Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > INFORMAÇÃO & DEMOCRACIA

Tempo de avançar o debate sobre a mídia

Por Venício A. de Lima em 06/02/2007 na edição 419

A cada comentário crítico que alguma autoridade pública faz sobre a imprensa (mídia), jornalistas, analistas, cronistas e até mesmo observadores críticos se apressam em responder à crítica evocando a velha metáfora do jornalismo como mensageiro. Lançam mão do argumento de que ‘não se pode culpar o mensageiro pela mensagem que traz’ ou lembram que não foi a imprensa (mídia) que inventou as ‘ladroagens e escândalos’ praticados por políticos dentro e fora do governo.


Assisti a um irritado jornalista em programa de TV afirmando que ‘os jornalistas não inventam nada e tudo sobre o que escrevem foi a eles passado por alguma fonte’ (sic). Os jornais, segundo o argumento, publicam fatos, mostram a realidade. Dessa forma, nada mais impróprio, mais descabido do que as críticas que autoridades insistem em fazer da indispensável cobertura que a imprensa fez e continua fazendo das ‘ladroagens e escândalos’.


Apesar de repetitivo (tratei do tema várias vezes ao longo dos quase três anos que cometo meus artigos neste Observatório), não posso deixar de observar três aspectos envolvidos na questão.


Primeiro, a imprensa (mídia) não gosta e muitas vezes não admite ser criticada. Embora a crítica seja a sua tarefa preferida, ela não suporta delegar ou reconhecer que outros possam ter o mesmo direito, sobretudo se a crítica se refere à sua própria atuação. Em geral, a imprensa e os jornalistas padecem do mal que os gregos clássicos consideravam o mal maior, a hybris, isto é, a soberba, a arrogância. Não reconhecem suas limitações e se colocam acima do bem e do mal.


Segundo, é realmente triste ver profissionais importantes da grande mídia brasileira que ignoram completamente o que há anos se passa no universo da pesquisa e dos estudos sobre a prática do jornalismo e da profissão de jornalista.


Construção da realidade


Claro, a metáfora do mensageiro exime o jornalista e a imprensa de qualquer responsabilidade em relação ao conteúdo da mensagem que transmitem. Isso estimula – consciente ou inconscientemente – seu uso freqüente como argumento de defesa.


Mas, será que os jornalistas, analistas, cronistas e observadores críticos não sabem que nas últimas décadas tem havido um esforço importante em várias instituições ao redor do globo – algumas financiadas por grandes grupos de mídia – para estudar o jornalismo como área específica do conhecimento? E que a velha ‘teoria do espelho’ – na qual a metáfora do mensageiro se baseia – está totalmente superada como explicação para a prática do jornalismo?


O que dizer dos estudos sobre o ‘jornalismo sitiado’, a sociologia do jornalismo, as pesquisas sobre construção da notícia (newsmaking), enquadramento (framing) e agendamento (agenda setting) ou sobre os ‘escândalos políticos midiáticos’?


Será que esses jornalistas, analistas, cronistas e observadores críticos ignoram que o jornalismo é praticado no contexto de uma subcultura própria; de rotinas produtivas que se transformam em normas; e de interferências – explícitas ou não – da posição editorial, vale dizer, das opções e interesses daqueles que são ou proprietários ou concessionários da grande mídia?


Será que eles não sabem – pela sua própria experiência profissional – que as notícias são construções que passam por uma seleção, sofrem um determinado tratamento e podem ocupar espaços/tempos de valoração diferente?


Será que eles não sabem que a imprensa (mídia) pode omitir a informação e que a omissão pode ser mais manipulativa do que a saliência?


Enfim, será que eles não sabem que o jornalismo é ele próprio um importante construtor do que chamamos de realidade?


Associações indevidas


E, terceiro, precisamos superar o falso dilema entre crítica da imprensa (mídia) e ditadura, autoritarismo, ausência de liberdade. Nas sociedades democráticas, a crítica da mídia é um direito que pode e deve conviver com a garantia de todas as liberdades, individuais e coletivas. Identificar, sem mais, qualquer crítica como uma ‘ameaça à liberdade de imprensa’ é fugir das responsabilidades que a mídia como instituição e seus jornalistas devem ter nas democracias.


O debate sobre a mídia e seu papel fundamental nas democracias contemporâneas precisa continuar. No Brasil, ele se tornou indispensável como parte importante da nossa difícil caminhada para a consolidação democrática. Neste contexto, as críticas à imprensa (mídia) por parte de autoridades públicas – ou por qualquer outro – precisam e devem ser respondidas por aqueles que as julgam incorretas.


Soberba e arrogância, argumentos como ‘não temos nada a ver com isso; não fomos nós que criamos as ladroagens e os escândalos; eles estavam lá e nós só os noticiamos’ e o refúgio nas associações indevidas com os regimes ditatoriais não correspondem à qualificação profissional que jornalistas, analistas, cronistas e observadores críticos devem ter e, menos ainda, à importância que a imprensa (mídia) tem no nosso país.


