Sexta-feira, 27 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 8/4

TV Pública é sancionada com veto

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 08/04/2008 na edição 480

Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


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FNDC


Terça-feira, 8 de abril de 2008


TV PÚBLICA
FNDC


TV Pública é sancionada com veto


‘O governo cumpriu o acordo com as empresas de televisão e vetou o artigo 31 da Lei nº 11.652/2008, que cria a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) , a TV Pública, e que foi sancionada ontem e publicada na edição de hoje do Diário Oficial da União. Com isso, as emissoras comerciais não terão a obrigatoriedade de repassarem à TV Brasil a transmissão de jogos de seleções brasileiras de qualquer esporte, se comprarem os direitos, mas optarem por não transmitir.


O artigo foi incluído pelo relator da medida provisória da TV Pública na Câmara, deputado Walter Pinheiro (PT-BA), com o intuito de assegurar que os cidadãos tenham acesso às práticas esportivas onde há a representação do País. O parlamentar já avisou que tentará mobilizar o Congresso Nacional para derrubar o veto.


Outro ponto da nova lei deve ser contestado na Justiça pelo Partido Democratas, que considera a criação da contribuição de fomento como um novo imposto e que, por esta razão, não poderia ser estabelecido por medida provisória. A taxa deve assegurar uma receita extra de R$ 150 milhões este ano, além dos R$ 350 milhões previstos no Orçamento da União.


A contribuição de fomento será composta por recursos do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel).’


 


 


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 8 de abril de 2008


TV PÚBLICA
Janio de Freitas


Limites ausentes


‘JÁ O PRIMEIRO incidente na produção do telejornalismo da TV Brasil (ou TV Pública?), criada formalmente no mês passado, revela uma situação interna incompatível com a proclamada independência da emissora em relação ao governo, para ser um serviço público ‘independente como a BBC’. Uma distorção tão cedo e tão óbvia, quando o telejornal ainda é a única produção transmitida por essa TV, vale como mau prenúncio.


A situação crítica foi revelada por Luiz Lobo, demitido do cargo de editor-chefe da TV, em breve passagem ao narrar a Daniel Castro, na Folha, que ‘todo texto sobre Planalto, Presidência, política e economia’ tem que passar por um crivo que ‘muda os textos dos repórteres freqüentemente’, no sentido presumidamente mais apropriado para a Presidência ou o governo. Veto ao uso da palavra ‘dossiê’, por exemplo, em noticiário a respeito dele. Restrições negadas pela diretoria de jornalismo como interferência de fins políticos, mas não como fatos.


A anomalia imprópria à ‘TV independente e pública’ está em uma exigência ética não cumprida na estrutura dada ao seu jornalismo. Não é o caso de habilitação profissional, de integridade pessoal, e muito menos de nomes, mas é indiscutível que nenhum nível de decisão do jornalismo pode ser ocupado, sem impropriedade ética e política, por profissional pessoalmente ligado a nível alto do governo, quanto mais à Presidência da República.


Na TV Brasil, o crivo do telejornalismo e a elaboração de textos que antecedem a notícia, e nisso encaminham o seu sentido, estão entregues à mulher de um assessor de imprensa da Presidência da República. Tal situação na emissora dispensa discutir se é ou não intencional: é, por si mesma, passível de suspeita, simplesmente. Haja ou não limitações informativas e domesticações textuais, todo deslize e toda carência sujeitam-se a ser interpretados como manipulação política. Com os efeitos de praxe.


A independência da TV Brasil só pode partir da inexistência de conexões inconvenientes ao jornalismo, mesmo que não cheguem a ser matrimoniais. Nesse capítulo, os limites do admissível são estreitos.


Paguemos


Nem só de perdas são os efeitos, nos aeroportos, da greve de auditores da Receita Federal. Os depósitos e as áreas externas para contêineres estão superlotados, como imagem pesada dos prejuízos idem de exportadores e importadores. Mas a Infraero já encheu os cofres nesses 20 dias de greve dos auditores. A ocupação de área aeroportuária por carga paralisada é paga, segundo a duração, em percentuais sobre seu suposto valor.


O exportador perde, porque seu cliente estrangeiro não cobre o gasto imprevisto. O importador não precisa se preocupar: nós pagamos o seu gasto extra, que será incluído no preço, aqui, do produto importado.


Bom método


É curioso como os sucessivos governos de São Paulo erram nas contas que não os louvam. São sempre assim, entre outros, os levantamentos numéricos da criminalidade e de seus registros policiais. Agora são os 400 casos de dengue que aparecem na contagem dos municípios, mas não entraram na soma feita pelo Estado. Um pequeno corte de um terço dos casos municipais levantados pela Folha. O mau resultado das escolas paulistas no Enem talvez explique em parte as somas originais dos governos, mas o restante da explicação deve estar na auto-ajuda: o sucesso pelo método mais fácil.’


 


Fernando Barros de Mello


Conselho da TV Brasil vai apurar ‘controle’


‘O Conselho Curador da TV Brasil decidiu montar uma comissão corregedora para analisar as denúncias feitas pelo jornalista Luiz Lobo, que era âncora e editor-chefe do jornal ‘Repórter Brasil’.


Após ser demitido na última sexta-feira, o jornalista acusou o Palácio do Planalto de interferir no jornalismo da TV pública federal, lançada em dezembro pelo governo Lula com a promessa de que não seria uma emissora chapa-branca.


Ontem, o presidente do Conselho Curador, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, enviou e-mail para todos os membros do órgão. Provavelmente, serão três corregedores, um deles relator. ‘Vamos ouvir todas as pessoas, o jornalista e os outros, com amplo contraditório’, afirmou Belluzzo.


A Diretora de jornalismo da TV Brasil, Helena Chagas, disse que irá enviar as explicações sobre a demissão ao conselho. ‘Vamos enviar um relatório para mostrar as razões profissionais [da demissão], a começar pela inadequação dele para a função de editor-chefe e pelo fato de ele não querer trabalhar durante o dia, só a partir das 16h’, afirmou Chagas.


Ao todo, 15 conselheiros representam a sociedade civil. ‘O fato por si só já deve funcionar como um alerta para uma possível confusão entre interesses do governo e interesses públicos’, disse o advogado Luiz Edson Fachin, professor da Universidade Federal do Paraná.


‘Minha primeira reação é de descrença, pois os diretores da TV Brasil sabem que uma concessão em relação ao conteúdo corresponde à morte da independência. Sou testemunha da compulsão pela isenção na TV, mas o assunto é sério demais e precisa ser examinado’, afirmou José Paulo Cavalcanti Filho, ministro interino da Justiça no governo Sarney.


O ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo e o professor Wanderley Guilherme dos Santos, outros dois membros do conselho, também defenderam a investigação do caso. ‘Vamos apresentar a reportagem e pedir esclarecimentos’, disse Lembo. A artista plástica Rosa Magalhães e a biofarmacêutica Maria da Penha disseram que ainda não sabiam das acusações feitas pelo jornalista.’


