Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > JORNALISMO VALE-TUDO – 2

Três em um

Por Gilson Caroni Filho em 04/07/2007 na edição 440

Se fosse adepto da egolatria, veria a edição nº 440 deste Observatório como minha consagração. Não é todo dia que um artigo repercute de tal forma que as réplicas vêm sob o formato ‘três em um’. Para não deixar em brancas nuvens o arrazoado dos três jornalistas, tomo a liberdade de selecionar o que julgo mais relevante em cada um dos textos e responder de forma sucinta aos ‘intransigentes defensores da liberdade de imprensa’.


Desnecessário frisar que nem todas as questões contempladas nos artigos serão abordadas. Qualquer critério adotado não daria conta da totalidade das considerações feitas. Como foi o jornalista Sandro Vaia quem começou o debate, inicio pelo dele minhas observações finais sobre o assunto. Procurarei ser breve.


Afirma o ex-diretor de Redação do Estado de S.Paulo em ‘Apontamentos sobre a `imprensa golpista´‘ que o termo só cabe em ‘alguém que defende um golpe de Estado, ou seja, defende a derrubada de um governo legitimamente eleito por meio de um putsch anticonstitucional, um golpe de força’.


Não, prezado jornalista, definitivamente não. Palavras e práticas devem ser atualizadas sob pena de se perderem na falta de sentido. Também é golpe usar o poder de agenda da mídia, sabendo da centralidade política que ela ocupa, para acuar um governo democraticamente eleito. O leitor ou telespectador tem o direito de saber o que está acontecendo no país. Denunciar desvios do poder público é tarefa da imprensa. Usar o denuncismo para ocultar avanços econômicos ou interditar o debate político é função de partido de oposição que ignora as regras do processo democrático. E é a isso que os grandes jornais têm se prestado com afinco. Se luto por uma imprensa republicana, o vezo autoritário é meu? Tenha santa paciência, Sr. Sandro. Um pouco de rigor teórico ajuda a compreender melhor o processo. A questão, repito, não é semântica. É, acima de tudo, de enquadramento político do autor.


Ponto de concordância


Na edição de 22 de junho de 2006, o colunista do Globo, Merval Pereira, surpreendeu os seus leitores ao afirmar que ‘o presidente Lula está diante de um momento desses: ou se contenta com o que já conseguiu, e que não é pouco, ou segue adiante fazendo as reformas estruturais de que o país precisa para um crescimento acelerado e sustentado’. O que de tão relevante foi conseguido que os jornalões não noticiaram?


Curiosamente, sem o querer, Merval denunciou um fazer jornalístico que não colabora em nada para consolidar a esfera pública democrática. É difícil não se valer de Freud ante um ‘ato falho’ dessa magnitude. É a manipulação barata ousando dizer seu nome. O que lhe parece, prezado jornalista? O que foi omitido ao público faz parte de alguma prática consagrada tal como a chamada do UOL ? Assim é, se lhe parece.


Indaga o Sr. Sandro: ‘Noticiar que o irmão do presidente da República foi acusado pela Polícia Federal de ser lobista (ou de tentar ser, coitado, pois ao que parece falta-lhe capacidade para tanto) é golpismo ? Noticiar os malfeitos deste ou daquele governo é golpismo?Em absoluto, senhor redator. O problema é que os malfeitos ‘daquele’ governo foram abafados de tal forma que o procedimento se tornou regra em quase todas as redações.


Vejamos três episódios: onde estava o jornalismo investigativo na farra do Proer? No escândalo da reeleição? No calote do Fundef? Do que tratava Jornal Nacional e do que se ocupavam seus eficientes profissionais à época? Claro que existem vários outros escândalos do tucanato, mas bastam os mais emblemáticos para desmontar os supostos estatutos de verdade da imprensa nativa. Se de fato a Folha de S.Paulo foi, por uma esperta visão mercadológica, a exceção dos oito anos, os demais cumpriram as ordens dos donos do poder como legítimos ‘cães de guarda’.


Como se portaram os que reclamam por Lula não adotar um discurso antichavista, quando FHC concedeu a Fujimori a medalha da Ordem Cruzeiro do Sul? Parafraseando Drummond de Andrade, em que gruta ou concha quedavam abstratos nossos ‘bravos democratas’? Ou em que editorias exercitavam o seu ‘realismo político’?