Convenhamos: já é tempo de avançar no debate.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: crise política e poder no Brasil (Editora Fundação Perseu Abramo, 2006)

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/06/2010 Alexandre Figueiredo

    Alô, pessoal do Observatório. Depois de um tempo, voltei a colaborar para o site. Estava ocupado fazendo concurso atrás de outro, e hoje moro em outra cidade. Deixei Salvador, agora moro em Niterói, cidade onde vivi anteriormente. Deixo aqui um texto sobre a mídia digital, sobre o portal Ego, ligado a celebridades.

    Segue depois no envio de minha próxima mensagem.

  2. Comentou em 11/04/2010 Carlos Cesar

    Este link foi tirado de um site, tb sobre comentários da imprensa.

    http://www.viomundo.com.br/tv/sra-cantanhede-e-a-massa-cheirosa-do-psdb.html

  3. Comentou em 08/10/2008 Fabiana Bentes de Rengifo

    Olá, bom dia.

    Gostaria da ajuda de vcs para entrar em contato com Ernesto Rodrigues, que fez o documentário sobre a Colombia. Estudo pós em Relações Internacionais na PUC/RJ, fui correspondente para Globonews na Colombia durante dois anos e minha tese será sobre este país.

    Muito obrigada, Fabiana

  4. Comentou em 10/02/2007 Marco Costa Costa

    A mídia precisa de uma reformulação geral, do jeito que esta não pode ficar. Trata-se de uma mídia corporativista, que defende somente os interesses capitalista, bem como das empresas que faz suas propagandas sofista de cunho duvidoso. Uma mídia capenga do ponto de vista profissional, que prefere fazer da notícia um assunto meramente escandalosa e mercantil. Uma imprensa que não discute o papel das instituições governamentais, como também da precariedade em que vive a maioria do povo brasileiro. Temos uma mídia que defende somente os interesses da média e grande burguesia. Será que ainda a salvação dessa mídia cafona e fofoqueira.

  5. Comentou em 07/02/2007 Maria Turci

    Minha filha de 3 anos acredita em Papai Noel mas o de 4, no último Natal já começou a dar sinais de ampla desconfiança de que o negócio é ‘grupo’ do papai, da mamãe e do mundo capitalista.
    Agora, aqui em casa, nem eles acreditam que jornalista e demais profissionais da midia são mensageiros…

  6. Comentou em 07/02/2007 Giovanni Giocondo

    Diz-se em muitos lugares oportunos que o jornalismo foi feito para dar voz a quem não tem. Que me desculpem os defensores da imparcialidade midiática, mas isso é uma hipocrisia infindável nos dias de hoje.
    A contínua presença de nossos politicos são reflexo desse descontrole da imprensa, que durante todo o tempo disponível noticia aquilo que convém aos seus interesses editoriais e não aos da nação brasileira ávida pelos desvios de conduta dos grandes tubarões de Brasília.
    Em outras palavras, pouco se conhece do ambiente político e muito da politicagem, em uma nítida campanha pela alienação da audiência das TV s, ouvintes das rádios e leitores dos jornais e blogs.
    Na verdade, o jornalismo vem se confundindo com o entretenimento e jogando no lixo tudo aquilo que ele sempre tentou prezar desde que surgiu: O compromisso público e a função social há muito esquecida: Divulgar, questionar e compartilhar com esse público tudo o que a politicagem visa esconder o tempo todo.

  7. Comentou em 07/02/2007 Ricardo Santana

    Apesar de algumas colocações serem recorrentes, como o próprio autor afirma, o Venício tem feito com muita propriedade em seus artigos a defesa de que a mídia deve sim ser melhor estudada, refletida e sempre questionada. É ainda um trabalho de formiguinha, mas que tem despertado a reflexão em muitas pessoas. A grande maioria de nós que trabalhamos no meio temos institintivamente a péssima mania (ou treinamento) para nos colocarmos como uma ponte. Nós fazemos parte dessa grande estrutura (ou grande engodo?) que é a mídia e precisamos ter consciência disso para podermos refletir melhor nossa participação. Os jornalista cometem sim muitos erros. E isso é completamente normal. Precisamos é refletir o jogo de quem estamos jogando. A mídia estaria mais para ‘coelhinho peludo e zebrinha listrada’ ou para ‘baratas e ratos’? Possivelmente, um híbrido disso. Continue sua cruzada, Venício.

  8. Comentou em 06/02/2007 Fernando Luís Luís

    Carríssimo ,
    Com a qualidade da informação que se observa na tv aberta, principalmente aquele joranalismo feito pela rede globo, dá pra se pensar em discutir o papel de uma mídia democrática, com organizações eivadas de interesses utilitaristas?

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem