em julho de 2008, de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O acordo prevê que o Google Brasil, após receber denúncias via internet ou SaferNet, deverá encaminhar ao MPF dados de usuários suspeitos. O Google deverá também armazenar essas ‘provas’ por seis meses, renováveis pelo mesmo período.


A entrega dos álbuns ontem à CPI, de acordo com o executivo da Google, não tem relação com o TAC. ‘Continuamos cooperando e cumprindo o acordo. Já tivemos correspondências (troca de informações sobre usuários suspeitos) com o Ministério Público’, afirmou Ximenes.’


 


 


Cláudio Vieira e Edison Veiga


CPI já estuda como alcançar pedófilos em chats


‘Investigadores de crimes virtuais temem que os pedófilos migrem para outras áreas, com o cerco fechando em torno de álbuns restritos, como os do Orkut. ‘Mas já estamos trabalhando numa legislação que alcance os suspeitos que atuam em chats e outras áreas virtuais’, adiantou o presidente da CPI da Pedofilia, senador Magno Malta (PR-ES). A comissão ainda aposta numa cartilha de cuidados e numa campanha nacional contra a pedofilia.


O Grupo de Combate a Crimes Cibernéticos do Ministério Público Federal (MPF) ainda acha prematuro avaliar migrações, pois 90% das queixas se referem ao Orkut. Os promotores esperam que os criminosos percebam que a internet não é terra sem lei. ‘Acho prematuro qualquer panorama concreto, mas é possível sim (que haja uma migração para outros sites e serviços da internet). Por isso, o Ministério Público Federal vem trabalhando em outras frentes’, disse a promotora Adriana Scordamaglia.


Ela acredita que, com o fechamento do cerco aos sites de relacionamento, é possível que os pedófilos prefiram agir por meio de e-mails e chats. ‘São meios que ainda não conseguimos interceptar’, diz. ‘Por isso, tentamos melhorar a legislação para facilitar as investigações e a repressão aos crimes.’’


 


 


MARKETING
Ana Paula Lacerda


Uma palavra pode valer mais que mil slides


‘Em um evento com cerca de 200 pessoas, o vice-presidente de marketing da Vivo, Hugo Janeba, precisava fazer uma apresentação. O texto era bastante longo e o executivo temia esquecê-lo lá pela metade da palestra. Para evitar o problema, arranjou um teleprompter (monitor para exibir o texto) e o usou na apresentação.


‘Foi a primeira vez que usei aquilo, e foi péssimo. Perdi o ritmo, não ficou nada natural’, lembra. Hoje, muitas apresentações depois, ele afirma que se preparar e treinar é o básico de qualquer apresentação. ‘Saber passar uma idéia é crucial na carreira de um executivo. Afinal, se você passa uma idéia errada, prejudica sua empresa – e por conseqüência, seu desempenho.’ Ele conta que recentemente, conseguiu fechar um negócio mostrando um slide só e poucas palavras. ‘Ninguém precisa de um monte de power point, basta fazer a platéia acompanhar o raciocínio.’


Todo executivo já foi vítima de apresentações longas, com dezenas de slides e com um apresentador que lia o que estava escrito na tela. Ou já se defrontou com gráficos incompreensíveis com números minúsculos.


‘Certa vez, assisti uma apresentação em que o representante de uma empresa queria mostrar 400 slides. Depois que todos os presentes já tinham ido ao banheiro e tomado água, nos rebelamos e pedimos para terminar a apresentação’, conta o presidente da Serasa, Francisco Valim. Segundo ele, apresentar projetos e idéias são um processo crítico para as corporações. ‘Sempre que você está apresentando, está exibindo a sua forma de pensar, ou a forma de pensar da sua empresa. Se não fizer algo bom, o resultado pode ser desastroso.’


Janeba, da Vivo, concorda. ‘Quantas vezes você já não deixou de levar alguém a sério porque a pessoa cometeu um erro de português no meio de uma apresentação? É algo banal, mas pode acabar com a credibilidade de um executivo.’


O tema tornou-se tão preocupante que surgiram empresas especializadas em apresentações corporativas. Uma delas, a Soap, contabiliza cerca de 3,5 mil apresentações nos últimos cinco anos e prevê um crescimento de 50% em faturamento este ano. ‘Não adianta o executivo preparar um projeto durante um ano, se nos 10 minutos de apresentação estraga tudo’, diz um dos sócios da Soap, João Galvão – os outros são Francisco Papaterra e Eduardo Adas. ‘O trabalho da Soap é criar apresentações em power point com animações e gráficos elaborados. Mas tudo com sentido, de acordo com a necessidade do cliente.’


