Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

INTERESSE PúBLICO > NOME AOS BOIS

Pior que as Farc é a complacência com o terror

Por Alberto Dines em 15/03/2005 na edição 320

A reportagem de capa da Veja (edição 1896, 16/3) denunciando o oferecimento de recursos financeiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) para candidatos do PT sugere uma reflexão que transcende a matéria em si e refere-se à sua repercussão.


Apesar do teor explosivo dos documentos encontrados na ou vazados pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e apesar da dramatização na capa e da extensão da matéria (oito páginas), os efeitos da denúncia não foram expressivos. A começar pela mídia – termômetro e espelho. [Sobre o assunto, leia nesta edição o artigo ‘O que não é a matéria da Veja sobre as Farc e o PT’, com remissão abaixo]


Os jornais do fim de semana pegaram uma tímida carona e, na segunda-feira (14/3), apenas o colunista Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo, pág. 2) examinou e deu seqüência às revelações. A antiga e incontrolável bola de neve desta vez não funcionou. Mas Veja é o semanário brasileiro mais importante em termos de circulação e tradição.


Condescendência das elites


Há um curioso ingrediente, espécie de abafador ideológico, que joga para escanteio qualquer assunto que porventura possa perturbar a aura de compreensão e simpatia que envolve alguns temas, personagens ou países indevidamente considerados como ‘de esquerda’ ou ‘antiimperialistas’.


A miopia do politicamente correto pode ser encontrada no alto e baixo clero da mídia, na academia, no show-biz, nos grandes conglomerados ou no médio empresariado, e no comportamento de todos os que desfrutam ou desfrutaram do poder e agora atormentam-se com suas culpas. Esta complacência é visível também na magistratura, no meio político e na elite que comanda nossa diplomacia.


Sem qualquer conexão com a denúncia da Veja, mas intimamente ligadas à inapetência para investigá-la ou dar-lhe seqüência, estão duas matérias da Folha na última segunda-feira. Em termos veementes o professor emérito da USP, Ruy Fausto, especialista em marxismo e petista assumido, investe contra a tentativa de aproximação entre a Abin e o serviço secreto cubano (‘Policiais brasileiros em Cuba’, pág. A 8). Ruy Fausto vai fundo no exame desta aura de empatia que envolve ‘os despotismos burocráticos ‘comunistas’‘ (grifos deste Observador; leia íntegra do texto na rubrica Entre Aspas, nesta edição).


A outra matéria, duas páginas adiante, é assinada pela repórter Ana Flor, da sucursal de Brasília (‘Brasil privilegia política ao votar sobre China e Rússia’, pág. A 10), na qual relaciona recentes opções dos responsáveis por nossa política externa que contrariam frontalmente os nossos tradicionais compromissos com a defesa dos direitos humanos (íntegra na rubrica Entre Aspas, nesta edição).


Neste cenário onde o pragmatismo do governo se associa com a condescendência das elites intelectualizadas é curioso observar que, nos destaques da matéria da Veja, as Farc são apresentadas como ‘narcoguerrilha colombiana’, mas a classificação de ‘terrorista’ aparece tangencialmente no texto.


Predomínio da irrelevância


A mídia e os ‘multiplicadores de opinião’ têm medo de dar nome aos bois. Os seqüestradores do engenheiro brasileiro João José Vasconcellos no Iraque não podem ser confrontados, por isso são apenas ‘insurgentes’ ou ‘rebeldes’. O receio de parecer simpático aos delírios da Casa Branca leva jornalistas, políticos e líderes a escamotear a palavra terrorismo e suas variações dos respectivos discursos. São tabus.


Exemplo deste desconforto ao lidar com a realidade foi o tratamento dado à entrevista concedida pelo juiz espanhol Baltazar Garzon (o homem que conseguiu enquadrar o verdugo Pinochet) ao Estado de S.Paulo (11/3, pág. A-13, assinada por Tito Drago, da agência Interpress Service Espanha).


Ao contrário da linguagem empolada e difusa dos nossos juristas, Garzon foi sintético e contundente: ‘Todo ataque a civis é terrorismo’ [título da matéria]. E completa didaticamente:


‘Quando a ação de uma organização vai contra a população civil, não combatente, independente do que se proclama, sua atividade é claramente terrorista pois afeta os próprios direitos da humanidade. (…) A insurgência guerrilheira exige um confronto entre exércitos regulares ou não-regulares. Mas ação contra a população civil nunca poderá ser legitimada, independente de quem a pratique e da justificativa apresentada’ (leia íntegra da entrevista na rubrica Entre Aspas, nesta edição).


A matéria ficou confinada à seção internacional, não mereceu as galas da primeira página mesmo numa edição onde foi lembrado o massacre terrorista do 11 de Março, em Madri. Coisas da vida de um grande diário onde abundam matérias de grande importância.


Mas conviria considerar outra linha de raciocínio para explicar a fraca repercussão da matéria da Veja: a crescente banalização do material informativo brasileiro. Inclusive na própria Veja. Das oito últimas capas da revista, cinco são de assuntos considerados leves e apenas três podem ser consideradas ‘sérias’ (educação na Coréia do Sul, a eleição de Severino Cavalcanti e, agora, as Farc).


Neste panorama onde impera a irrelevância é difícil que a relevância seja percebida.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/03/2005 Orlando Nascimento

    Concordo com Dines, é preciso dar nome aos bois. Porém, justiça seja feita, essa questão não se aplica somente à imprensa brasileira. Quem assiste à CNN está acostumado aos ‘insurgents’ ou ‘suicide bomber’ (homem-bomba)quando o assunto é oriente médio. De vez em quando fala-se até em ‘terrorist attacks’ mas a distinção não fica bem clara. Não por acaso, a Fox News é o único veículo que adota uma terminologia, digamos, mais acurada – e que não passa despercebida. Para eles, por exemplo, homem-bomba tem outro nome: ‘homicide bomber’

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