Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

INTERESSE PúBLICO > CAMPANHA DO REFERENDO

Sem a arma da informação

Por Precyla Viera Eller em 11/10/2005 na edição 350

A mídia tem um papel decisivo na campanha sobre o referendo no dia 23 de outubro, que vai perguntar à população se o comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido ou não. Enquanto alguns veículos tentam mostrar imparcialidade na elucidação dos fatos, TV Globo e Veja editorializam seu noticiário. O ‘cidadão/receptor’ precisa ficar atento para não se deixar influenciar por conglomerados midiáticos e por estatísticas que podem ser distorcidas ao sabor dos interesses de cada grupo.

O Brasil tem uma realidade bem diferente da de outros países, tanto cultural quanto estruturalmente, mas é válido levarmos em consideração a experiência internacional quanto às práticas adotadas sobre o uso de armas. Só para citar dois exemplos: a Suíça é um dos países com população mais bem-armada do mundo (41%) e apresenta baixíssimos índices de homicídio por armas de fogo (9 homicídios por grupo de 100 mil habitantes). Já a Jamaica, onde a venda de armas é proibida e apenas 0,02% da população é armada, o número de homicídios continua um dos mais altos do mundo (31/100 mil). Outro dado importante é a estrutura e a eficiência da polícia suíça, que supera em vários sentidos a jamaicana. Como já foi escrito aqui no Observatório , a imprensa peca ao ignorar o papel da segurança pública no centro dos debates. Não sei se por imperícia ou omissão deliberada.

O que a campanha do ‘sim’ não cita é o valor do investimento do governo federal com o referendo: 270 milhões de reais. Isto equivale a 100 milhões de reais a mais do que é gasto com segurança pública. Esse montante poderia ser gasto com melhorias no sistema de informação e comunicação da polícia, que por sinal é bem defasado. Fato também ignorado pela campanha do ‘não’. E a imprensa, o que tem a dizer de sensato? Silêncio nos editoriais.

Déficit de cidadania

Embora o referendo não seja a panacéia para todos os males, é, repetimos, perda de tempo discutir a questão de posse de armas enquanto outros problemas, de caráter muito mais urgente, são totalmente ignorados. Por que não há uma matéria investigativa sobre o que move os dois lados?

Um dos argumentos da campanha do Sim é que a proibição evitará que acidentes domésticos fatais ocorram. Parcialmente verdadeiro, o argumento esquece de um ponto fundamental: há direitos constitucionais em jogo. E caberia ao jornalismo, que se apresenta como fiscal da cidadania, ouvir o parecer de juristas de posições diversas.

Proibir que uma pessoa tenha arma legalmente registrada não implica necessariamente impedir a prática de crime interpessoal. Tolice imaginar que o assassinato por motivo passional, por exemplo, perde sua motivação com a interdição. Em vez de proibir, por que não conscientizar a população dos riscos que ela corre ao reagir a um assalto a mão armada? Afinal, a demanda reprimida será satisfeita por um mercado negro. Ou alguém ignora a lei da oferta e procura? E nosso déficit de cidadania?

Pela culatra

Dizer que um cidadão, por conta da ineficiência policial, precisa ter um revólver em casa ou no trabalho para se proteger de eventual assalto não faz sentido. É um frágil argumento da campanha do Não. Por que a mídia não revela que, com esse referendo, o Estado está, a um só tempo, delegando funções e subtraindo direitos? Tanto para quem vai votar a favor ou contra o comércio de armamentos.

Vale a pena refletir se o Estatuto do Desarmamento é um instituto que contribui, de fato, para proteger a integridade dos cidadãos. E o jornalismo precisa colaborar para o amadurecimento do debate.

Que fique bem claro que, no meu caso, ao votar contra o Sim não é à Taurus que procuro beneficiar. Não creio que o problema da criminalidade seja resolvido, ou sequer atenuado com medidas imediatistas que visam apenas desarmar quem, legalmente, tem armas. Mas não é só disso que se trata. A proximidade do referendo mostra, acima de tudo, uma população desarmada de informações. E, nesse caso, seja qual for o resultado do referendo, o tiro pode sair pela culatra.

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Estudante de Jornalismo da Facha, Rio de Janeiro

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