Segundo Galvão, outro erro comum nas apresentações é colocar planilhas inteiras, ou textos enormes. ‘Se é possível ler toda a apresentação nos slides, o apresentador é desnecessário. Afinal, as platéias costumam ser alfabetizadas’, brinca. Ele afirma que já fez até apresentações sem nada escrito, após treinar os apresentadores. ‘O power point é uma ferramenta ótima, o problema é achar que basta jogar tudo ali e mostrar. É exatamente o contrário.’


DETALHES


‘As pessoas acham que é necessário entrar em detalhes, e a apresentação vira um estorvo’, diz o diretor de projetos especiais da Rede Record, Júlio Casares, que estima fazer cerca de 700 apresentações e palestras por ano. ‘O importante é você conquistar a platéia e fazê-la acompanhar seu raciocínio, para chegar à mesma conclusão.’


Segundo Casares, não é qualquer executivo que consegue apresentar os projetos de sua empresa. ‘Alguns têm o dom, mas de maneira geral ter o ritmo e falar bem é algo que exige dedicação. Com treino, a projeção do executivo pode ser imensa’, comenta.


ERROS COMUNS


Escrever e ler: Slides complementam a apresentação, não são um relatório a ser lido


CTRL+C, CTRL+V: Não copie textos e planilhas para slides de apresentação. São mídias diferentes, com usos diferentes


Falta de treino: Se você dedicou meses a um projeto, saiba mostrar a importância dele aos outros


Excesso de recursos: Música e efeitos não garantem uma boa apresentação. Em demasia, a tornam de mau gosto’


 


 


ARTE
Tonica Chagas


O fascínio de Van Gogh pela noite


‘Um ano antes de acabar com a própria vida, Van Gogh (1853- 1890) pintou A Noite Estrelada, um dos quadros mais famosos a respeito daquelas horas entre o crepúsculo e a madrugada. A tela, que pertence ao Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, deu origem à exposição Van Gogh and the Colors of the Night, que o museu exibe até 5 de janeiro. É a primeira mostra que focaliza o quanto o pintor holandês, um homem da noite, refletiu sobre este tema. Ele já o representava desde antes de se considerar artista e o retomou várias vezes durante os dez anos de sua carreira.


Marcada por obras-primas como Os Comedores de Batata, O Semeador, A Cadeira de Gauguin e A Noite Estrelada sobre o Ródano, Van Gogh and the Colors of the Night faz parte de uma série de mostras relativamente pequenas, mas surpreendentes e bem-sucedidas, que o MoMA iniciou, há dois anos, explorando temas abordados por um artista a partir de uma de suas obras mais conhecidas. A exposição tem 23 pinturas e 10 trabalhos sobre papel que demonstram a fascinação de Van Gogh pela noite e pontuam todos os períodos da carreira dele.


Joachim Pissarro, curador do Departamento de Pintura e Escultura do MoMA, que organizou a mostra, dedicou quatro anos recolhendo informações e peças para montá-la. A maior parte das obras e dos documentos pertence ao Museu Van Gogh de Amsterdã, para onde a exposição vai em fevereiro do ano que vem.


Antes de se definir como artista, em 1880, Van Gogh trabalhou como marchand, professor primário e evangelizador. Embora produzisse alguns desenhos nessa época, achava que eles eram só uma distração para seu trabalho. Numa vitrine à entrada da primeira galeria estão alguns desses desenhos, como a primeira representação de um estabelecimento noturno criada por ele, O ?Au Charbonnage? Café, feita em 1878, quando ele vivia na Bélgica.


Fluente em francês, inglês e alemão, além do holandês, Van Gogh era um grande leitor e encontrou na literatura suas principais referências sobre a noite. Uma das salas da exposição abriga exemplares de livros que o inspiraram, como Une Page d?Amour (1883), de Emile Zola, L?Anné Terrible (1874), de Victor Hugo, e What the Moon Saw: And Other Tales (1866), de Christian Andersen.


Pissarro agrupou os noturnos de Van Gogh em paisagens, cenas do dia-a-dia de lavradores, plantações de trigo e semeadores, além de visões poéticas do pintor sobre a noite no campo e na cidade. Na primeira seção, já é clara a diferença entre o antes e o depois de ele ter se mudado para Paris, em 1886. Os tons são sombrios nos desenhos e óleos, feitos entre 1883 e 1885, mostrando a casa pastoral do pai dele, um ministro da igreja reformista, em Nuenen, ou casebres e estradas daquela região. Depois de ele absorver as vibrações das cores de Monet, Cézanne, Renoir, Degas e outros do mesmo quilate, telas como Pôr-do-Sol em Montmartre, de 1887, começam a ganhar tons brilhantes.


