Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

INTERESSE PúBLICO > TV PÚBLICA

Os trombonistas e a ditadura do Ibope

Por Alberto Dines em 23/10/2007 na edição 456

Parte da oposição ao projeto da TV Brasil tem origem na ranhetice (‘É do governo? Sou contra’). Outra facção opositora apóia-se na convicção maniqueísta de que só a iniciativa privada, isto é, o mercado, é capaz de produzir qualidade. Participam desta aguerrida facção as corporações empresariais (sempre avessas à concorrência e à diversidade), grandes e médios veículos confortavelmente instalados no sistema de pool e os opinionistas – sempre os mais barulhentos, escolhidos a dedo para reverberar, repercutir e botar a boca no trombone. Daí, o apelido – trombonistas.


A mídia brasileira é sui generis: não acredita em sua própria capacidade de comunicar, depende de intermediários, alto-falantes. Escolhe meia dúzia, paga-lhes altos salários, esfola-os num regime de trabalho escravo e não exige qualidade ou originalidade – apenas a capacidade de proclamar aos berros aquilo que conviria ponderar em editoriais.


Os privilegiados trombonistas escolheram nova linha de argumentação para combater o estabelecimento de um núcleo de TV pública: o dinheiro do contribuinte não pode ser gasto com programas que produzem traço de audiência.


Sem vergonha de cultuar a audiência


As ‘estrelas’ não se envergonham do culto ao Ibope. Escolhidas e mantidas pela loteria das pesquisas, só acreditam neste tipo de darwinismo, apostam apenas no interesse do público, esquecidas do interesse público. A subserviência aos ratings não garante qualidade; garante publicidade. Os anunciantes não estão preocupados com a qualidade intrínseca da programação; querem entreter e, nos intervalos, vender.


A TV comercial brasileira confinou-se à estéril disputa com a TV Globo. A briga não é pela qualidade ou pela originalidade; é pelo sensacionalismo da telenovela, pela exclusividade nos eventos esportivos. Mesmo a competição jornalística está confinada aos avanços e parâmetros estabelecidos pela líder do mercado. Não há inovação, apenas comparação (o chamado benchmark).


A TV comercial jamais poderia desenvolver uma linha de programação infantil como a da TV Cultura. Ou desenvolver algo parecido com o Roda Viva. Em matéria de troca de idéias, a TV privada consegue no máximo apresentar talk shows apoiados na fórmula celebridades + mundanidades + curiosidades. Nunca antes da meia-noite.


Quando foi lançada a versão televisiva deste Observatório da Imprensa, a Globo News tentou copiar a fórmula com o N de Notícia. Não colou; não poderia colar. Uma emissora comercial não tem vocação para este tipo de serviço. O telespectador não é bobo e, se não sabe das coisas, intui. É evidente que este telespectador consciente é uma minoria. Mas esta minoria precisa ser preservada e estimulada a crescer. Sem essas minorias, a sociedade brasileira será nivelada por baixo.


Contribuições para uma sociedade culta


É evidente que a futura TV Brasil é pública apenas lato sensu, mas a BBC, que é rigorosamente independente e estritamente pública, comete erros vergonhosos. No entanto, é inquestionável sua contribuição (assim como a da CBC e do PBS) para a formação de uma sociedade informada e culta no Reino Unido, Canadá ou Estados Unidos.


O fato de jornalistas serem pagos por empresas comerciais não os torna liminarmente suspeitos de estar a serviço de interesses escusos. Assim, também não se pode desqualificar aqueles profissionais pagos pelos cofres do Estado empenhados em colocar seu talento e sua experiência para acabar com a baixaria e promover um upgrade geral em nossa TV.


A TV Brasil é um avanço: vai juntar duas redes de radiodifusão do Estado (Radiobrás e TVE) e atrair os produtores independentes e emissoras educativas regionais para garantir conteúdo e escala.


