Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > MÍDIA RADIOFÔNICA

Quem salvará o rádio

Por Francisco Djacyr S. de Souza em 23/02/2010 na edição 578

Que nosso rádio tem problemas, todos sabem e diversas são as atitudes perante o fato: os grandes radialistas que têm emprego, fama e dinheiro graças ao rádio, e muitas vezes do modo errôneo de o fazer, preferem jogar o lixo para debaixo do tapete e ignoram a luta pelo rádio, não discutindo nem levantando nenhuma questão sobre o que se passa neste meio de comunicação. Os outros radialistas expulsos pela incompreensão ou pela forma de administrar que visa exclusivamente a interesses econômicos e políticos acabam por se conformar e buscar outras formas de trabalho ou amargar a pobreza e o ostracismo. Outros que preferem não se conformar ficam, como eu, escrevendo textos que não são apreciados e nem divulgados, o que se transforma apenas numa terapia que não leva a lugar nenhum.

Mas o grande problema é que o rádio hoje precisa de ser resgatado não apenas para ser o que foi sempre e conquistar novo público com segmentação de usuários, como ter mais apoio financeiro para que os programas sejam bem produzidos e cumpram a finalidade da comunicação que é informar e garantir a cidadania para todos. O rádio, neste sentido, precisa ser acreditado, pois sabemos de sua força mesmo com os problemas que tem e do público fiel que ainda busca no dial a satisfação de seus interesses em termos de poder dizer o que pensa do Estado, da sociedade e dos problemas do cotidiano.

Mobilização e agregação

A grande missão neste momento é dar ao rádio mais interatividade, mais valorização dos usuários, menor agressividade nas mensagens e maior respeito aos que ouvem este meio de comunicação. Os programadores de emissora têm de fazer uma avaliação constante do que se passa neste meio de comunicação para entender a visão dos usuários que são consumidores sobre o processo comunicativo via rádio. Claro que não somos puritanos nem atrasados, mas há muita mensagem descabida no rádio que acaba refletindo a própria ignorância de nossa sociedade, que acaba embarcando na comunicação sem nexo nem respeito aos ouvintes. Claro que sabemos que o elemento vital para a mudança é um processo de educação para ouvir que dê aos usuários do meio rádio o verdadeiro sentido da comunicação e o papel verdadeiro deste meio de comunicação cuja morte já foi anunciada várias vezes, o que até agora não aconteceu.

O povo não é tão leigo assim como alguns pensam e já reage ao que se passa no meio rádio. Em reuniões promovidas pela Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, temos constatado em vários momentos queixas sobre o que se passa no rádio, porém muitos acabam vendo que seus esforços são pequenos para mudar o que está aí. A desmobilização da classe de ouvintes é muito grande, mas tem a ver com a própria situação da sociedade atual marcada pelo imobilismo, pelo descrédito e pela falta de cultura suficiente para entender processos e situações engendradas na comunicação. Por outro lado, a idéia de criar grupos de ouvintes que discutam rádio é brilhante do ponto de vista teórico, mas pouco executável em termos práticos, pois as pessoas hoje estão preocupadas com seus problemas mais imediatos e ainda não têm compreendido o papel da mobilização e da agregação em busca de interesses coletivos.

Hora de agir

Os problemas do rádio são conhecidos e mesmo assim não tem tido ações práticas que tentem resolvê-los, pois a representatividade dos radialistas, dos jornalistas, dos publicitários e dos estudantes de comunicação tem sido fraca no sentido de agregar valores coletivos e desenvolver práticas que procurem evitar uma crise sem precedentes na história do rádio – que vem sendo promovida pelos grupos católicos e evangélicos e pelas grandes redes que hoje unificam a informação radiofônica e acabam desempregando grandes profissionais locais em nome dos interesses imediatos destes grupos que vêm agredindo a lei de forma gritante sem providência alguma por parte dos órgãos fiscalizadores do processo comunicativo. A quem pertencem as concessões de rádio? As emissoras podem ser transferidas desta forma sem nenhuma fiscalização do Ministério das Comunicações? Os concessionários de rádio podem fazer o que querem de suas emissoras?

O certo é que hoje o tal preceito que diz que rádio é concessão pública vem sendo vilipendiado de forma escandalosa sem providência alguma por parte do poder público e dos organismos de classe e da sociedade em geral. Quem vai ser o grande artífice da salvação do rádio? Está na hora de agir, pois falar já o fizemos incessantemente!

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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