 


DOSSIÊ
Folha de S. Paulo


Para Ciro, imprensa de SP tenta difamar a ministra


‘O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) disse ontem que existe um movimento ‘clandestino’, criado a partir da imprensa de São Paulo, para desmoralizar e difamar a ministra Dilma Rousseff, no episódio do dossiê criado pela Casa Civil com dados do governo FHC.


Em entrevista à Rádio Gaúcha, o deputado afirmou que o movimento ocorre no momento em que a petista aparece como uma possível candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010.


‘Na medida em que se menciona a ministra Dilma -que é um quadro extraordinário, uma pessoa muito decente, uma pessoa muito capaz, muito trabalhadora- como uma possível candidata à Presidência da República, há um movimento desta máquina clandestina que tem o epicentro em São Paulo, na imprensa de São Paulo, para tentar desmoralizar, difamar, de maneira a não deixar que essa pessoa se apresente para o verdadeiro julgamento popular’, disse, pela manhã.


Ciro, que faz parte da base governista, citou a revista ‘Veja’ como sendo a ‘ponta de lança’ do suposto ‘esforço difamatório’ contra a ministra. ‘Basta a gente lembrar as acusações de que o PT recebeu dinheiro de Cuba, o que não é verdade, e de que o PT recebeu dinheiro das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], o que também não é verdade’, disse o deputado, se referindo a reportagens da revista.


No fim de março, a ‘Veja’ e, depois, a Folha conseguiram cópias de trechos do dossiê. A ministra negou que a pasta tenha montado um dossiê. Disse que estava sendo elaborado um ‘banco de dados’ com as despesas do governo de FHC.


Na sexta, a Folha publicou reprodução do arquivo mostrando que ele foi produzido na Casa Civil. Dilma levantou a possibilidade de espionagem nos computadores do Planalto.


Ciro acusou o senador tucano Álvaro Dias (PR) de entregar os dados sobre os gastos de FHC à revista, com o objetivo de ‘estabelecer uma novela escandalosa e difamatória do governo’. Dias afirmou ter tido acesso às informações, mas negou que as tenha vazado.


‘Quem entregou essa informação para a revista ‘Veja’? Já está esclarecido. Foi o senador Álvaro Dias, um radical opositor ao governo Lula, quadro do PSDB. Não passa pela cabeça de ninguém que a ministra Dilma, querendo difamar o Fernando Henrique, fosse vazar um dossiê para a mão do senador Álvaro Dias’, disse Ciro.


Ao ser questionado sobre a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Lula, Ciro preferiu não falar.’


 


Eliane Cantanhêde


Baixou polícia


‘BRASÍLIA – Quanto mais a imprensa mexe, remexe e junta os ‘ossinhos de galinha’, mais vai surgindo um ‘dinossauro’ dentro da Casa Civil. A estratégia de comunicação do governo tem enorme responsabilidade nisso. Quando surgiu a história do dossiê, Dilma Rousseff e Franklin Martins deveriam ter ido direto ao ponto: existe, está sendo coletado a partir do dia tal, pela equipe tal, abrangendo o período tal. Não é por nada.


Só para a necessidade de a CPI pedir os dados ao Planalto.


A gritaria continuaria um pouco, com a imprensa cobrando e condenando o uso da máquina do Estado para constranger adversários políticos. Mas a novela do dossiê, sem novos capítulos, tenderia a perder audiência. Até porque o governo tem maioria na CPI da Tapioca, e a oposição late, mas não morde.


Dilma Rousseff e Franklin Martins, porém, têm vocação para a guerra. Multiplicam versões que caem uma atrás da outra e se mantêm de prontidão, não para a defesa, mas para o ataque.


O resultado são duas novas frentes de batalha: a Polícia Federal e, talvez, uma nova CPI exclusiva no Senado, com maior equilíbrio de forças. O que se resolveria com a comunicação virou caso de polícia. Se Lula se irritava com ‘um clandestino’ no Planalto, pode se preparar para vários ‘clandestinos’.


PF e CPIs seguem aquela velha regra: sabe-se como começam, nunca como acabam. E com a PF não há, ou não deve haver, negociação e acordo. Senão, o dossiê do uiscão vira o dossiê do uiscão e… da PF.


A imprensa, por vocação e por obrigação, ‘briga’ pela notícia, pela informação, pela verdade. Dilma e Franklin deveriam ter respirado fundo e tirado os ossos da Casa Civil. Como? Com notícia, informação, verdade. Simples assim. Quando um não quer, dois não brigam. E não baixa a polícia.


A não ser que o dinossauro seja ainda mais feio do que parece.’


 


LADY DI
Folha de S. Paulo


Chofer e paparazzi são culpados por morte de Diana, diz júri inglês


‘Os culpados pelas mortes da princesa Diana e de seu namorado, Dodi al Fayed, foram seu motorista, Henri Paul, e os paparazzi que perseguiam o casal, decidiu o júri do inquérito público britânico sobre o caso. A decisão, por 9 votos a favor e 2 contra, saiu ontem após seis meses de audiências com mais de 250 testemunhas.


O veredicto de homicídio por ‘negligência crassa’ implica Paul e os fotógrafos, que perseguiam o casal em Paris quando o Mercedes em que estavam bateu no túnel sob a ponte d’Alma, em 1997, bem mais do que duas investigações anteriores.


Em 1999, um tribunal francês culpou o motorista alcoolizado e inocentou os paparazzi. Sete anos depois, um inquérito no Reino Unido determinou que o acidente deveu-se à imprudência de Paul -que também morreu na colisão-, ao encalço dos paparazzi e à falta de cinto de segurança do casal.


Desta vez, após quatro dias de deliberações, o presidente do júri declarou no tribunal: ‘A batida foi causada por ou contribuíram para causá-la: a velocidade e a forma de dirigir do chofer do Mercedes e dos veículos que o perseguiam’.


Os príncipes William e Harry agradeceram aos jurados, em um comunicado, e disseram concordar com o veredicto.


Já o pai de Dodi, o empresário egípcio Mohamed al Fayed, para quem o casal foi assassinado pelo serviço secreto a mando da família real porque Diana estaria grávida, disse estar desapontado com a decisão. Mas destacou: ‘A coisa mais importante é que foi um assassinato’.


O juiz, lorde Scott Baker, destacou a seriedade do veredicto. Embora a conclusão dê margem para que os fotógrafos sejam acusados, os tribunais britânicos não têm jurisdição sobre fatos ocorridos na França.


Na investigação francesa, nove paparazzi enfrentaram acusações de homicídio, mas nenhum foi considerado culpado. Apesar de não trazer grande reviravolta sobre a morte de Diana e Dodi, o veredicto surpreendeu a muitos que esperavam a confirmação das sentenças anteriores, de que a morte do casal fora um acidente.


Com agências internacionais.’


 


JORNALISMO
Folha de S. Paulo


Prêmios Pulitzer contemplam seis reportagens do ‘Post’


‘O jornal ‘Washington Post’ recebeu ontem seis Pulitzer, e o ‘New York Times’, dois, nesse que é o mais prestigioso prêmio americano para a mídia e alguns setores das artes.


O ‘Post’ foi agraciado por reportagens sobre o tratamento deficiente de um hospital americano a veteranos de guerra e pela cobertura do massacre da Virginia Tech, quando 32 pessoas foram mortas naquele instituto, em abril de 2007.


