Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Os trombonistas e a ditadura do Ibope

Por Alberto Dines em 23/10/2007 na edição 456

Parte da oposição ao projeto da TV Brasil tem origem na ranhetice (‘É do governo? Sou contra’). Outra facção opositora apóia-se na convicção maniqueísta de que só a iniciativa privada, isto é, o mercado, é capaz de produzir qualidade. Participam desta aguerrida facção as corporações empresariais (sempre avessas à concorrência e à diversidade), grandes e médios veículos confortavelmente instalados no sistema de pool e os opinionistas – sempre os mais barulhentos, escolhidos a dedo para reverberar, repercutir e botar a boca no trombone. Daí, o apelido – trombonistas.


A mídia brasileira é sui generis: não acredita em sua própria capacidade de comunicar, depende de intermediários, alto-falantes. Escolhe meia dúzia, paga-lhes altos salários, esfola-os num regime de trabalho escravo e não exige qualidade ou originalidade – apenas a capacidade de proclamar aos berros aquilo que conviria ponderar em editoriais.


Os privilegiados trombonistas escolheram nova linha de argumentação para combater o estabelecimento de um núcleo de TV pública: o dinheiro do contribuinte não pode ser gasto com programas que produzem traço de audiência.


Sem vergonha de cultuar a audiência


As ‘estrelas’ não se envergonham do culto ao Ibope. Escolhidas e mantidas pela loteria das pesquisas, só acreditam neste tipo de darwinismo, apostam apenas no interesse do público, esquecidas do interesse público. A subserviência aos ratings não garante qualidade; garante publicidade. Os anunciantes não estão preocupados com a qualidade intrínseca da programação; querem entreter e, nos intervalos, vender.


A TV comercial brasileira confinou-se à estéril disputa com a TV Globo. A briga não é pela qualidade ou pela originalidade; é pelo sensacionalismo da telenovela, pela exclusividade nos eventos esportivos. Mesmo a competição jornalística está confinada aos avanços e parâmetros estabelecidos pela líder do mercado. Não há inovação, apenas comparação (o chamado benchmark).


A TV comercial jamais poderia desenvolver uma linha de programação infantil como a da TV Cultura. Ou desenvolver algo parecido com o Roda Viva. Em matéria de troca de idéias, a TV privada consegue no máximo apresentar talk shows apoiados na fórmula celebridades + mundanidades + curiosidades. Nunca antes da meia-noite.


Quando foi lançada a versão televisiva deste Observatório da Imprensa, a Globo News tentou copiar a fórmula com o N de Notícia. Não colou; não poderia colar. Uma emissora comercial não tem vocação para este tipo de serviço. O telespectador não é bobo e, se não sabe das coisas, intui. É evidente que este telespectador consciente é uma minoria. Mas esta minoria precisa ser preservada e estimulada a crescer. Sem essas minorias, a sociedade brasileira será nivelada por baixo.


Contribuições para uma sociedade culta


É evidente que a futura TV Brasil é pública apenas lato sensu, mas a BBC, que é rigorosamente independente e estritamente pública, comete erros vergonhosos. No entanto, é inquestionável sua contribuição (assim como a da CBC e do PBS) para a formação de uma sociedade informada e culta no Reino Unido, Canadá ou Estados Unidos.


O fato de jornalistas serem pagos por empresas comerciais não os torna liminarmente suspeitos de estar a serviço de interesses escusos. Assim, também não se pode desqualificar aqueles profissionais pagos pelos cofres do Estado empenhados em colocar seu talento e sua experiência para acabar com a baixaria e promover um upgrade geral em nossa TV.


A TV Brasil é um avanço: vai juntar duas redes de radiodifusão do Estado (Radiobrás e TVE) e atrair os produtores independentes e emissoras educativas regionais para garantir conteúdo e escala.


O grande desafio será a etapa seguinte – algum tipo de parceria e interação com a TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta, do governo do estado de São Paulo. Uma combinação das grades de programação, por menor que seja, desativará naturalmente o processo de partidarização.


Uma coisa está clara: melhor uma TV Brasil procurando pavimentar novos caminhos para a TV pública no Brasil do que saber que o governador Roberto Requião é o programador único da televisão educativa do Paraná.

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Jornalista

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