Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > DEPOIS DA CONFECOM

Reflexão de quem estava no olho do furacão

Por Heitor Reis em 29/12/2009 na edição 570

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” (Darcy Ribeiro)

Na medida em que vou convivendo mais com Nascimento Silva, coordenador da Fitert – Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radio e Televisão, mais o reconheço como um ser humano especial. Adestrado na luta sindical, disputando os direitos da categoria com os patrões, ele não dispensa um bom confronto, o que geralmente nos impede de perceber a pessoa sensível e dedicada a servir seus companheiros e à sociedade. É um diamante se lapidando neste processo de experiências contínuas pelo qual todos nós passamos também, geralmente de uma forma menos abrasiva.

Nesta I Confecom – Conferência Nacional de Comunicação, a Fitert decidiu atuar como intermediária entre os inúmeros problemas causados pelas várias tentativas de boicote do evento por parte dos empresários da mídia a serviço dos grandes capitalistas em geral, os quais obrigaram o governo a pressionar o movimento social e fazê-lo ceder nas condições de sua realização. A pressão foi a tal ponto de contrastar absurdamente com as demais conferências, onde, “nunca, na história deste país”, houve tanto privilégio para os inimigos de classe do proletariado. Não conseguiram impedir o evento, mas o atrasaram de tal forma a criar uma série de infortúnios para seus participantes, os quais já descrevi no artigo intitulado “Problemas evitáveis da Confecom”, neste Observatório da Imprensa.

Causas e conseqüências, erros e acertos

Um destes problemas, fruto da pressão governamental para atender os empresários, foi a aprovação, por parte de entidades como o FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, a Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas e ABCCom – Associação Brasileira de Canais Comunitários, do critério de voto sensível para os Grupos de Trabalho (GT). Fitert, Intervozes e Abraço votaram juntas contra a imposição do governo e dos empresários, enquanto a CUT se absteve (ver “Lula pede e CUT cede aos empresários na Confecom”).

Anteriormente o movimento social já havia cedido neste aspecto apenas para a plenária final, de cuja interpretação a Abra – Associação Brasileira dos Radiodifusores divergia. Mais tarde, os delegados provaram, cientificamente, a distância que há entre o interesses destas lideranças e os seus, desfazendo a decisão de seus líderes. Finalmente, a Abra não abandonou a conferência, conforme o argumento utilizado para ceder tanto nos direitos da sociedade civil não empresarial. A liderança e o governo estavam errados e a base da Confecom, certa!

Assim, em função do debate sobre as causas e consequências, dos erros e acertos, do ônus e do bônus da I Confecom, procurei estruturar mais formalmente uma mensagem veiculada pelo Nascimento no grupo Mobilização da Confecom, julgando ser relevante para a sociedade que sua posição sobre o evento tivesse mais amplitude.

O voto nas Comissões Estaduais

Nascimento exteriorizou sua forma de perceber todo este processo depois de pensar muito no debate ocorrido sobre este assunto, lembrando que, naquele dia do – chamado pelos delegados(as) de – acordão, golpe, traição ou pelegagem, o que se pretendia era achar os culpados desta infeliz decisão, ainda que pretensamente justificada pela ameaça de retirada da Abra do evento. Identificados, eles foram vaiados e xingados solenemente na plenária dos movimentos sociais.

Ele reconheceu que chegou a cogitar de convencer a base dos radialistas de que a Fitert deveria sair dessa primeira I Confecom. Que do jeito que as coisas caminhavam, seria muito difícil para o movimento social avançar em seu objetivo de democratizar a comunicação, principalmente porque já tinha ocorrido anteriormente a saída da Abert – Associação Brasileira de Empresas de Radiodifusão, procurando deslegitimar seu resultando alegando que visava censurar a liberdade de expressão. Mas a coisa ficou ainda pior.

Com a insistência de pessoas como Alexandre Nativa (Sete Lagoas, MG), de saber o que aconteceu, Nascimento passou a ter um sentimento de que sua posição poderia ter sido mais coerente com a das Comissões Estaduais que condenavam este processo de ceder tudo para os empresários, de tal forma a garantir sua participação no evento, mais tarde confirmada pelos delegados que elas enviaram para Brasília.

Fica, então, para discussão futura qual o papel das Comissões Estaduais neste processo e como harmonizar os interesses das bases, por exemplo, da CUT (a maior central sindical) e da base da Confecom, onde estão também organizações que não são filiadas a ela. E também há entidades a ela afiliadas, que não concordam com a posição adotada pela liderança da entidade. Qual a influência que deverá ter o voto das Comissões Estaduais na II Confecom? Deve ser mantido o mesmo critério adotado nesta?

Aprimorando a capacidade de luta

Alegou Nascimento que, quando lia algo escrito por mim, criticando, segundo ele, com razão, a posição da Comissão Organizadora Nacional, ele se remoia por dentro porque sabia o que estava em questão: a imposição do capital. Sabia mais: do nosso lado, a disputa era por espaço político pessoal, muitos tentando apenas obter maior visibilidade e poder.

Respondendo ao Alexandre Nativa, ele declarou: “Hoje, posso lhe assegurar que você está em situação melhor do que aqueles, que, como eu, tomaram para si a responsabilidade de fazer acontecer a Conferência. Não pensamos na crítica de pessoas como você e o Heitor, critica correta, de quem está do lado de fora.”

Ainda nesta sequência, Nascimento Silva refletiu sobre o fato de que uma coisa é decidir por ele próprio, individualmente, e outra, é decidir pelo coletivo. “Acho que não só você, como Heitor, tem uma habilidade que pode ser de grande valia para nossas ações futuras: uma reflexão profunda e independente sobre a realidade dos fatos, cobrando daqueles que não tiveram a mesma sensibilidade.”

Nascimento Silva nunca se esquivou das polêmicas, e certamente, encontrará nesta, mais motivo para continuar exercitando sua enorme capacidade de luta e aprimorando-a.

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Engenheiro, Belo Horizonte, MG

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