Também recebeu prêmio por reportagem sobre a influência nos bastidores da Casa Branca do vice-presidente Dick Cheney e sobre as empresas de segurança privada que atuam no Iraque.


Foi ainda premiada a reportagem sobre a indiferença dos passageiros do metrô quando o violinista Joshua Bell se fez passar por um banal saltimbanco.


Já as duas reportagens do ‘Times’ premiadas revelam a presença de tóxicos em produtos importados da China e questões éticas levantadas pelos testes de DNA.


O Pulitzer é dado pela Universidade Columbia, a partir da recomendação de uma comissão de 18 integrantes. O prêmio, distribuído desde 1917, foi instituído a partir do testamento de Joseph Pulitzer, proprietário de jornal que morreu em 1911. Os premiados recebem US$ 10 mil.


NA INTERNET


www.folha.com.br/080981


Veja lista completa de vencedores’


 


ZIMBÁBUE
Folha de S. Paulo


Jornalista do ‘Times’ sai ferido da prisão


‘Um correspondente do ‘New York Times’, preso no Zimbábue por cobrir as eleições presidenciais sem credencial, recebeu tratamento médico, após ser libertado ontem em Harare.


Segundo o advogado do jornalista Barry Bearak, ele se machucou ao cair de cama de concreto, a dois metros do chão da cela.


Ontem, dois técnicos sul-africanos de uma produtora de TV também foram soltos, e um deles, internado em um hospital.


Poucos membros da imprensa estrangeira foram credenciados pelo governo de Robert Mugabe, que ainda não divulgou o resultado da eleição de 29 de março -na qual a oposição declarou vitória.’


 


TECNOLOGIA
Folha de S. Paulo


Yahoo! quer que Microsoft eleve oferta


‘O Yahoo! descartou a oferta da Microsoft de cerca de US$ 42 bilhões mesmo após a ameaça de que a empresa de Bill Gates partiria para uma disputa direta com os acionistas do Yahoo!, o que pode levar a redução do preço.


O Yahoo! encaminhou uma carta com a negativa, que, apesar de bastante incisiva, abriu caminho para uma negociação se houver aumento da oferta por parte da Microsoft. ‘Não permitiremos que vocês ou outra companhia adquiram a empresa por quantia inferior ao seu valor integral’, diz o documento enviado ao principal executivo da Microsoft, Steve Ballmer.


Foi Ballmer quem, no último sábado, deu prazo de três semanas para que o Yahoo! fechasse negócio ou enfrentasse uma disputa com os acionistas.


O Yahoo!, proprietário da ferramenta de busca mais empregada nos Estados Unidos, disse não ser contrário a uma associação com a Microsoft a um preço mais elevado.


A oferta da Microsoft, de US$ 31 por ação, foi feita em 31 de janeiro e rejeitada pelo conselho do Yahoo!.


Com agências internacionais’


 


CASO ISABELLA
Luisa Alcantara e Silva


Prisão de casal fez jornalista lembrar que foi suspeito da morte de filho de 1 mês


‘As imagens da prisão de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá fizeram com que o escritor e jornalista Guilherme Fiuza, autor de ‘Meu Nome Não É Johnny’, lembrasse do passado -mais precisamente de 18 anos atrás. Seu primeiro filho, Pedro, então com um mês, caiu do 8º andar de um prédio em Botafogo (RJ). Na época, Fiuza e a mulher foram apontados como suspeitos. O caso foi arquivado por falta de provas. Ele lembrou do caso em seu blog e falou à Folha:


FOLHA – Você se identificou com o Alexandre e a Anna quando eles foram considerados suspeitos?


GUILHERME FIUZA – Me identifiquei porque o que aconteceu foi que em meia hora eu estava preso, em casa, com policiais militares barrando a minha saída, e o advogado chegou e me disse que tinha uma série de depoimentos de vizinhos, síndico etc. dando conta de uma coisa completamente fantasiosa.


FOLHA – Como aconteceu?


FIUZA – Ele [Pedro] caiu da janela às 8h e morreu imediatamente. Estava no colo da minha ex-mulher, mãe dele, na varanda, ela tropeçou e ele caiu. Foi uma ocorrência infeliz e nós, enfim, tínhamos uma vida muito bacana, era o nosso primeiro filho… E, não mais do que em duas horas, havia uma versão de que nós brigávamos terrivelmente, de que tinha havido na noite anterior ruídos de porta batendo, gritaria… Coisa que surgiu da mente de vizinhos delirantes. O fato é que existiu uma versão que nos colocava como suspeitos. Você está no nível mais baixo a que alguém pode chegar. E nós estávamos na posição mais hostil possível, que era a de suspeitos.


FOLHA – Você viu seus ex-vizinhos depois?


FIUZA – Não. Me mandei de lá. Quando um filho seu morre, dessa maneira, tem um monte de coisas que você não faz. Você fica um tempo decidindo se vai viver ou se não vai.


FOLHA – O que mais o chocou no caso da Isabella?


FIUZA – Quando eu vi a mãe dela chegando na delegacia e quase sendo derrubada por jornalistas, que são meus colegas. Acho que as pessoas enlouqueceram ao tratar uma mãe que perde uma filha dessa maneira. Falo da combinação perigosa de vizinhos fofoqueiros, delegados precipitados e a imprensa ávida por notícia. Falta respeito. É possível que o Alexandre seja culpado. Agora, a gente não sabe. Pode ser que não seja.


FOLHA – Como a polícia deve agir?


FIUZA – Tem que haver o inquérito, mas, nessa situação, tem que ter um pouco de humanidade para ver que aquelas pessoas são inocentes até que prove o contrário. Você tem que procurar poupar essas pessoas, porque pode estar causando um dano irreversível a elas.


FOLHA – Por que falar sobre isso 18 anos depois?


FIUZA – Me sinto dirigindo o dedo a essas pessoas [delegado, vizinhos e imprensa], porque elas sabem o que fizeram.


FOLHA – Está apontando também para o delegado, os vizinhos e a imprensa no caso da Isabella?


FIUZA – Exatamente. Se você não tem respeito pela dor humana, você não tem nada.


FOLHA – Se você encontrasse os pais de Isabella, diria alguma coisa?


FIUZA – Acho que a única coisa que você pode nessas horas é ‘Eu também passei por isso’.’


* Nota do OI: o depoimento de Guilherme Fiuza, sob o título ‘A vida dos outros’, pode ser visto aqui.


 


OLIMPÍADAS
Folha de S. Paulo


Tocha é apagada 4 vezes em Paris


‘Tida como símbolo do espírito olímpico, a tocha dos Jogos de Pequim foi apagada ontem, em Paris. Caçada por defensores dos direitos humanos, notadamente por grupos pró-Tibete, desde anteontem, em Londres, a chama olímpica, pelo menos desta vez, foi extinta por iniciativa dos organizadores do evento. Por quatro vezes.


Alegando razões de segurança, a tocha e alguns de seus condutores cumpriram parte do trajeto em um ônibus, abrigados das ações de manifestantes de várias matizes e países, inclusive deputados franceses. Segundo a agência Associated Press, 28 pessoas foram presas.