O grande desafio será a etapa seguinte – algum tipo de parceria e interação com a TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta, do governo do estado de São Paulo. Uma combinação das grades de programação, por menor que seja, desativará naturalmente o processo de partidarização.


Uma coisa está clara: melhor uma TV Brasil procurando pavimentar novos caminhos para a TV pública no Brasil do que saber que o governador Roberto Requião é o programador único da televisão educativa do Paraná.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/10/2007 ADHEMAR gandra

    DINES!!VIROU MODA CENSURAR COMENTARIOS,PROIBIDO CRITICAR,ASSIM NUNCA TEREMOS A PLULARIDADE DAS IDEIAS,QDO O CIDADÃO DISCORDA DE CERTOS GRUPOS DE MIDIA,A UNICA OPÇÃO É O CONTROLE REMOTO,MOUSE,MUDAR DE FREQUENCIA OU COLOCAR NO CESTO DO LIXO O SEU JORNAL,VC ACREDITA EM DEMOCRACIA SEM EMBATE DE IDEIAS, E QUE NOS EMBATES PERDE AQUELE QUE NÃO TEM COMPOSTURA

  2. Comentou em 30/10/2007 Felipe Vanini Bruning Bruning

    Concordo apenas com a parte final, pois sou vítima, como milhares de paranaenses do nojo que se tornou a TV Educativa do Paraná. Para ilustrar, há dias, após ter assistido ao Jornal da Cultura, soube pelo apresentador Heródoto Barbeiro que a rede continuaria com o programa Observatório da Imprensa. Como sou leitor do site, pensei que seria a oportunidade de conhecer a versão televisa, mas eis que a TV Educativa reprisa a horrorosa Escola de Governo, programa apresentado todas às terças-feiras pela manhã, e reprisado à noite, no qual o destacado governador e seus asseclas destinam impropérios contra a mídia. Entre os alvos recorrentes estão: Gazeta do Povo, Estado do Paraná, Band News e CBN e até o Estado de S. Paulo e Globo. Para isto, ele (Requião) quer a TV à mão. Para gastar dinheiro público com servidores sem concurso público que atendem a sua demanda pessoal. Sabe-se que o caixa estadual está quebrado, portanto, sem poder fazer anúncios, o governo recebe críticas da mídia que antigamente o apoiava.
    E a TV Brasil não será diferente. Já disse em carta publicada no Estado de S. Paulo, a emissora será um cabidão de empregos, com grande aporte de recursos públicos e se vê pela cúpula diretora que vai ser totalmente submissa ao Executivo, leia-se Lula.

  3. Comentou em 29/10/2007 Menjol Almeida

    Felipe Faria, não tenho a menor dúvida de que o sr. Alberto Dines é um marxista irrecuperável. O sr. tem toda a razão, vamos doar a Tv Cultura para a TV Globo e acabar com essa balela de tv educativa, etc.

  4. Comentou em 28/10/2007 Paula Abreu

    ‘Verba que faz falta pode ser qualquer coisa – tipo subsídios e perdão de dívidas do Agro-Negócio, bancados pelo dinheiro público, sem que ninguém faça muito ‘alarde’…’
    ===============================================

    Agronegócios, registre-se, que faz toda a diferença na balança de exportações de um país como o Brasil…

  5. Comentou em 27/10/2007 Giuliano Dias

    Marco Antonio, nao sei se você estava se referindo á minha mensagem. Se for, creio que você não a entendeu. E não é pra menos. Infelizmente toda a formatação foi perdida no sistema de comentários, logo meus argumentos ficaram misturados com as citações da mensagem a que eu estava respondendo. Se a formatação pudesse ser presevada, você perceberia que o que eu estava justamente tentando dizer o quanto é absurdo defender que liberdade deve ser aceita ‘a qualquer custo’. É um absurdo imaginar que se pode falar o que der na telha na tv, como se isso não tivesse consequencias para a sociedade no futuro. Infelizmente, as respostas ‘ponto-a-ponto’ nesse sistema de comentários são inviáveis, e, pior, meus comentarios acabaram se confundindo com as citações que deveriam contrapor.

