Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Projeto envolve a população na pesquisa sobre abelha invasora

Por Roxana Tabakman em 13/10/2015 na edição 872

Policiais do Batalhão da Polícia Militar, em Niterói, fizeram no dia 5 de outubro uma operação no morro do Caramujo. A PM tentava prender traficantes envolvidos no ataque que baleou e matou uma empresária. Para entrar na comunidade, a polícia usou veículo blindado conhecido como Caveirão e houve uma troca de tiros entre policiais e traficantes. Apenas dois ficaram feridos, e foi após um ataque de abelhas aos policiais. Na mesma semana, um enxame atacou 31 alunos e cinco professores no Centro de Holambra. Afortunadamente ninguém era alérgico.

O medo natural da humanidade às abelhas se nutre de histórias assim. Em geral, ninguém gosta desses insetos considerados nojentos e às vezes a mídia tenta neutralizar o impulso natural a mata-las com informação científica, tirando o foco da dor da picada e ressaltando o seu poder como polinizador de espécies selvagens e culturas agrícolas. “O maracujá, a maçã e o melão simplesmente não existiriam sem abelhas” indica uma matéria recente do Estado de São Paulo que dedica uma página completa aos resultados do projeto Polinizadores do Brasil concluído recentemente.

O árduo trabalho para gerar uma imagem pública positiva faz parte de um movimento mundial. Desde que se soube que estão sumindo, as abelhas estão no coração dos conservacionistas. A situação é mesmo grave: em Europa e Estados Unidos, as estatísticas mostram uma redução de até 50% do número de abelhas nas últimas duas décadas devido, provavelmente, a mudanças climáticas e uso de inseticidas.

Poderia se dizer que, como pacientes bipolares, nós jornalistas oscilamos entre contar histórias que mostram as abelhas como vilãs ou como mocinhas. Daí a dificuldade que está encontrando um grupo de pesquisadores da USP que pede ajuda para uma campanha que discutir a questão das abelhas sem amor nem ódio, apenas com fatos, como fazem os cientistas.

Ciência cidadã

O projeto do Núcleo de pesquisa em biodiversidade e computação da Universidade de São Paulo é inédito no Brasil.

Abelha Mamangava da cauda branca / foto Wikimedia - licença Creative Commons

Abelha Mamangava da cauda branca / foto Wikimedia – licença Creative Commons

Incluir a população no monitoramento de uma espécie invasora, trazida da Europa para o Chile como polinizadora na década dos anos 70, mas que fugiu das estufas, ganhou terreno no Chile e na Argentina, e que ainda não foi detectada no território brasileiro. Como a universidade não pode ter pesquisadores procurando a abelha conhecida como mamangava de cauda branca (Bombus Terrestris)  em todo o Brasil, a equipe decidiu envolver a população, não para lutar contra a espécie invasora mas para conhece-la melhor.

O pedido dos cientistas é que quando alguém achar uma abelha suspeita (o tamanho da mamangava de cauda branca é quase o dobro da comum, tem faixas pretas e amarelas, com pelos brancos na cauda), não a mate, tire uma foto e a envie para eles junto aos detalhes da localização. Para a campanha escolheram um nome que remete a outros tempos “procura-se viva, espécie invasora” e idealizaram os cartazes com muito sentido de humor. Mesmo que seja invasora, eles alertam, não se sabe qual vai ser o impacto, se é vila ou é mocinha. “A mamangava de cauda branca é inocente até que se demonstre o contrário”, informam no site Abelha Procurada.

Cartaz criado pelo projeto

Pedir ajuda ao povo para fazer ciência não é apenas um recurso barato em tempos de crise. O projeto faz parte de um movimento mundial conhecido em inglês como Crowd Science ou Civic Science, traduzido como ciência cidadã. O conceito está crescendo, mas não existem referências no mundo de monitoramento, por meio de ciência cidadã, na previsão de áreas potencialmente sujeitas à invasão por polinizador exótico. A ideia dos pesquisadores brasileiros de envolver a população no estudo da abelha invasora é, portanto, inovadora e sem dúvida vai ser um caso de estudo.

Em qualquer projeto cientifico que envolva a população, a participação da mídia é importante e a imprensa tem um papel fundamental. “Neste momento estamos filtrando os veículos com base em seus históricos. – declara o biólogo André Acosta, o pesquisador que idealizou o projeto e hoje se reconhece traumatizado pelas primeiras experiências com a imprensa. “Preferimos que o projeto falhe por falta de divulgação do que por má divulgação das informações científicas. As notícias devem ser precisas, sua simplificação para o grande público possui determinados limites que não podem ser negligenciados”, diz André.

O enfoque sensacionalista é fácil para tratar de uma espécie invasora, mas pode prejudicar grandemente os objetivos da pesquisa. Comentando uma reportagem publicada em um blog que segundo ele é um claro exemplo de como o assunto pode ser deturpado e gerar repercussões negativas aos pesquisadores e às espécies nativas, Acosta se mostra espantado: “Alguém poderá querer matar abelhas nativas por conta desta notícia irresponsável”.

A ciência cidadã está vivendo um período de expansão em todo mundo devido aos avanços nas pesquisas gerados pelas novas tecnologias digitais. O fenômeno tem suas origens no projeto SETI, de pesquisa sobre vida extraterrestre no qual as pessoas tinham uma participação passiva porque apenas doavam parte das capacidades de processamento dos seus computadores. Agora a tendência mundial é converter a ciência em uma atividade realmente participativa, mais democrática, onde todos possam contribuir para um futuro melhor não apenas pagando as despesas dos cientistas com os seus impostos.

Já existem aplicativos para telefones celulares que ajudam a monitorar aves ou exemplares da vida marinha. E fácil participar também em pesquisas similares para observação de borboletas, pássaros, fotografia astronômica, projetos de física quântica e classificação de imagens para a NASA, para citar apenas alguns exemplos.

Se a ciência, como parece, sai cada vez mais dos muros das universidades, a responsabilidade da mídia e a necessidade de um jornalismo científico rigoroso é ainda mais importante. O caso da abelha mamangava de cauda branca tem muito a nos ensinar.

***

Roxana Tabakman é bióloga e jornalista cientifica

 

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