Na terceira vez em que a chama foi extinta, policiais aparentemente interromperam o revezamento após notar sinais de protesto mais adiante. Garrafas de plástico, copos e até comida foram lançados em direção ao ônibus. Sobrou até para o paraatleta que conduzia a tocha.


Mais tarde, já próximo ao Museu do Louvre, quando um manifestante se aproximou da tocha com um extintor de incêndio, a polícia, que disponibilizou contingente de 3.000 homens para escoltar a chama e praticamente desfigurava o caráter do evento, de novo a colocou no ônibus.


Por fim, os organizadores jogaram a toalha e cancelaram o terço final da etapa. O ônibus levou a tocha diretamente ao último portador, que a carregou por cinco metros finais.


Monumentos, como a Torre Eiffel e a catedral de Notre Dame, amanheceram decorados com bandeiras que traziam os anéis olímpicos desenhados no formato de algemas, campanha da organização Repórteres Sem Fronteiras, que reclama liberdade de imprensa na China.


‘A tocha foi apagada, porém a chama ainda está lá’, contemporizou Jean-François Lamour, ex-ministro dos Esportes da França. Horas antes, em Pequim, Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional, aparentemente prevendo que o dia não seria fácil na Europa, afirmou estar ‘muito preocupado’ com a enxurrada de protestos que a tocha olímpica vem sofrendo.


‘Estou muito preocupado com a situação internacional e com o que vem acontecendo no Tibete’, disse. ‘O revezamento da tocha se transformou em um alvo. O COI expressou sua preocupação e pede uma solução rápida e pacífica no Tibete’, afirmou, dias depois de seu comitê ter se recusado a falar do tema, alegando que esporte e política não se misturam.


‘Qualquer forma de violência… Não é compatível com os valores do revezamento da tocha e dos Jogos Olímpicos.’


O presidente do COI buscou também minimizar a noção de um boicote generalizado. ‘Muitos políticos consideraram a idéia de boicote [aos Jogos]. Mas, nesse exato momento, não há clima para um boicote generalizado’, disse.


Na mesma reunião, o mexicano Mario Vazquez Raña, presidente da Organização Desportiva Pan-Americana, leu mensagem da Associação de Comitês Olímpicos Nacionais, entidade da qual faz parte.


‘Nosso grupo está confiante de que o governo da China se esforçará para encontrar, por meio do diálogo, uma solução justa e de bom senso para os conflitos internos que afetam a região do Tibete’, dizia a carta.


O Comitê Organizador dos Jogos também se manifestou, mas de maneira bem diferente. Em uma espécie de balanço da ‘Jornada da Harmonia’, como foi batizada a viagem da tocha pelos cinco continentes, os chineses listam uma série de ‘boas vindas’ à caravana. Anterior à confusão de Paris, o texto classifica a de Londres como ‘tentativas de perturbar e sabotar o revezamento da tocha por um pequeno número de ativistas pró-independência do Tibete’.


Segundo reportagem do ‘Financial Times’, membros do COI em Pequim já discutem se o trajeto da tocha deve ser encurtado e se determinadas etapas devem ser canceladas. Para alguns deles, o apoio até então incondicional ao evento chinês pode ter conseqüências indeléveis ao Movimento Olímpico.


Com agências internacionais’


 


Eduardo Ohata


Emanuel leva chama, mas ignora Tibete


‘O campeão olímpico e pan-americano de vôlei de praia Emanuel, um dos portadores da tocha olímpica no trecho de Buenos Aires, a ser percorrido na sexta, correrá seu percurso com um ‘escudeiro’, o parceiro de duplas Ricardo. ‘Ele [Ricardo] me acompanhará, será meu escudeiro’, brincou Emanuel.


O jogador, que embarca na quinta para a capital argentina, tem acompanhado os noticiários sobre os protestos. ‘Fiquei surpreso. As notícias que recebi davam conta de que tudo estava superbem organizado na China, e aí acontece tudo isso…’, diz.


Apesar de adotar o discurso de que política é uma coisa e esporte é outra, Emanuel reconhece que eventos olímpicos são excelentes vitrines.


‘Não gosto de dizer isso, mas os Jogos são oportunidade para [manifestantes] mandar suas mensagens’, afirma Emanuel, que participa de promoção com a Lenovo, patrocinador dos Jogos, que leiloará notebook com o polêmico tema da tocha.


‘Estou a par do que acontece no Tibete, mas como não estou envolvido com o que ocorre lá, nem tenho o direito de falar sobre isso.’’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Erro do Ibope tira audiência da Globo em SP


‘Era grande ontem a insatisfação da Globo com o Ibope. Um erro no processamento de audiência na Grande São Paulo prejudicou o desempenho da emissora na semana passada, na estréia da programação 2008. Atrações como ‘Casseta & Planeta’, ‘A Grande Família’ e ‘Toma Lá, Dá Cá’ perderam até três pontos devido ao erro, frustrando artistas e técnicos.


Sexta-feira, o Ibope enviou à Globo comunicado admitindo a falha. Segundo a nota, no final de março o instituto detectou que um domicílio de Santo André (Grande SP), assinante da Net ABC/Vivax, estava sintonizando um canal não cadastrado na ‘tabela de alinhamento’ da operadora. Em visita, verificou-se que se tratava do Canal Universitário, canal 18 no ABC.


Ocorre que, em vez de executar o alinhamento na Net ABC, o ajuste foi feito na Net São Paulo, onde o canal 18 é o da Globo. Assim, toda a audiência da Globo na Net São Paulo entre 1º e 3 de abril foi atribuída ao Canal Universitário.


O Ibope reprocessou os dados desses dias, pediu desculpas às TVs e informou que tomou providências para que o ‘erro não volte a acontecer’.


Para programas como o ‘Casseta’ o ‘prejuízo’ foi grande. A audiência antes da revisão foi de 29,4 pontos, o que seria sua pior reestréia nesta década. Mas, após a correção, o ‘Casseta’ subiu para 32 pontos, mesma audiência registrada no lançamento da temporada 2007.


DESCLASSIFICAÇÃO 1 Emissora pública federal, a TV Brasil deveria ser exemplar no cumprimento da classificação indicativa. Mas, na sexta, exibiu a partir das 22h o filme ‘Um Copo de Cólera’, considerado pelo Ministério da Justiça impróprio para menores de 18 anos, inadequado na TV antes das 23h. O longa tem cenas fortes de sexo e exposição de órgãos genitais logo em seu início. Telespectadores protestaram.


DESCLASSIFICAÇÃO 2 Até a conclusão desta edição, a TV Brasil não havia se manifestado sobre o caso.


MOCINHA Lavínia Vlasak será uma das protagonistas da segunda temporada de ‘Caminhos do Coração’. A novela deverá passar a se chamar ‘Caminhos do Coração – Os Mutantes’.


MEDIEVAL A estréia do repórter Roberto Cabrini (ex-Band) anteontem no ‘Domingo Espetacular’ foi um sucesso para a cúpula da Record. O jornalista fez reportagem sobre o caso Isabella, que, ao final, levava o telespectador a crer que o pai da menina seria o assassino.