Por fim, um trecho genial. Escreve o jornalista: ‘Quem se opõe à liberdade de informação é quem quer impor a ela a sua visão ideológica, é quem quer decidir o que pode e o que não pode ser publicado. E como, e onde, e quando deve ser publicado’. Nesse ponto concordamos, Sr. Sandro. É exatamente isso que mais condeno nos donos de meios de comunicação e seus funcionários mais servis.


Processos internalizados


Em ‘A opinião com vezo autoritário‘ o jornalista Ruy Fabiano, ex-aluno da Facha, afirma que, da mesma forma que critico o ‘jornalismo vale-tudo’, o pratico. Não, não pratico jornalismo. Escrevo artigos. E não o faço como o senhor diz, de forma leviana.


Não afirmei que o senhor era ‘empregado’ da Globo ou estivesse sendo pago para escrever aquele artigo. Releia com vagar o trecho em questão:


‘Não foi o suficiente para quem teme efeito demonstração. O jornalista Ruy Fabiano não titubeou em sair em defesa de quem o emprega. Em artigo que beira o primarismo, escreveu que `transpondo o raciocínio para o Brasil, pode-se dizer que, se amanhã a concessão da Rede Globo findar e o governo simplesmente não a renovar, estará sendo legalista e democrático. Ora, assim como a concessão de um canal de TV não pode ser ato pessoal de vontade do governante, muito menos sua supressão´. Fabiano, ao se tornar porta-voz do monopólio, esqueceu que, no Brasil, tal decisão teria que contar com o consentimento do Senado para ser efetivada. Distorcendo a fala do presidente, caiu em equívoco, e fechou simbolicamente o Congresso’.


Tratava da sólida aliança da mídia, não da Globo especificamente. Ao falar que o senhor ‘saiu em defesa de quem o emprega’ estava me referindo à imprensa. E enfatizava, de fato, seu papel de porta-voz de uma ideologia. Há nisso injúria, calúnia ou difamação? Afirmar que alguém é ator político é difamação? Por favor, prezado jornalista, leia com mais atenção e verá o quão apressada foi sua primeira leitura. Quando afirma que associo opinião a interesses, está corretíssimo. Na doxa não há isenção, meu caro. Isso é próprio do único animal que, pela linguagem, rompeu com a natureza e constituiu a cultura: o homem.


O jornalista Ivan Berger (‘A dialética carola‘) vê na concordância dos leitores um comportamento bovino. É fazer pouco do senso crítico de quem lê o Observatório. Mas ao afirmar que estou na contramão da história, inverte a ‘dialética carola’ a mim atribuída. Em que trecho reproduzo o senso comum da esquerda nos anos 1960? Defender Chávez é anacrônico, Sr. Berger? O vanguardismo está no apoio aos golpistas que tentaram derrubá-lo? Prezado, para efeitos de empulhação seu artigo deve guardado como referência. Carola é a dialética do mercado como fundamento último, como expressão da razão moderna.


Aos três, Sandro, Ruy e Berger, deixo claro que julgo salutar o confronto de idéias. Contanto que seja com cada um de uma vez. E lembro-lhes que processos ideológicos são internalizados de tal forma que não nos damos conta do quanto nossa consciência se inverteu. Cordiais saudações.


***


Nota do OI: Garantidos os espaços para as devidas réplicas e tréplicas, o Observatório encerra aqui este debate. Novas considerações sobre a polêmica poderão ser postadas na área de comentários dos respectivos artigos.

******

Professor-titular de Sociologia da Facha, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/10/2010 PAULO ROBERTO CARNEIRO CAMPOS

    É ético chamar o Presidente da República de energúmeno?
    Tudo bem que o jornalista explicou aos leitores que, o termo foi usado no sentido de ‘fanático’, porém, a palavra também significa burro, idiota, imbecil, tonto, panaca, retardado , etc…
    Não teria sido mais simples usar ‘fanático’?
    Agradeço o espaço para minha colocação.
    Att.,
    Paulo Roberto

  2. Comentou em 19/07/2010 sergio costa

    Fiquei estarrecido com as imagens feitas de bruno sorrateiramente por alguém da polícia e depois vendidas ao fantástico. Isto é legal? è Ético? Que polícia é essa? Por favor Dines comente.

    abraço

    Sérgio.

