Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

INTERESSE PúBLICO > NOVOS TEMPOS

Por que fazer um ‘crowdfunding’ para jornalismo?

Por Natalia Viana em 13/08/2013 na edição 759

Na semana passada, a Agência Pública lançou uma campanha de crowdfunding, um financiamento coletivo, visando levantar fundos para distribuir dez bolsas de R$ 6 mil para repórteres de todo o Brasil se dedicarem à pauta dos seus sonhos. O projeto se chama “Reportagem Pública” e é bem simples: os repórteres propõem ao público o que querem investigar, e quem doar pode eleger as reportagens que devem ser realizadas.

Desde o começo, a Pública busca fugir do senso comum sobre o que deve ser o jornalismo online: não publicamos notícias, nem artigos de opinião, apenas reportagens, a grande maioria denunciando violações de direitos humanos; nossos textos são longos, autorais, com um processo de edição cuidadoso; nosso intuito não é atrair leitores para o nosso site, mas espalhar as reportagens pela rede através de republicadores – tudo o que publicamos é feito sob licença creative commons, para ser reproduzido por quem quiser, desde grandes veículos como o portal Terra até perfis no Facebook (afinal, hoje mais que nunca, todos somos a mídia).

Agora, queremos mais. A ideia é expandir a produção de jornalismo investigativo na rede, num momento em que o público pede mais.

Em vez de apostar em uma produção centralizada, queremos fortalecer uma rede de jornalistas que já fazem um excelente trabalho nos mais diversos cantos do país. Há tantos repórteres com experiência, coragem e a paixão infindável pelo jornalismo que podem até se sentir abatidos em meio à atual crise dos meios impressos e às repetidas demissões em massa – os passaralhos –, mas que não querem e não vão parar de fazer jornalismo. Porque eles sabem que o que fazem é importante demais. E nunca vai deixar de ser.

“Sangue nos olhos”

Nos últimos meses, o fenômeno do Mídia Ninja escancarou o fato de que, na rede, há sim muita gente a fim de receber jornalismo, de saber o que está acontecendo a fundo, de acompanhar durante horas uma transmissão que questione as declarações oficiais. É essa a essência do jornalismo investigativo, que tem tanto bons representantes no Brasil, infelizmente cada vez mais maltratados nas redações.

Cabe a uma instituição como a Pública, organização sem fins lucrativos, tentar dar um passo nesse sentido. Nosso papel é estimular e fortalecer esses repórteres, devolvendo a eles o protagonismo no fazer jornalístico, a possibilidade de apurar uma história até o fim e de propagar o fruto do seu trabalho. Nos dois últimos anos, já distribuímos R$ 32 mil por intermédio do Concurso de Microbolsas, contribuindo não só financeiramente mas também dando um acompanhamento próximo, orientando, compartilhando as angústias e buscando soluções conjuntamente com os nossos bolsistas.

Provenientes de várias partes do Brasil, esses bolsistas investigaram os “campos de concentração” de indígenas na ditadura, os grupos de extermínio ligados à polícia da Bahia, o abandono da seca no Nordeste. E trouxeram também novas experiências e muito aprendizado para nós da Pública, tanto conhecimento construído junto! Como os tenazes meninos do Coletivo Catarse, de Porto Alegre, que esmiuçaram o abandono criminoso de um assentamento em São Gabriel que o governo federal prometera que seria um “grande exemplo” de reforma agrária. Ou a documentarista Eliza Capai, que passou vinte dias sozinha no sertão do Piauí, enfrentando o calor, o cansaço, e até uma dengue, para recolher histórias das mulheres de lá. Conhecemos também o Coletivo Nigéria, de Fortaleza, autor do belo documentário “Com Vandalismo”, sobre os protestos na cidade. Convidados pela revista Veja para dar uma entrevista sobre a sua obra, os jovens recusaram: “Não temos nenhuma confiança a política editorial e no jornalismo praticado por esse veículo”. São esses jornalistas, alguns jovens e outros mais experientes, que, como descreve Eliza, estão “cheios de sangue nos olhos” para praticarem o seu jornalismo como acham que deve ser feito.

Agora, com o crowdfunding, vamos ampliar essas bolsas. Estamos buscando arrecadar R$ 47.500 junto ao público, e para cada real doado, a Omidyar Network, uma fundação formada pelo dono do site E-bay, vai doar outro real, num esquema chamado matching funds. Quem quiser contribuir pode doar a partir de R$ 20, recebendo em troca “recompensas” como um e-book com todas as reportagens produzidas e um convite para um workshop sobre jornalismo investigativo em rede. Para doar, basta acessar o link catarse.me/reportagempublica.

Canal direto

Mas queremos também radicalizar esse processo. Refletimos muito sobre como aplicar ao jornalismo investigativo a colaboração em rede. Não é fácil. Os jornalistas investigativos costumam ser ciosos da sua pauta, avessos a abrir tudo em tempo real, e a própria natureza do jornalismo mais aprofundado impede a ampla colaboração – com dados sensíveis, tudo tem que ser checado e rechecado. Mesmo assim, temos a certeza que a colaboração está na alma do jornalismo pós-industrial – assim como acreditamos que a informação, na rede, quer ser livre e amplamente distribuída.

Por isso, decidimos propor um desafio para os repórteres: que abram suas pautas, de acordo com o seu próprio critério, e as deixem ser apreciadas pelo público. Todo mundo que doar para o crowdfunding do “Reportagem Pública” vai poder votar nas investigações que forem propostas por jornalistas através deste formulário: http://goo.gl/a36JeS E o jornalista que colocar sua proposta de pauta no projeto vai ter um canal direto com o público, para quem quiser oferecer mão de obra, colaboração e informações sobre aquele tema. Sem intermediários.

Está na hora desses repórteres apaixonados saírem às ruas para fazer o que sabem e gostam de fazer. E está na hora da Pública – e do público – contribuírem para isso.

Quem quiser trocar ideias sobre o crowdfunding “Reportagem Pública” ou sobre a Agência, por favor escrevam para mim: viana.natalia@gmail.com.

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Natalia Viana é jornalista, coordenadora a Agência Pública

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