ALTA Sem ex-BBBs, o ‘Domingão do Faustão’ marcou anteontem 25 pontos, um a mais do que o Corinthians. No sábado, a estréia da temporada 2008 do ‘Caldeirão’ deu picos de 26.


BALANÇO Com 34 pontos, o ‘Globo Repórter’ foi a melhor audiência da chamada linha de shows da Globo na semana passada. ‘Casos e Acasos’ marcou 19, ‘Dicas de Um Sedutor’, 18 e ‘Faça a Sua História’, 20 pontos.’


 


Laura Mattos


Respeito ao fuso na TV começa com confusão


‘As TVs estão desde ontem obrigadas a respeitar os fusos horários na programação em todo o país. Isso significa, por exemplo, que a novela ‘Duas Caras’ (Globo), para maiores de 14 anos, liberada só a partir das 21h, não poderia mais ir ao ar mais cedo em sete Estados que têm o horário atrasado em relação ao de Brasília.


A regra foi estipulada em portaria do Ministério da Justiça de julho passado. O governo deu 180 dias para que as TVs se adequassem. Em janeiro, ampliou em 90 dias o prazo, que expirou no último domingo.


A Globo, contudo, cumprirá a regra só a partir de hoje. Os Estados com uma hora a menos que Brasília terão mudanças na ordem de exibição dos programas (a novela das sete, por exemplo, irá ao ar após o ‘Jornal Nacional’, e provisoriamente os jogos das quartas não irão ao ar ao vivo, mas em compacto antes do ‘Jornal da Globo’). No Acre, toda a programação será gravada e veiculada com duas horas de atraso.


Antes de a Globo divulgar comunicado oficial, a TV Morena, por exemplo, retransmissora de Campo Grande (uma hora a menos que Brasília), havia dito à Folha que só cumpriria a regra a partir de amanhã.


O presidente da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Daniel Pimentel Slaviero, disse que as emissoras estariam prontas para cumprir a determinação a partir de hoje. Ao ser informado pela Folha de que a regra já valia ontem, afirmou ter se confundido. ‘Essa medida é inconstitucional e inócua, porque as famílias vão comprar parabólicas para acompanhar os horários nacionais. Mas vamos cumpri-la’, disse.


O secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., disse que as TVs que não respeitarem o fuso serão acionadas na Justiça. ‘A sociedade ajudará a fiscalizar.’ Ele não explicou de que forma a pasta irá monitorar as emissoras locais.


O SBT afirmou que mudaria o horário da novela ‘Lalola’; a Band, que exibiria um filme livre, às quintas, nos Estados com fusos diferentes. A Record e a Rede TV! não responderam.


Colaborou a Agência Folha’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 8 de abril de 2008


TV PÚBLICA
O Estado de S. Paulo


A TV chapa branca


‘Se havia ainda alguma dúvida com relação ao risco de instrumentalização política da TV Pública, ela foi desfeita por dois fatos recentes. O primeiro fato foi a demissão do jornalista Luiz Lobo, editor-chefe do primeiro e único programa que a TV Brasil produziu desde sua estréia, em dezembro de 2007. Ele foi afastado do cargo na sexta-feira por se recusar a interferir no noticiário, em favor do Palácio do Planalto. O segundo fato é o relato que o jornalista Eugênio Bucci faz no livro A guerra entre a chapa-branca e o direito à informação, que chega esta semana às livrarias, sobre as dificuldades que teve para manter um padrão de isenção na Radiobrás, nos quatro anos em que dirigiu a empresa, no primeiro mandato do presidente Lula.


Os dois fatos compõem uma tendência que derrota o argumento invocado pelo chefe do governo para justificar a criação da TV Pública. Para Lula, seu objetivo seria apenas divulgar programas culturais e didáticos, não podendo jamais ser convertida em instrumento de promoção. ‘Eu sonho grande, não sei se a gente vai conseguir construí-la. E que não seja coisa chapa branca, porque chapa branca parece bom, mas acaba enchendo o saco. Não é coisa para falar bem do governo, é para informar. A informação tal como ela é, sem pintar de cor-de-rosa’, disse Lula em 28 de março de 2007, quando deu posse ao ministro encarregado de implementar esse projeto, Franklin Martins.


As razões que levaram à demissão do jornalista Luiz Lobo mostram a distância existente entre a retórica do presidente e a realidade. ‘Existe, sim, interferência do Planalto dentro da TV Brasil. Há um cuidado que vai além do jornalismo’, disse ele ao jornal Folha de S.Paulo. Segundo Lobo, todos os textos sobre Lula, sobre política e sobre economia passam na TV Brasil pelo crivo de uma jornalista que é casada com um dos assessores de imprensa do presidente da República. ‘É ela quem edita. Existe um poder dentro daquela redação. Eu era editor-chefe, mas perdi a autonomia até para fazer as manchetes do telejornal’, afirma.


Lobo conta que as pressões, que sempre existiram, aumentaram ainda mais nas últimas semanas, após a eclosão da crise dos cartões corporativos e da epidemia de dengue no Rio de Janeiro. ‘Não podíamos falar em dossiê, mas em ‘levantamento’ sobre uso dos cartões. Depois, a orientação era falar em ‘suposto’ dossiê’, conta ele. Nas reportagens sobre a dengue, a orientação era para informar que a epidemia decorria de cortes orçamentários resultantes do fim da CPMF, cuja derrubada foi uma vitória da oposição. Segundo Lobo, a idéia era eximir o governo de responsabilidade em matéria de deficiências de saúde pública.


O depoimento de Eugênio Bucci é igualmente esclarecedor. O jornalista narra as pressões que sofreu do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, após a descoberta de que o assessor Waldomiro Diniz fora flagrado em vídeo pedindo propina a donos de bingo e após a eclosão da crise do mensalão. Nas duas ocasiões, o Planalto tentou interferir no noticiário da Radiobrás. ‘Todos os dias o abominável era noticiado (…) As denúncias de corrupção explodiam no meio da rua ou na cozinha de qualquer um (…) Ministros caiam como abacates (…) Havia um bueiro se exumando à nossa volta. A gente tinha vergonha de se olhar no espelho.’


Bucci também conta como assessores do círculo íntimo de Lula o pressionaram para enviesar ideologicamente o noticiário da Radiobrás e relata que, em busca da popularidade perdida após a crise do mensalão, o presidente seguiu à risca o conselho de seus marqueteiros políticos. ‘Na era do marketing, governar é fazer campanha eleitoral permanente, é fazer publicidade de obras a inaugurar, recém-inauguradas ou nem mesmo existentes.’ Numa das passagens mais importantes do livro, Bucci explica por que não se afastou do cargo assim que começou a ser pressionado. ‘Um sentimento me segurou. Eu tinha um trabalho e não iria abandoná-lo às hienas, aos oportunistas reconvertidos à utilidade pública da Voz do Brasil, aos cabos eleitorais transformados em assessores de luxo.’


A demissão do jornalista Luiz Lobo e o depoimento do jornalista Eugênio Bucci deixam claro que não há antídotos para impedir a TV Pública de ser convertida em emissora chapa branca e em palanque eletrônico. Afinal, não pode haver isenção e ética jornalísticas em redações de órgãos oficiais de comunicação controladas a ferro e fogo pelos governantes.’


