Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Portais esquecem jornalismo na divulgação dos resultados

Por Larissa Rocha em 11/08/2015 na edição 863

Minutos depois do sorteio, o resultado da loteria ganha destaque nos principais sites noticiosos brasileiros. As matérias publicadas sobre os resultados da Mega-Sena, por exemplo, seguem a mesma estrutura dos textos publicados pela Caixa Econômica Federal. Faltam notícias com contextos, profundidade, espírito crítico, maior número de versões. Só não falta a notícia da mega-sena.

No ar, os portais, que andam reclamando que não conseguem patrocínios para engrossar os recursos para suas redações, fazem uso de estranho expediente: publicar releases de loterias. O título é sempre da mesma forma: informa o número do concurso, se houve ou não ganhador, e valor do prêmio conquistado ou acumulado. Em seguida, um subtítulo com as dezenas sorteadas e o resultado da Quina, a segunda modalidade de loteria mais procurada. O texto segue com dois parágrafos e dois intertítulos “Para apostar” e “Probabilidades”, como uma réplica do que foi divulgado na página da Caixa. Para horror dos leitores que gostariam de ler conteúdos de interesse público, essas “notícias” alcançam o topo entre as mais lidas. Esse material fica acompanhado por outros fait divers irrelevantes, mas curiosos.

Dizem que o jornalismo está em crise, mas, como já é observado rotineiramente nesse Observatório, a crise é dos veículos e seus editoriais, que ainda envolvem os jornalistas em uma retórica de cinismo e de esquecimento dos princípios éticos e jornalísticos. O portal do G1, pasmem, tem uma editoria Loterias. E sempre assinado por um jornalista. Cabe ao jornalista divulgar resultado da mega-sena?

Uma das possibilidades de trazer esse assunto à publicação seria mostrar o que e como (com detalhes e exemplos claros) esse recurso, que não é pequeno, tem sido utilizado em prol da sociedade. Consta na legislação que uma porcentagem do valor do prêmio será repassada para programas do governo federal, como FIES, Fundo Penitenciário Nacional, Seguridade Social e outros. O prêmio bruto da mega-sena corresponde a 46% do valor arrecadado. Então, apurar se realmente acontece esse repasse valeria mais a pena do que publicar resultados da loteria.

Um espetáculo midiático em volta do sorteio

Em maio deste ano, a OAB pediu à presidente da República, Dilma Rousseff, o aumento do repasse de verbas para o FIES. A Ordem dos Advogados do Brasil afirmou que não se pode fazer ajuste fiscal na educação. E o MEC se pronunciou dizendo que a verba para novos contratos em 2015 acabou. Para quem não lembra, este programa tem causado transtornos aos universitários, com os cortes nos números de vagas. A mega-sena de 2015 não acabou, continua arrecadando dinheiro.

Não dá para esquecer a recente crise das penitenciarias brasileiras que, em 2013 e 2014, ganharam destaque nacional na mídia e Ministério Público no caso das superlotações, e falta de alguns serviços. Na época, Joaquim Barbosa era presidente do STF e chegou a denunciar a situação como “desumana e caótica”. O governo federal tinha acumulado em caixa R$ 1,06 bilhão, que, segundo a lei, deveriam ser destinados para construção e modernização do sistema penitenciário brasileiro.

O Código de Ética dos Jornalistas diz que é dever deste profissional divulgar os fatos e as informações de interesse público; defender os princípios constitucionais e legais, base do Estado democrático de direito. Diante da loteria federal, não é isso que se observa. Temos o espetáculo midiático em volta do sorteio, da divulgação do resultado e do valor do prêmio.

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Larissa Rocha é estudante de Jornalismo

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