  3. Comentou em 09/02/2009 Francisco Othon Othon

    Televisão Brasileira está Lixo,entre pior é Big burro Brasil é tudo mantira ,programação Rede Globo a volta normal em abril após porcaria Big Burro Brasil, mas Infelizmente programa Big burro Brasil até 2014.

    Ora a mídia é muito burra ,mas o mundo não vai Acabar em 2012 e 2014 , o povo fala muito besteira ,como E.T não existe , mas eu acreditar Universo, nós vamos sobreviver , vai ter sim copa 2014..

  4. Comentou em 09/07/2007 Carla Rapahel

    A cada manifestação direitosa, mais importante fica esse artigo. Difícil é dialogar com fascismo adolescente.

  5. Comentou em 07/07/2007 Fernando Pinto

    E tem mais. Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político que não é do PT, não pode ser chamado de lulista e não tem sinecura no governo: “A resposta é tão simples que alguns vão achar simplória. Lula jamais será confiável às elites tradicionais brasileiras e nem mesmo às elites modernas beneficiadas, agora, pela política econômica do governo. Pesquisa como essa sempre provocará controvérsias, pela subjetividade de algumas questões. Não importa. Ela coloca elementos sérios, concretos, sobre o comportamento da imprensa brasileira. Por isso, pensando na imprensa como empresa, é o caso de se perguntar: o que ela ganha com o anti-lulismo? Eu me refiro à relação do risco jornalístico com o benefício do negócio”. Não gostaram? Assistam a opiniões alternativas no programa Painel( tucanos in concert) ou nos jornais que reproduzem o que pensam Lavareda, Lamounier e outros fernandistas de primeira hora. Eu fico com artigos de gente boa que o Observatório publica.

  6. Comentou em 07/07/2007 Carllos Alberto Dias Saraiva

    Até que enfim, o OI resolveu acabar com essa discussão totalmente estéril, na qual de um lado um professor com o cérebro engessado noa anos 50, continua a gritar em cima dos escombros do Muro chavões antigos e que já perderam o sentido, aplaudido por uma claque que acha que o tiranate Chávez é socialista(trata-se de mais um milico golpista, que descobriu que nacionalizar ainda dá audiência) e que Lula é o redentor (que contratou o tucano ex-office-boy do Bank Boston para sufocar o Brasil com juros astronômicos) todos infectados coma doença infantil do esquerdismo. E no outro canto do ringue o típico jornalista brasileiro, capacho dos patrões de uma direita cartorial que domina a nossa parcial imprensa grande (grande imprensa é sinal de nobreza de ideais, coisa que a nossa deixou de ter há muito tempo) . Esses infectados com a doença senil do direitismo. Se o debate político-ideológico do Brasil se reduziu a comparar dossiês e cifras de roubo do dinheiro público, acho que finalmente chegamos ao fundo do poço!

  7. Comentou em 07/07/2007 Ricardo Arruda

    O artigo do professor Gilson-em boa hora-veio sanar uma deficiência que via nos demais analistas do Observatório. É preciso dar nome aos bois. A mídia é corporativa e os jornalistas se acham donos de uma impunidade total. Escrevem o que bem entendem e acham que ninguém pode questionar. Grande mestre, o que o senhor fez foi mostrar aos redatores, editores e outros ‘ores’ Parabéns, tudo vale a pena quando o joão não é pequeno

  8. Comentou em 06/07/2007 Bergue Alves da Rocha

    Quando fala em democracia, vem a pressão psicologica da mídia privada tentar acabar com a graça. Sou estudante de jornalismo, e adorei essa discursão que mostra os dois lados da moeda. Por acaso o Gilson está errado ao dizer alguma coisa sobre a mídia? Sempre foi assim a mídia manda naquilo que quer, não precisa seguir as ordens dos donos do poder, basta ela ver o que favorece a si própria. Uma coisa é certa, quando você não torce para algum time, seja pelo menos Brasileiro coisa que não vejo em nenhuma midia, as públicas estão largadas de lado a única opção de democracia que nos temos é a nossa voz, escrever artigos que fale a verdade é que faça refletir, como aconteceu neste artigo do Professor Gilson. Posso ainda
    ser um estudante com o pensamento Pequeno, mas não sou nenhum João ninguém.