 


Direção da TV Brasil nega interferência do governo


‘A direção da Empresa Brasil de Comunicação, que controla a TV Brasil, reagiu ontem às declarações do jornalista Luiz Lobo de que não há total independência no jornalismo da emissora pública. Demitido na sexta-feira do cargo de editor-chefe do telejornal Repórter Brasil, Lobo disse que não tinha autonomia sobre os textos que iam ao ar e havia interferência do governo na edição. Queixou-se ainda de que todo o material do jornal tinha de ser submetido à coordenadora de telejornais, Jaqueline Paiva.


As críticas de Lobo foram feitas em entrevista publicada ontem pelo jornal Folha de S. Paulo. Entre os episódios por ele apontados está a cobertura do dossiê sobre gastos do governo Fernando Henrique Cardoso a partir de dados sigilosos da Casa Civil.


Segundo Lobo, as reportagens só podiam falar em ‘suposto dossiê’. Também alegou ter sido repreendido por uma reportagem sobre problemas na saúde que não citava o corte no Orçamento por conta do fim da CPMF, derrubada pelo Senado.


A presidente da EBC, Tereza Cruvinel, reagiu às queixas de Lobo e justificou sua demissão como ‘uma questão empresarial’. Segundo ela, o jornalista não tinha dedicação exclusiva à emissora. ‘Era um bom apresentador, mas revelou inadequação para editor-chefe. É preciso se dedicar com mais intensidade, precisa de uma jornada maior.’


Lobo classificou a explicação de ‘uma falácia diante da falta de argumentos’. ‘Tive embate freqüente, diário. Carrego a decepção de vários, não só minha. Sou um defensor da TV pública, mas entendo que o jornalismo é o coração de uma emissora. Imagine seu nome subir toda noite como editor-chefe e você ter consciência de que, em alguns casos, você não pôde nem passar o texto’, afirmou o jornalista, ontem, ao Estado.


‘O que ele chama de interferência é a responsabilidade da jornalista Jaqueline Paiva como editora de telejornais’, afirmou Teresa. Ela observou que o termo ‘suposto’ deve ser usado ‘sempre que não há prova cabal da existência’ de determinado fato. Sobre as reportagens de saúde pública, disse que ‘é bom jornalismo associar efeitos e causas’.


Lobo disse que, há duas semanas, foi avisado pela diretora de jornalismo da emissora, Helena Chagas, de ‘que nada mais entraria no jornal sem passar pela Jaqueline’. Ele lembrou que Jaqueline é casada com um dos assessores da Secretaria de Comunicação da Presidência, Nelson Breve. ‘Como colocar uma profissional tão próxima do palácio? É absoluta falta de bom senso.’’


 


LADY DI
O Estado de S. Paulo


Caso Diana: motorista e paparazzi são culpados


‘A morte da princesa Diana e de seu namorado Dodi Al-Fayed, num acidente de carro em Paris, em 1997, foi resultado da negligência do motorista Henry Paul, que também morreu, e dos paparazzi que perseguiam o veículo no momento do choque, segundo um inquérito judicial sobre o caso. O único sobrevivente do acidente foi o guarda-costas Trevor Rees.


O veredicto dado pelo júri – que seria parecido com o de homicídio culposo no Brasil -, por nove votos a favor e dois contra, foi o mais duro possível e coloca um fim às teorias de conspiração sobre a morte da princesa. O pai de Dodi, Mohammed Al-Fayed, acusa a família real britânica e o serviço de inteligência da Grã-Bretanha MI-6 de terem assassinado o casal. O bilionário egípcio é dono da loja de departamento Harrods.


‘O acidente foi causado, ou facilitado, pela velocidade e pela condução do motorista do carro (Paul), e pela velocidade e condução dos veículos que perseguiam o carro’, afirmou um dos jurados, ao ler o veredicto. Para o júri, os fatores que contribuíram para a morte do casal foram o fato de que Paul consumiu álcool antes de entrar no veículo, o de que a Diana não estava usando cinto de segurança e, além disso, o carro ter batido contra um pilar, e não uma parede, no Túnel Pont de l?Alma.


Ao longo de seis meses, os 11 jurados ouviram cerca de 240 testemunhas de vários países, como França, EUA, Brasil e Nigéria. Do Brasil, a testemunha foi a embaixatriz Lúcia Flecha de Lima, considerada amiga íntima de Diana.


O inquérito, que custou cerca de 10 milhões de libras (R$ 34 milhões), demorou 10 anos para ser realizado, pois teve de esperar as conclusões de uma investigação policial na França, em 1999, e outra na Grã-Bretanha, em 2006. Ambas culparam Paul pelo acidente. ‘Espero que o veredicto traga um desfecho para o caso’, afirmou o ex-chefe da polícia britânica John Stevens, responsável pela relatório de 2006.


Mohammed, no entanto, mostrou-se longe de estar satisfeito com a decisão do júri. ‘Não sou a única pessoa que disse que os dois foram assassinados. Diana já havia previsto que ela seria morta e como isso aconteceria’, disse. ‘O veredicto é um golpe para os milhões de pessoas que apoiavam a minha causa’, completou Mohammed.


Para o pai de Dodi, o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth, teria ordenado que o serviço de inteligência britânica assassinasse o casal pois queria evitar que Diana se casasse com um muçulmano. Ele afirma ainda que a princesa estava grávida de Dodi. A autópsia realizada pelas autoridades francesas não encontrou nenhum indício de que Lady Di estivesse grávida. Mohammed insistiu que a rainha e o príncipe deveriam ter sido chamados como testemunhas no caso. ‘Ninguém deveria estar acima da lei. Sempre acreditei que o príncipe Philip e a rainha tinham informações valiosas sobre o caso’, acusou o egípcio. Não está claro se o pai de Dodi apelará da decisão de ontem.


Apesar de o veredicto dado pelo júri abrir caminho legal para um processo criminal contra os paparazzi que perseguiam o carro de Diana, há pouca probabilidade de que eles sejam julgados. Os sete, que são franceses, já foram inocentados pela Justiça da França. Além disso, os tribunais britânicos não têm jurisdição sobre eventos que ocorreram em outro país.