  6. Comentou em 25/10/2007 Wilon Sobral

    A TV pública é um início para a redemocratização dos meios de comunicação.

  7. Comentou em 25/10/2007 gustavo bruno

    dines, concordo sempre com aqueles que têm defendido a criação da tv pública, apesar de ter um certo receio do que possa vir por aí, mas não sou a favor de crítica-la como alguns têm feito, sob o argumento de que ela estará dando poderes ao estado. após a criação dela estaremos aptos a criticá-la.

    agora eu acho que o observatório tem esquecido de fazer uma análise melhor da record news-ou eu perdi algo?-, a qual tem feito um bom trabalho de jornalismo. mesmo que tenha bases ‘sinistras’ de apoio.

    um abraço!

  8. Comentou em 24/10/2007 Ruy Aquaviva

    Quero aproveitar o tema para denunciar mais uma vez o escandaloso aparelhamento da Fundação Padre Anchieta. A Rádi e a TV Cultura tornaram-se porta-voz, emissoras oficiais, do partido que governa São Paulo a mais de uma década (com resultados abaixo de medíocres, diga-se a bem da verdade).
    Toda a programação é pensada e executada para promover o PSDB e atacar seus adversários políticos. É uma vergonha a desfaçatez do uso político, ideológico e eleitoral dessa instituição do estado de São Paulo que decaiu em qualidade e perdeu toda sua identidade e independência.

    Um descalabro.

  9. Comentou em 24/10/2007 Sérgio Prado

    Caro Dines,
    Em crítica aos oposicionistas da TV Brasil, você escreveu:
    ‘(…)Outra facção opositora apóia-se na convicção maniqueísta de que só a iniciativa privada, isto é, o mercado, é capaz de produzir qualidade(…)’
    Eu iria mnais além: a iniciativa privada, especialmente no que se refere à mídia, é que é incapaz de produzir qualidade. O objetivo é lucro, e passa pelo aspecto concorrencial – algo que pode ser depreendido no decorrer do seu texto.
    Evidente que há problemas, muitos aspectos para debater; mas podemos resumir as opções televisivas, no quesito qualidade, a um confronto do tipo: TV Cultura x SBT.
    O que tem mais qualidade?

  10. Comentou em 24/10/2007 Sérgio Prado

    Caro Dines,
    Em crítica aos oposicionistas da TV Brasil, você escreveu:
    ‘(…)Outra facção opositora apóia-se na convicção maniqueísta de que só a iniciativa privada, isto é, o mercado, é capaz de produzir qualidade(…)’
    Eu iria mnais além: a iniciativa privada, especialmente no que se refere à mídia, é que é incapaz de produzir qualidade. O objetivo é lucro, e passa pelo aspecto concorrencial – algo que pode ser depreendido no decorrer do seu texto.
    Evidente que há problemas, muitos aspectos para debater; mas podemos resumir as opções televisivas, no quesito qualidade, a um confronto do tipo: TV Cultura x SBT.
    O que tem mais qualidade?

  11. Comentou em 24/10/2007 Marco Antônio Leite

    Quanta asneiras, lamento um jovem pensar somente com o lado direito do cérebro, se é que tem!. Caso goste de TV privada, quem gosta come um prato cheio.

  12. Comentou em 23/10/2007 Carlos Vitorino

    Observo que a TV Brasil NÃO É um avanço, o mais correto é dizer que poderá vir a sê-lo. Se for um instrumento tipo ‘chapa-branca’ há de ser um grande retrocesso, isso sim!
    A tal TV Brasil terá independência jornalística? Veremos…

  13. Comentou em 01/09/2007 cesar oliveira de faria

    naõ consegui votar.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem