Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Os ‘falcões’ do tráfico e a questão digital

Por Nelson Hoineff em 22/03/2006 na edição 373

O país entrou numa espécie de transe com a exibição, no domingo 19, pelo Fantástico, do documentário sobre a formação da bandidagem no Rio. É um belo trabalho conduzido por MV Bill e Celso Athayde – e desde que havia sido anunciado pela primeira vez, há mais de três meses, pouca gente tinha dúvidas disso.


Por outro lado, deve-se admitir que ele pouco acrescenta à grande quantidade de bom material sobre o assunto que a televisão brasileira tem produzido desde o início dos anos 90. Até o mote, ‘se eu morrer outro vai nascer’, já virou quase um clichê de tanto que tem sido ouvido em muitas outras ocasiões. É consternador que a sociedade (e não a televisão) tenha se encarregado de banalizar essa tragédia urbana – e seria bom se a discussão dessas questões algum dia ultrapassasse o espaço midiático.


O que chamou a atenção é o perfil de seus realizadores e o fato de ter sido exibido onde foi. O contraste entre o que se espera de um documentário sobre o tráfico feito por personagens como MV Bill e o que se espera ver (não apenas em conteúdo, mas sobretudo em forma) num domingo à noite na maior rede de televisão do país. Grande parte do fascínio do público decorre não apenas do conteúdo que estava vendo, mas da diversificação da fonte de produção do material que lhe estava sendo mostrado (não se deve esquecer que nos últimos anos o Fantástico tem sido responsável pela produção de um grande número de reportagens investigativas de impacto, que em grande medida abordam o tema da violência, da bandidagem e da corrupção; há dois anos Tim Lopes foi morto por conta disso).


O que o espectador pôde experimentar, na noite de domingo, foi um pequeno exemplo do que pode representar a diversificação das fontes de produção na sua televisão. Ele teve a chance de perceber o valor das visões e abordagens diferentes sobre situações a cuja exposição está acostumado. Pôde ter um gostinho, enfim, de algumas das possibilidades de diversificação de conteúdo que lhe podem ser ofertadas dentro de um ambiente de televisão digital.


A mistura de ficção com realidade está por toda parte. Os desdobramentos das duas últimas semanas no processo de implantação da TV digital no país foram muito semelhantes aos mecanismos de construção de uma telenovela: quando tudo parecia decidido, novos elementos foram introduzidos para fazer as certezas se transformarem em dúvidas; criou-se a figura de um vilão da história, papel que o ministro das Comunicações aceitou desempenhar com galhardia; e mudou-se mais uma vez o foco das discussões, que já foi o desenvolvimento de um padrão tecnológico próprio pelo Brasil, passou pela disputa de mercado entre os radiodifusores e as teles e chegou agora aos off sets, às contrapartidas oferecidas pelas partes interessadas – em particular a construção no Brasil de uma fábrica de semicondutores.


Desconforto e inquietação


Entrou a construção de fábrica de semicondutores, mas a construção de fábricas de conteúdo ainda não entrou na pauta do dia. Já apareceram, é verdade, manifestações transversais dessa preocupação. Uma das mais interessantes está estampada no Estado de S.Paulo de segunda-feira, 20: ‘Agências já se preparam para as mudanças com a TV digital’. A matéria cita a manifestação de vários publicitários sobre a forma de o mercado se relacionar com o ambiente digital. Alexandre Gama, da Neogama, por exemplo, lembra que o atributo da interatividade deve criar um ambiente de relacionamento muito mais próximo entre a marca e o espectador.


Imagine fora dos limites publicitários. A diferença entre as agencias de propaganda e os produtores brasileiros de conteúdo – sejam os independentes, sejam as emissoras – é que aquelas dispõem de um tempo que estes não têm. Ficamos muito tempo discutindo a adoção de padrões estrangeiros e a possibilidade de construção de um padrão nacional. A discussão migrou para a explicitação do interesse das emissoras pelo padrão japonês e pelo desenvolvimento de modelos de negocio idênticos aos praticados tradicionalmente na televisão brasileira. A decisão do ministro das Comunicações de ostensivamente sustentar essa posição não apenas tem lhe causado um grande desgaste, como adiou indefinidamente o mergulho na questão da construção de conteúdo.


Não foi uma boa alternativa política para o ex-repórter de televisão e potencial candidato ao governo de seu estado. É difícil imaginar que o titular da pasta das Comunicações tenha ficado confortável falando em ‘televisão aberta 100% grátis’ na mesma semana em que as emissoras iniciavam uma campanha pelos jornais e pela televisão sustentando o mesmo conceito com as mesmas palavras. Seu desconforto não deve ter sido menor com as constantes brigas contra fabricantes europeus de equipamento, primeiro a Philips, agora a Nokia, a quem o ministro convida a sair do país, porque ‘há outras empresas querendo’ – e exibe seu próprio celular clamando que ‘infelizmente’ o aparelho leva aquela marca. Mas a maior inquietação do ministro deve estar na ansiedade com que sustentou o padrão defendido pelas emissoras, sem se dar conta de que contrapartidas maiores – como as levantadas pela ministra Dilma, que resultou na batalha pelo oferecimento da montagem de uma indústria de chips e transferência de tecnologia – poderiam ser alcançadas.


Imagens plurais


Hoje o campo de batalha se transferiu para essas contrapartidas – linhas de crédito de 500 milhões de dólares, exportação de equipamentos, construção de uma indústria de semicondutores. São moedas de troca de altíssimo valor. De acordo com as diferentes propostas, poderemos estar exportando televisores para Venezuela e Argentina. Ou para o Japão. Ou mesmo para os EUA.


Mas continuamos sem perceber o valor do investimento em pesquisa e desenvolvimento de modelos de conteúdo, que é o que permitirá a redução da dependência à programação e principalmente aos modelos de programação estrangeiros – e ainda possibilitará sua produção e exportação, em escala imprevisível. Continuamos aqui sem entender que a exploração dos serviços de distribuição e veiculação de programação é uma coisa, a construção dos modelos que gerem essa programação é outra bem diferente, que não pode depender da luta de gigantes, que depende da inteligência criativa, na qual é estrategicamente importante para o país investir.


Porque de nada adiantará a consolidação de uma indústria televisiva ainda mais forte se ela não servir à consolidação da construção de imagens plurais do Brasil – exatamente como se viu no Fantástico de domingo, porém multiplicado por um fator maior do que se possa imaginar.

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Jornalista

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