VAIVÉM DA INVESTIGAÇÃO


6/8/1997 – Jornais publicam fotos da princesa Diana e Dodi


Al-Fayed num iate no Mar Mediterrâneo


14/8/97 – Em entrevista, Diana nega rumores de que estaria


prestes a se casar com Dodi


30/8/97 – O casal chega a Paris, onde se hospeda no hotel Ritz. Dodi irrita-se com a presença de paparazzi


31/8/97 – Diana e Dodi deixam o hotel de madrugada e começam a ser perseguidos pelos fotógrafos. O motorista, Henri Paul, que também era chefe de segurança do hotel, perde o controle do carro, um Mercedes, e bate contra um pilar no Túnel Pont de l’Alma. Diana chega a ser levada a um hospital, mas não resiste aos ferimentos e morre. Além da princesa, Dodi e Paul também morrem. O guarda-costas Trevor Rees sobrevive. A polícia francesa prende paparazzi que estavam no local


1/9/97 – Exames revelam que o nível de álcool no sangue de Paul, no momento do acidente, era três vezes acima do permitido pela lei francesa


2/9/97 – Promotores franceses abrem inquérito para investigar o caso


5/9/97 – François Levistre, que testemunhou o acidente, afirma ter visto ‘uma forte luz’ logo antes do choque, dando início a uma série de teorias de assassinato


10/9/97 – Teste do sangue de Paul revela que motorista tinha bebido e havia tomado Prozac, para tratar de uma depressão,


e Tiapridal, que combate o alcoolismo


12/2/98 – Fayed afirma que o choque do carro não foi acidental. Segundo ele, Diana e Dodi iriam celebrar o noivado na noite do acidente, algo que não seria aceito pelo ‘establishment’, referindo-se à família real


3/9/99 – Justiça francesa divulga relatório sobre investigação policial. Paul é apontado como culpado. Paparazzi são inocentados. Fayed afirma que apelará


14/4/2002 – Suprema Corte da França rejeita apelação do pai de Dodi e confirma conclusão de relatório da Justiça


6/1/04 – Polícia britânica é encarregada de realizar nova


investigação da morte de Diana.


Daily Mirror publica carta da princesa ao mordomo Paul


Burrell, dizendo que o ex-marido, príncipe Charles, pretendia matá-la


14/12/06 – Relatório da polícia descarta possibilidade de que Diana foi assassinada


2/3/07 – Justiça determina que inquérito será julgado por júri


2/10/07 – Inquérito é aberto e painel com 11 jurados é formado


8/10/07 – Jurados visitam local do acidente em Paris, causando engarrafamento na região


18/2/08 – Fayed presta testemunho no inquérito e volta a afirmar que casal foi assassinado


31/3/08 – Juiz do inquérito rejeita possibilidade de assassinato no caso e diz que o júri poderá apenas chegar a um veredicto de homicídio culposo por parte de Paul, homicídio culposo por parte dos paparazzi ou morte acidental.’


 


FITNA
O Estado de S. Paulo


Holanda permite declaração anti-Islã


‘Uma corte holandesa decidiu ontem que o deputado ultradireitista Geert Wilders tem o direito de expressar suas opiniões contra o Islã, já que suas declarações não excedem os limites legais contra a incitação da violência. Wilders é o diretor de Fitna, um filme que mistura trechos do Alcorão com imagens de atentados, entre eles o da Al-Qaeda, em 11 de setembro de 2001, nos EUA. Freqüentemente, o deputado compara o Islã ao fascismo e o profeta Maomé a um ‘bárbaro’.


A Federação Islâmica Holandesa havia pedido à corte que proibisse Wilders de fazer declarações que sejam consideradas ofensivas para os muçulmanos e que obrigasse o deputado a pedir desculpas por afirmações feitas anteriormente. ‘As observações questionadas não são vistas como ilegais. A liberdade de expressão do réu foi um fator decisivo nessa questão’, afirmou a corte em nota. A Federação também queria proibir o filme, mas desistiu depois de o curta-metragem de 15 minutos ser disponibilizado na internet.


Wilders elogiou a sentença. ‘Sempre pensei que dentro do contexto do debate político deveriam permitir que eu expressasse minha opinião’, disse o deputado, que afirma que o Islã ameaça os valores holandeses e ocidentais.


O filme de Wilders foi criticado por vários países e grupos muçulmanos, que tentaram organizar um boicote aos produtos holandeses em seus mercados. Apesar dos protestos no mundo islâmico, nenhuma manifestação violenta aconteceu.


Desde 2004, Wilders vive sob proteção policial. Ele recebeu várias ameaças de morte após o assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh. Em 2004, um extremista islâmico matou Van Gogh, que criticara num filme o tratamento das mulheres pelo Islã.’


 


EPIDEMIA
Tutty Vasques


Sem pé nem cabeça


‘O Brasil vive uma epidemia de histórias mal contadas. Tem essa da Dilma Rousseff sobre vazamentode dossiê; a do descaso


com a dengue no Rio; a da bolsa-ditadura do Ziraldo; a do terceiro mandato do Lula; a da aliança da Marta com Orestes Quércia; a da aposentadoria do Romário; a do reitor da


Universidade de Brasília; a da novela das sete…


Não se faz mais história com começo, meio e fim como nas chanchadas de antigamente. O Brasil está cada vez mais parecido com o Cinema Novo, sem pé nem cabeça no noticiário que produz. O que pode até não ser grave, desde que o roteiro não descambe para o filme de terror que há dez dias não deixa o País sorrir em paz.


Acordei hoje com a sensação de que nenhuma história terá a menor graça enquanto não for bem contada a de Isabella Nardoni.


Sinto muito!’


 


OLIMPÍADAS
Andrei Netto


Protestos em Paris apagam a tocha


‘O símbolo internacional do esporte e do espírito olímpico viveu ontem, em Paris, quatro horas de contestação e vergonha. Durante o desfile da tocha pela capital francesa, dezenas de protestos e confrontos, alguns violentos, entre manifestantes pró-Tibete e a polícia levaram os organizadores a fugir do público, alterar trajetos e, na mais emblemática atitude, extinguir o fogo e esconder a tocha em um ônibus. Em um veículo que seguia o cortejo, jovens presos pressionavam contra os vidros as palmas das mãos. Nelas se lia uma palavra: liberdade.


Realizadas em protesto contra o desrespeito aos direitos humanos na China e contra a violência no Tibete, as manifestações levaram o caos a Paris. A mobilização de Organizações Não-Governamentais (ONGs) teve início antes que a tocha chegasse à Torre Eiffel, de onde partiria. Por volta de 11 horas, no Trocadero, manifestantes portando faixas de protesto e um chinês que empunhava a bandeira de seu país alteraram-se e foram contidos pela polícia. Foi o prenúncio do tom dos protestos que se seguiriam.


Às 12h31, Stéphane Diagana, o primeiro dos 80 atletas que portariam a tocha, deixou a torre com a flama acesa. Meia hora depois, e percorridos menos de 200 metros dos 28 quilômetros previstos, uma barricada humana impediu seu trajeto. Deitados no asfalto, os manifestantes foram dispersados com violência pela polícia. Um cinegrafista foi agredido até perder a consciência.


A partir de então, o contingente policial de dois mil homens foi orientado a impedir a exposição de cartazes, faixas e bandeiras alusivas ao Tibete. Às 13h17, diante da resistência da multidão e do caos que se formava, os organizadores chineses do desfile decidiram extinguir o fogo olímpico e proteger a tocha em um ônibus.


Meia hora depois, outro atleta, Arnaud di Pasquale, recebeu a tocha para prosseguir o desfile às margens do Sena. A tentativa foi abortada por falta de segurança. Só as 14h05 o percurso acabou retomado, sob vaia. A essa altura, a rotina de Paris havia parado. N a prefeitura, uma cerimônia de recepção da tocha havia sido cancelada; a sessão da Assembléia Nacional, suspensa. Deputados de direita e de esquerda empunhavam uma faixa pedindo respeito aos direitos humanos.