‘O interessante é que, muito rapidamente, ele sai de Paris e segue adiante, tentando um caminho novo, próprio e radical’, observa Pissarro. Van Gogh seguiu a tradição de pintar paisagens durante os dez anos de sua carreira, enquanto desenvolvia seu estilo inconfundível de pinceladas paralelas e grossas de tinta.


Entre 1883 e 1885, quando ainda morava com os pais, em Brabant, ele produziu várias pinturas e desenhos descrevendo a vida simples dos lavradores de lá. Entre esses trabalhos se destaca Os Comedores de Batata, de 1885. A cena da família fazendo sua refeição à luz de uma pequena lamparina era considerada pelo próprio pintor como um de seus melhores trabalhos.


Já em Arles, no sul da França, para onde se mudou no começo de 1888, ele compôs uma série de variações sobre lavradores semeando ou colhendo trigo sob os efeitos da luz do sol nas primeiras ou nas últimas horas do dia. É possível acompanhar as preocupações dele em suas obras graças ao costume que ele tinha de fazer pequenos e detalhados esquetes dos quadros em que estava trabalhando em cartas para o irmão, Theo, e amigos.


Entre duas versões a óleo e um desenho de O Semeador, todos de 1888, encontram-se páginas de cartas para Theo e para o pintor e escritor Emile Bernard reproduzindo aqueles trabalhos. A carta para Bernard inclui um esboço da composição com indicações das cores que ele estava usando no quadro. Não muito contente com o resultado, ele acrescentou mais cores contrastantes na tela final e foi adiante com o mesmo tema em novas variações.


Em muitas cartas escritas em 1888, Van Gogh falava de como queria pintar uma noite cheia de estrelas. Achava que trabalhava melhor a partir da natureza, mas enfrentava o problema de como pintar na escuridão. Encontrou a solução colocando seu cavalete às margens do Ródano, na periferia de Arles. As luzes a gás da cidade lhe davam claridade suficiente para pintar.


Para Pissarro, A Noite Estrelada – que Van Gogh pintou em 1889, quando estava internado no centro psiquiátrico de Saint-Paul de Mausole – é a culminação do intenso esforço do pintor para representar a escuridão por meio de cores. Nesse quadro ele também funde os significados espirituais e simbólicos que via na noite. ‘Nele Van Gogh aborda algumas das preocupações universais que todos nós temos’, diz o curador. ‘Ele está pensando sobre seu próprio destino.’


No primeiro plano de A Noite Estrelada, o pintor silhuetou ciprestes nativos do sul da Europa, árvores encontradas em cemitérios e que simbolizam tristeza e morte. Esta, para ele, era algo como um trem para as estrelas. ‘Por que os pontos de luz no firmamento nos devem ser menos acessíveis do que os pontos pretos sobre o mapa da França?’, escreveu ele. ‘Assim como tomamos o trem para Tarascon ou Rouen, tomamos a morte para chegar a uma estrela.’


‘Era durante a noite que as experiências de Van Gogh com imaginação, memória e observação iam mais longe’, diz Pissarro. ‘A grande surpresa é que a preocupação dele com a noite, tanto real como imaginária, durou toda sua vida.’’


 


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Globo diminui breaks


‘Além de colocar suas novelas no ar um pouco mais tarde, a Globo andou reduzindo o número de breaks comercias de seus folhetins, estratégia conhecida nos programas de auditório para segurar a audiência. A mudança é apontada por um estudo realizado pela Controle da Concorrência, empresa que monitora inserções comerciais para o mercado publicitário.


Segundo o levantamento, na semana de 20 a 25 de outubro, Negócio da China, uma das mais afetadas pela perda de ibope, teve três breaks por dia. Já na semana da mudança de horário (de 27 de outubro a 1º de novembro), em que a trama foi ao ar 15 minutos mais tarde, cada capítulo teve apenas dois breaks.O corte de intervalos atingiu mais Três Irmãs. De 20 a 25 de outubro, a novela teve quatro breaks comerciais por capítulo. Na semana seguinte, esse número caiu para dois e até um.


Tática para conter o zapping durante os intervalos ou não, o fato é que a redução de breaks e a mudança dos horários dos folhetins surtiram efeito na audiência. Principalmente na trama das 6, que chegou a bater nos 16 pontos e, indo ao ar mais tarde, voltou para a faixa dos 23 pontos de ibope.’


 


 


 


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