Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

INTERESSE PúBLICO > BRASIL DIGITAL

TV interativa com um olhar inclusivo

Por Sergio Jellinek em 29/08/2013 na edição 761

A televisão continua a ser o veículo de comunicação mais popular do planeta. A cada ano, o número de horas passadas em frente ao televisor aumenta em todo o mundo, apesar do vertiginoso surgimento de novos gadgets. Em meio a tantas mudanças, o papel da mídia pública também vem sido discutido, especialmente na América Latina. Como modernizar sua função e lugar em meio ao ecossistema plural que toda sociedade democrática deve construir e cultivar?

Quando a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) me apresentou a ideia de testar um sistema de televisão digital que oferecesse um sistema interativo de serviços integrados de internet a pessoas sem acesso à rede, percebi que seria algo realmente válido.

Preparamos os termos de referência do estudo e a EBC contratou um renomado consultor espanhol e um grupo de brasileiros. Eles montaram o cenário para uma experiência inédita que poderá ser vivenciada agora na América Latina e na África.

O projeto da EBC e da TV Câmara tinha como objetivo oferecer uma programação interativa que incluísse serviços públicos essenciais e programas educativos. Para produzi-los, foram convidados a participar equipes de especialistas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), do Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital da UFPB (Lavid), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Católica de Brasília (UCB).

O projeto piloto foi testado em três bairros de baixa renda de João Pessoa (PB). Cem famílias inscritas no Programa Brasil Sem Miséria, e com renda média de R$ 300 por mês, foram convidadas a participar. Em cada casa envolvida, havia entre dois a 13 moradores, totalizando 358 participantes. Deste total, 194 tinham 14 anos de idade ou mais. A maior parte dos domicílios possuía apenas dois quartos (73%) e um banheiro (92%). Todos com água encanada e energia elétrica e quase todas as casas com esgoto sanitário.

Todos os participantes já tinham pelo menos um televisor em cores, com tela de até 21 polegadas. Mas apenas 8% das residências tinham computador. O rádio também estava presente em 61% dos lares e o telefone fixo, em 23%. Cada família também possuía ao menos um telefone celular pré-pago.

Pacote de ofertas

Em cada uma das casas foram instalados aparelhos de recepção digital, que permitiram às famílias utilizar o menu interativo de serviços básicos como ferramentas de busca de emprego, cursos profissionalizantes e informações sobre economia doméstica e saúde. Tudo apenas a um controle remoto de distância.

Os conteúdos foram apresentados por meio de vídeos com cinco minutos de duração, em média. Dessa forma, além de respeitar a linguagem tradicional televisiva, facilitou-se a utilização do conteúdo por usuários não alfabetizados.

Com o apoio do Ministério do Trabalho, o polo multimídia da UFPB desenvolveu programas sobre como obter carteiras de identidade, de trabalho, e o Cadastro de Identificação do Contribuinte (CIC). Criou ainda uma ferramenta através da qual o usuário poderia procurar, sem sair de casa, melhores oportunidades de emprego e cursos de profissionalização, atualizados semanalmente via streaming.

A Universidade Católica de Brasília, com apoio do Ministério da Saúde, optou pelo popular formato de comédia de situação para falar sobre assuntos sérios, como vacinação e aleitamento materno. A mesma fórmula foi usada para apresentar os programas do governo federal Farmácia Popular e o Saúde em Família.

Outros programas federais também tiveram destaque na TV Digital. A Universidade Federal de Santa Catarina, com o apoio dos ministérios de Desenvolvimento Social e da Previdência, produziu dois vídeos interativos sobre o Bolsa Família e o Cadastro Único. Complementando o pacote de ofertas, o Banco do Brasil disponibilizou um curso de educação financeira interativa.

Gestão democrática

Durante um mês, foram reunidos dados para um estudo de avaliação de impacto do projeto. De acordo os resultados, 83% dos participantes afirmaram ter tido benefícios econômicos. Deste total, 64% relataram ter economizado dinheiro por terem tido acesso a serviços públicos sem sair de casa. Outros 2% também relataram aumento em sua renda devido a novas oportunidades de emprego e cursos profissionalizantes.

Mais do que aumento na renda, o que se observou foi um maior fluxo de informação entre uma população que carece, e muito, de conhecimento e oportunidades. Foram frequentes os relatos de famílias que a princípio não quiseram participar do projeto, mas que não resistiram às facilidades apresentadas pelo TV Digital Interativa e acabaram recorrendo aos aparelhos de seus “televizinhos” participantes do projeto piloto.

Frente aos resultados positivos, além do desafio que agora se apresenta da ampliação do acesso à TV Digital Interativa em Brasil, também a América Latina está olhando para essa experiência brasileira de inclusão. O projeto será apresentado durante o IV Fórum Internacional de Mídias Públicas, que tem início na quinta-feira (29/8), em Brasília.

O desenvolvimento da televisão digital pode gerar oportunidades únicas de democratizar a gestão das TVs, distribuindo-a entre os mais diversos setores da sociedade e, dessa forma, forjando um sistema mais equilibrado de meios de comunicação.

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Sergio Jellinek é gerente de Relações Externas do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe

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