  9. Comentou em 05/07/2007 FernandoPinto

    Coitadinho do Sandro Vaia! Teve várias oportunidades de escrever algo que prestasse e não conseguiu. Agora, como garoto birrento, fica postando a mesma mensagem mais de uma vez. È um desrespeito aos editores do OI. Uma forma infantil de pressionar. Por que ,para ficar mais ridículo ainda,não adota a estratégia do Estadão, na época da ditadura? Poste receita de bolo e versos de Camões. Que coisa mais boba para um homem da sua idade. Francamente.

  10. Comentou em 05/07/2007 Cid Elias

    O sr vaia é tão descarado que publica ao melhor estilo das distorções diárias vistas no jornalão que dirigiu e que defende com unhas e dentes, isto: ‘Levando em conta que as regras do Observatório deixaram ao professor Caroni o privilégio de dar o pontapé inicial e o pontapé final do jogo’. O jornalista derrama suas falsas premissas como se o Gilson Caroni tivesse aberto esta discussão. Como se o artigo pontapé inicial do Caroni tivesse alguma inverdade, ou citasse em algum trecho o tal senhor vaia e sua forma mal inencionada de afirmar as coisas. Aliás, deixemos claro: o ilustríssimo jornalista sandro vaia NÃO foi citado(provavelmente o Caroni nunca tinha ouvido falar na tal criatura). A bem da verdade, vaia sentiu que a carapuça lhe ficou tão perfeita que resolveu sair por aí vestindo-a, basta analisar o artigo-ofensa com aquelas expressões lúdicas do tipo ‘Caroni vem contrabandear seu lixo ideológico’ que escreveu de pronto e raivoso, embora Caroni nunca tenha feito quaisquer referências ao seu nome, não acham? Mais, o vaia não percebeu que o pontapé final trata-se APENAS da reação de defesa natural ao covarde ataque 3 x 1 permitido aqui, observa-se aí, ao contrário dos outros três, uma postura digna de um cidadão que debate respeitando o acusador. Recolha-te dr sandro, grande democrata em extinção, farás um bem ao Brasil.

  11. Comentou em 05/07/2007 Hebe Sanches Oliveira

    Ao jornalista Sandro Vaia, ao Gilson e aos demais devo dizer uma coisa:há quase um mês vocês hegemonizam ( olha Gramsci no abre-alas!) a seção de debates. Na condição de leitora, dou graças aos céus pela decisão do Observatório. Estava mesmo na hora de mudar de assunto. Parabéns pelo desempenho de todos!

  12. Comentou em 05/07/2007 Maurício Tuffani

    Mais uma vez tivemos uma tosca siimulação de debate. De um lado, a defesa descarada do governo; de outro, a omissão em face dos desmandos da mídia em geral. Caroni e Vaia foram os que mais mostraram terem apostado no que suas respectivas platéias têm de pior: espírito de torcida, maniqueísmo e embrutecimento mental.

  13. Comentou em 04/07/2007 Sebastião Martins

    O sobrenome dos três jornalistas deveria ser ‘vaia’. É o que eles merecem por seu tom corporativista e patronal. O sobrenome do professor deveria ser ‘aplauso’. É o que ele merece por sua lucidez e coerência. Parabéns professor. Às vezes, as melhores aulas são dadas fora de sala.

  14. Comentou em 18/07/2006 Amir Somoggi

    Ao Observatório da Imprensa,

    Meu nome é Amir Somoggi e sou consultor e professor na área esportiva com projetos com clubes e patrocinaodres.

    Gostaria muito de assistir no programa Observatório da Imprensa uma análise sobre a atual crise que afeta a mídia nacional.

    Percebí que de uns anos para cá a linha editorial dos veículos foi substituída pelo interesse comercial. Cito como exemplo a frase que já houvi de muitos jornalistas de que não se pode abordar determinados assuntos pois afastaria potenciais anunciantes!!!

    Isso é o fim dos tempos, o que coloca na minha opinião, a democracia brasileira em xeque, visto que uma parte expressiva da mídia brasileira está mais preocupada com os interesses empresariais do que com sua missão, informar de forma isenta a população.

    Obrigado pelo canal de comunicação.

    Atenciosamente.

    Amir Somoggi

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