Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > INFÂNCIA NA MÍDIA

Preocupação de gente grande

Por Maria Eduarda Mattar em 24/02/2004 na edição 265

Violência, excesso de sexualidade, erotização da infância, estímulo exagerado ao consumo, manifestações de preconceito contra determinados grupos, homogeneização dos padrões estéticos. Tudo isso e uma série de outras deficiências identificadas diariamente se aliam para compor um quadro midiático vazio de informação, educação e diversidade, que alarma pais, educadores e diversos profissionais e especialistas preocupados com o conteúdo que crianças e adolescentes vêm absorvendo através dos meios de comunicação.

A preocupação vem crescendo de forma constante — e com motivos. Cada vez mais meninos e meninas são bombardeados por todos os lados com informações e estímulos, nestes tempos em que se consolida uma sociedade da informação. A televisão é, de longe, o principal meio de comunicação privilegiado por jovens e crianças, em uma realidade em que a leitura é preterida frente às mídias digitais. Estima-se que uma criança passe em média três a quatro horas por dia em frente à TV.

A Internet, explorada com desenvoltura e sem mistérios por aqueles que nasceram em tempos em que ela já era realidade, representa um desafio a mais. Seu controle é quase impossível; a noção de que conteúdos serão apresentados, imprevisível. As leis ainda não contemplam devidamente o mundo dos bytes, que cresce exponencialmente e atrai na mesma velocidade. Para acompanhar a velocidade de transformações e mudanças, meios de comunicação reproduzem o frenesi em programas, vinhetas, peças publicitárias e em todo o padrão estético que se consolida — se é que há tempo para algum padrão se consolidar em uma realidade em transformação constante.

Essas preocupações estarão presentes na 4ª Cúpula Mundial sobre Mídia para Crianças e Adolescentes, que acontece no Rio de Janeiro, de 19 a 23 de abril. Realizado pela primeira vez na América Latina, o evento vai reunir especialistas do mundo todo, diversos deles provenientes de organizações não-governamentais, para debater e propor alternativas de qualidade que possam ser oferecidas a meninos e meninas, sem que se perca, no entanto, o caráter de entretenimento.

Beth Carmona, presidente da ONG Midiativa — que, junto com a Multirio, do governo municipal do Rio de Janeiro, é uma das realizadoras da Cúpula — acha que os pais podem e devem contribuir para o controle do que seus filhos assistem. ‘Porém o problema não é só de pais. É de toda a sociedade (organizações, produtores, donos de empresas de mídia), que deve estar atenta e discutir a questão’.

Solange Jobim e Souza, coordenadora do Comitê de Pesquisadores da IV Cúpula de Mídia para Crianças e Adolescentes e professora da PUC do Rio e da UERJ, tem opinião parecida. Para ela, ‘a questão da qualidade da mídia é um tema polêmico. O conceito de qualidade envolve definição de valores, os quais são utilizados, muitas vezes, de forma contraditória e com intenções ambíguas, onde predominam, via de regra, interesses de mercado da indústria do entretenimento’, diz Solange. ‘Portanto a questão da definição da qualidade da mídia para crianças e adolescentes é uma questão política e, como tal, deve envolver diferentes setores da sociedade em uma discussão permanente, com o objetivo de se definirem padrões éticos e estéticos que contemplem a diversidade cultural e, especialmente, a responsabilidade social sobre aquilo que é oferecido ao público’, completa.

Convenção da ONU

Na mesma linha de defesa do interesse coletivo na questão, Severino Francisco, editor de Análise de Mídia da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), lembra que mídia de qualidade para crianças e adolescentes é um direito garantido em tratados internacionais. ‘É assegurado na Convenção sobre os Direitos da Criança, aprovada em 1989, na Assembléia Geral das Nações Unidas, e ratificada por mais de 150 países. Todos os outros direitos estão conectados a este direito à informação de qualidade’, diz.

A Convenção já foi ratificada por precisamente 191 países, constituindo-se no instrumento de direitos humanos mais aceito até hoje – apenas três nações não confirmaram os compromissos do documento: Estados Unidos, Somália e Timor Leste (este último só se tornou de fato um país independente em maio de 2002). Severino refere-se mais especificamente ao artigo 17 da Convenção, segundo o qual ‘os Estados-parte reconhecem a função importante desempenhada pelos meios de comunicação e zelarão para que a criança tenha acesso a informações e materiais procedentes de diversas fontes nacionais e internacionais, especialmente informações e materiais que visem promover seu bem-estar social, espiritual e moral e sua saúde física e mental’.

