Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

INTERESSE PúBLICO > COMUNICAÇÃO DIRETA

Rádios selam democracia no Burundi

Por Jina Moore em 06/07/2010 na edição 597

O rádio reina na África – quem já passou algum tempo no continente sabe disso. Virtualmente, todos os governos africanos possuem uma emissora. Aqui, um golpe só é realmente considerado golpe quando o general assume o comando da emissora local de rádio. Em Ruanda, no genocídio de 1994, além dos facões, a principal arma usada pelos hutus contra seus vizinhos tutsis foi a rádio Milles Collines, cujas transmissões incitaram a violência.

A experiência mostrou à região que uma emissora de rádio que dissemina rumores, faz ameaças veladas e distribui acusações políticas pode se tornar um perigo ? e um sinal de coisas piores por vir. Assim, no Burundi, onde uma crise eleitoral ameaça anular uma década de constante (ainda que lento) progresso democrático, todos os olhos e ouvidos estão voltados para esse veículo da impressa.

O minúsculo Burundi é o irmão gêmeo ao sul de Ruanda. Trata-se de um país de população tutsi e hutu com um histórico paralelo de amarga violência entre os dois grupos. O Burundi avançou muito desde os dias de seu próprio genocídio, ofuscado pelos massacres mais conhecidos em Ruanda, no início dos anos 90. Uma década de processo de paz foi concluída no ano passado, quando um dos últimos grupos rebeldes finalmente assinou um acordo de paz.

Diplomatas e filantropos consideram o Burundi um raro caso de sucesso na África Central. Diferentemente de Ruanda, o país pode ser considerado um caso de democracia autêntica. Ao menos era isso o que se pensava antes dessa temporada eleitoral. Em maio, o partido do presidente Pierre Nkurunziza, o Conselho Nacional pela Defesa da Democracia-Forças de Defesa da Democracia, venceu as eleições regionais. Nkurunziza foi também o vencedor das eleições presidenciais da semana passada.

Partidos da oposição dizem que a votação de maio foi fraudada e passaram as últimas semanas fazendo acusações contra o partido do governo, os organizadores da eleição, e a comissão eleitoral independente – não necessariamente sem motivo. Eles boicotaram as eleições, realizadas no dia 28, insistindo aos cidadãos do Burundi que não participassem do processo manipulado.

A crise política abalou também a imprensa do país. Há no Burundi quatro emissoras de televisão e vários jornais, mas nenhum desses veículos de comunicação goza de influência comparável àquela das 18 emissoras de rádio do país, ouvidas constantemente pela população.

Rádios em rede

É comum ver as pessoas caminhando por ruas movimentadas com um pequeno rádio colado ao ouvido. Todas as notícias são rapidamente transmitidas no boca a boca entre as comunidades. O processo que se assemelha a um grande jogo nacional de telefone sem fio, fazendo com que os burundineses voltem aos rádios ao anoitecer para saber se o que ouviram era verdade ou boato. Eles dizem que leva tempo para distinguir entre uma coisa e outra.

Num louvável – e raro – esforço para conservar a imparcialidade, 15 emissoras de rádio reuniram seus jornalistas e sua programação para oferecer uma cobertura neutra das eleições em 4 idiomas. Foi uma tentativa de evitar os problemas da eleição de 2005, quando a mídia estava mais fragmentada e vulnerável às doações políticas de cidadãos abastados do que agora.

‘Quando está sozinha, a mídia é frágil’, diz Adrien Sindayigaya, da Search for Common Ground no Burundi, organização de prevenção dos conflitos que ajudou a lançar a iniciativa. ‘Quando tentamos desmascarar certos atores políticos, é fácil para eles nos acusar e dizer ‘vocês estão contra nós”, afirma. ‘Mas, quando há um imenso número de jornalistas dizendo ‘sabemos disto’, ou ‘somos testemunhas’, fica difícil manipular esse grupo para que siga uma linha geral ditada a partir de cima.’

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Do Foreign Policy

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