Para cumprir essa meta, os Estados-parte deveriam, ente outras diretrizes, incentivar a difusão de materiais de interesse social e cultural, a produção e a difusão de livros para crianças, estimular os meios de comunicação a contemplar minorias, além de promover a proteção da criança contra toda informação e material prejudiciais ao seu bem-estar.

No entanto, ao que parece, não se tem conseguido colocar isso em prática de forma plena. Além dos problemas já citados – banalização da violência, erotização da infância, estímulo ao consumo etc. –, especialistas apontam ainda o uso excessivo de gírias, a descontextualização de notícias, o esquecimento do passado e das tradições culturais e a valorização apenas do que é contemporâneo, alta velocidade da linguagem visual, entre outros.

A preocupação, especialmente com as crianças, baseia-se na constatação, simples, de que suas personalidades ainda estão em formação. Ou seja, muitas moldam seu comportamento a partir daquilo que vêm na TV, que recebem pela Internet etc. A psicanalista e neuropsicóloga infantil Ana Olmos explica os efeitos que alguns dos fatores negativos podem ter sobre meninos e meninas. ‘Por exemplo, a hiper-estimulação sensorial mudou a própria percepção das crianças de hoje em dia. Há muita imagem, muita surpresa, muito título e pouco conteúdo. Na Espanha, a duração média de um plano publicitário é de 1,1 segundo. Isso diminui a capacidade de concentração e, por conseqüência, de pensar criticamente; favorece o conhecimento dispersivo. E, se considerarmos o dado segundo o qual cada criança passa em média quatro horas em frente à TV por dia, quando essa criança chegar aos 75 anos terá passado oito anos de sua vida assistindo à televisão, sendo estimulada por este quadro negativo’, esclarece ela, que, apesar de tecer tais críticas, diz-se uma apaixonada pelo meio televisivo.

A preocupação de Ana é compartilhada por Solange Jobim: ‘Se considerarmos que a produção de mídia é uma das mais importantes formas de expressão de nossa época, entendemos a grandeza da responsabilidade social de todos e de cada um. Vários autores que pesquisam a infância contemporânea vêm apontando para as mudanças nos comportamentos, na formação de valores, nos processos cognitivos e afetivos’, afirma a pesquisadora. ‘Entretanto não devemos nos deixar contaminar por visões pessimistas, pois cabe a todos, adultos e crianças, a responsabilidade de criar um futuro sempre melhor para a humanidade. Portanto, se os avanços tecnológicos forem utilizados com este fim, não temos o que temer’, completa, esperançosa.

Beth Carmona diz que, se não educam formalmente, a mídia ‘amplia a visão de mundo, a percepção visual’. Severino, da Andi, que prepara um livro sobre programas de TV para adolescentes para ser lançado durante a Cúpula, acredita que a TV deve ser discutida sob múltiplos aspectos, ‘mostrando-se o impacto que ela tem na formação de jovens. Hoje, ela é um dos principais, senão o principal, meio de formação e entretenimento de adolescentes. É importante pensar a existência de programas voltados para crianças e adolescentes como espaços de formação de identidade’.

Controle difícil

No entanto ter controle sobre o que as crianças absorvem não é tarefa fácil hoje em dia, uma vez que informações circulam por e para todos os lados, tendo como grande aliada a Internet. Ou, como diz Severino, ‘a informação está solta na estratosfera. A forma de a criança receber conhecimentos se diversificou muito’. Assim, o próprio público infantil não é mais como era antigamente, e sua capacidade de absorção de conteúdos e de processamento das informações recebidas parece também ser mais rápida, para acompanhar em parte a tempestade de estímulos oferecidos. ‘O publico infantil não é uma entidade abstrata, mas se constitui historicamente e culturalmente através dos tempos. Temos que pensar a infância naquilo que ela apresenta de tradição, de repetição, mas também de mudança, de contingência. Evidentemente a velocidade de informação traz um elemento novo para a experiência humana em geral, e o público infantil não está fora disto’, analisa Solange.

Responder a estas mudanças de características do público infanto-juvenil pode constituir um desafio, porém os meios de comunicação parecem pecar muito antes de tentarem dar uma resposta a essas demandas. Para muitos especialistas, os meios falham ao esquecerem a função social que devem ter – uma vez que são, muitas vezes, referência quase única para a formação de novos cidadãos – e preocuparem-se mais com a briga desenfreada e pouco reflexiva pela audiência.

‘Violência, racismo – tudo isso tem que ser mostrado, sim. Afinal de contas, existem e as pessoas precisam saber disso. Mas não podem ser descontextualizados. Não podem ser alvo de sensacionalismo, para prender a atenção dos indivíduos. Não se pode achar que existe só isso. E, acima de tudo, tem que ser mostrado o que acontece em seguida, seja a punição ou a impunidade. É preciso dar prosseguimento e não querer apenas explorar o lado espetacularizado da coisa’, defende Ana Olmos. ‘O tratamento que é dado em muitos casos é que é o mau alimento pedagógico’, define ela.

Para a argentina Silvia Bacher – colunista do jornal La Nación e da Rádio Continental –, ‘uma das grandes diferenças hoje em dia é que o mercado e, em conseqüência, os meios vêm crianças e jovens como sujeitos de consumo. Segundo diferentes pesquisadores, essa concepção começa na década de 60. Crianças e jovens têm acesso a muita informação. A pergunta é se estão preparados para compreendê-la, analisá-la, eleger com critério. Por isso mesmo é imprescindível estimular em crianças e jovens a sua capacidade de reflexão. A informação sem pensamento é pouco útil’, diz a comunicadora, que estará no Rio para participar da 4ª Cúpula. ‘Parece que é um processo de emburrecimento. Não há preocupação em estimular o espírito crítico. A base do erro é provocar resposta mais emotiva do que racional. O consumismo, por exemplo, é isso’, aponta Ana.

Vida inteligente na TV também existe

Apesar de a saída encontrada pelos veículos de comunicação para a briga desenfreada pela audiência consistir em programas apelativos e pouco éticos, profissionais que trabalham com a questão garantem que há, sim, formas inteligentes e criativas para produzir conteúdo adequado – sem deixar de ser entretenimento e sem ‘idiotizar’ os interlocutores. ‘Isso é um desafio, mas não é impossível. Existem inúmeras experiências – de ONGs, TVs comerciais, emissoras educativas etc. – que mostram que inventividade, entretenimento e educação não são incompatíveis. Há uma tendência, normalmente, de se separar essas coisas. Mas tanto na teoria quanto na prática tem-se visto que misturar é ótimo’, enfatiza Severino.

Para ele, é preciso não só contemplar os interesses, mas também as necessidades de crianças e jovens — ao contrário do que faz a maioria das emissoras de TV, que interpreta aumento de audiência como interesse. ‘É importante contemplar não só estereótipos, mas também algo que contribua para o desenvolvimento psicossocial dos indivíduos.’ Em outras palavras, a reflexão sobre o que o público pode absorver deve permear a produção. ‘Os meios de comunicação não podem fugir de seu papel educador. Está claro que a educação é formação de valores – e isso é feito cada vez mais de maneira não-formal, ampliou-se’, completa o representante da Andi. ‘A produção nacional é muito boa. Há o Castelo Rá-Tim-Bum, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, as Aventuras do Saci-Pererê’, diz Beth Carmona.

Ou seja, crianças e adolescentes podem – e devem – receber de forma conjugada entretenimento e conhecimento, atividades lúdicas aliadas a debate de questões sociais, humor e discussão da realidade, descontração e estímulo ao pensamento crítico. Tudo isso concorre para o desenvolvimento psicológico e social dos indivíduos, sem deixar de lado o lado infantil e mágico importante para o público infantil. Silvia Bacher acredita que isso pode ser executado ‘pensando que estamos produzindo programas destinados a sujeitos que pensam, sentem e que devem ser respeitados. Não é questão de custos exclusivamente, mas de criatividade e de entender que a mídia é uma ferramenta de consumo social e que os produtores são responsáveis por seus produtos, não só no campo econômico, mas também pela qualidade dos mesmos’.

‘Para produzir produtos culturais direcionados para o público infantil é necessário compreender o universo simbólico e cultural da criança e do adolescente. Respeitar e ter uma escuta sincera do que a criança tem a nos dizer é fundamental. O confronto e o encontro de pontos de vista diferentes é fundamental no processo de criação. Portanto quem produz mídia para crianças e adolescentes deve estar atento ao que eles oferecem como visão de mundo, pois certamente vai se surpreender com o quanto vai aprender sobre a vida e a experiência humana’, acredita Solange Jobim.

Ana Olmos é partidária de que a construção de conteúdos mais adequados e ricos para a infância e a adolescência resulta em ganho geral para a sociedade. ‘É possível construir conhecimento sem perder a magia, o prazer, o entretenimento. Se os donos dos veículos de comunicação conseguissem pensar grande, veriam que é melhor construir quem pensa criticamente do que estimular a formação de pessoas que são apenas dependentes de informações vazias’, conclui a neuropsicóloga.

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Jornalista da Rede de Informações do Terceiro Setor (www.rits.org.br)Reproduzido da RETS – Revista do Terceiro Setor (http://rets.rits.org.br/), 20/2/04

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