No lado de fora, apenas membros da comunidade chinesa puderam permanecer. Centenas de manifestantes pró-Tibete foram retirados com truculência. ‘Onde está a liberdade de expressão?’, gritava Loic Le Bizec, 26 anos, já sem seu cartaz, mas com o adesivo ‘Eu quero amar a China, mas sem renegar os direitos humanos.’


Enquanto a população era reprimida, o cortejo com a tocha se aproximava. Jovens contratados para animar o percurso não escondiam o constrangimento. Únicos eufóricos na ‘festa’, a pequena multidão de chineses também acabou decepcionada. Mais uma vez extinta e dentro do ônibus, a tocha passou sem ser vista. Os organizadores, representantes da embaixada e do Comitê Olímpico Chinês, decidiram se dirigir diretamente ao Estádio Charléty. Às 17h32min, a ex-nadadora Christine Caron ingressou na pista atlética para, sob proteção policial, acender a pira olímpica em Paris. ‘O desfile deveria ser uma manifestação de paz’, lamentou Henri Sérandour, presidente do Comitê Olímpico Francês. ‘Os manifestantes cometeram um erro. A flama é uma mensagem de paz, não dos chineses.’


PROTESTO GENERALIZADO


Enquanto nas ruas 3 mil tibetanos exilados, provenientes de toda a Europa, engrossavam o coro dos manifestantes contra o governo da China, bandeiras negras, com algemas substituindo os círculos olímpicos, foram espalhadas pelos principais ícones turísticos de Paris. Os protestos foram orquestrados pelas ONGs que já haviam atuado em Atenas e em Londres. Os mais emblemáticos foram realizados pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF).


Ontem, às 13h28, menos de uma hora após a partida da tocha, três manifestantes escalaram a Torre Eiffel e, a mais de 50 metros de altura, desfraldaram a bandeira criada pela ONG. À tarde, protestos idênticos aconteceram na Avenida Champs-Elysées e na Igreja de Notre-Dame. ‘Nós não estragamos a festa. É o governo chinês quem a estraga ao não respeitar os direitos humanos e a liberdade de expressão’, argumentou Robert Ménard, secretário-geral da entidade.


A população foi às ruas de Paris de forma espontânea para se manifestar, mas deparou-se com forte repressão policial. ‘Parece que estamos protestando na União Soviética’, reclamou ao Estado Julien Blot, estudante de 25 anos. A também estudante chinesa Zhang Rui tinha o discurso oposto. ‘É uma pena o que se passa aqui’, lamentou. ‘Quem protesta pelo Tibete não conhece a história e o nível de liberdade da China.’


A tocha, agora, vai para os Estados Unidos. Chega amanhã a São Francisco. E mais protestos estão previstos.’


 


Gilles Lapouge


A tocha olímpica


‘Paris procurou durante todo o dia essa tocha olímpica que, após sua escala tumultuada de Londres, atravessava a capital francesa. A primeira transmissão, ao meio-dia, na Torre Eiffel, funcionou bem.Viu-se essa chama da alegria que alguns, depois da repressão no Tibete, passaram a chamar de ‘tocha da vergonha’. O atleta que a carregava estava bem protegido: bombeiros em skates, policiais às centenas, um helicóptero.


Mas as coisas logo desandaram. Gritos, clamores, imensas bandeiras negras com os anéis olímpicos algemados. Escaramuças. Brutalidade espantosa da política. Na Avenida Champs-Elysées, dois grupos berram: de um lado, chineses vestidos de vermelho; diante deles, do outro lado da avenida, manifestantes vestidos de negro favoráveis ao Tibete.


No meio desse caos, a tocha desaparece. De tempos em tempos, ela é escondida, colocada ao abrigo dentro de um ônibus, depois é tirada, e depois recolocada em seu ônibus. Às vezes, apaga, não por causa de um ataque, garantem os organizadores, mas por um incidente técnico.


Curioso.


Portanto, reação bastante virulenta contra as violências do Tibete. Mas essa reação é um ato da população e de ONGs, e não de organismos oficiais.


A posição dos desportistas é incômoda: são grandes campeões que suam a camisa há quatro anos e, no último momento, estão ameaçados de se ver privados de sua festa e de sua glória. É difícil pedir-lhes semelhante sacrifício.


E então? Será que as instâncias esportivas deveriam assumir a responsabilidade de boicotar os Jogos? Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), declarou no domingo que era preciso encontrar ‘uma solução pacífica no Tibete’. Boa idéia! Esse achado lhe valeu ser tratado como um ‘covarde absoluto’ pela organização Repórteres sem Fronteiras.


Um boicote não seria novidade. Outras Olimpíadas já foram boicotadas.


Em 1980, vários países boicotaram os Jogos de Moscou, entre eles os Estados Unidos. O pesquisador da história do esporte Patrick Clastres rememora o que aconteceu com o Comitê Olímpico. ‘Os Jogos Olímpicos já se defrontaram outrora com realidades geopolíticas. Eles sofreram uma série de boicotes e o COI só faltou desaparecer. Para assegurar sua sobrevivência, ele tomou um viés comercial decisivo em 1980, deixando de lado o amadorismo. Foi a chegada do presidente Juan Antonio Samaranch que permitiu esse processo. Desde então, o COI está ligado a parceiros comerciais. Ele não poderia se privar do formidável mercado que é a China.’


E então? Os políticos podem assegurar a passagem da tocha. Os chefes de Estado coçam o queixo e dizem: ‘Veremos.’ Eles temem abrir uma crise maior com um país de 1,3 bilhão de habitantes, onde cada um deles é um consumidor. Pior: esse país possui reservas monumentais de divisas que, soltas no momento certo e no lugar certo, poderiam demolir o equilíbrio da economia mundial.


Na França, vozes enojadas com a tibieza dos dirigentes ocidentais, gostariam que Sarkozy se recusasse a ir a Pequim para a abertura dos Jogos. O presidente francês, em geral tão impulsivo e tão estouvado, mostra uma circunspeção incomum. Ele reflete. Vai ver como as coisas evoluem. Não quer atar as próprias mãos faltando tantos meses ainda para a Olimpíada. Mutismo.


Nos últimos dias, a China recebeu um aviso severo. Ela acalentava um grande sonho: o de se tornar uma potência respeitável com os Jogos, que pretendia organizar de maneira impecável. Iria se reintegrar na comunidade mundial. Infelizmente para Pequim, existem esses monges do Tibete, teimosos como mulas e valentes como leões. Cem deles foram mortos pela polícia chinesa. O grande sonho dos chefes comunistas chineses se desfez. O percurso caótico da tocha, domingo em Londres, segunda-feira em Paris e agora talvez em São Francisco, já fez, da grande festa da tocha, um pesadelo para Pequim.


*Gilles Lapouge é correspondente em Paris’


 


ADAPTAÇÃO
Antonio Gonçalves Filho


A novela do Brasil moderno


‘A acadêmica Lygia Fagundes Telles vai comemorar 70 anos de atividade literária com duas adaptações de obras suas. A primeira estréia no dia 5 de maio, trazendo de volta à televisão seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, publicado em 1954. A segunda ainda não tem data de lançamento. Trata-se de uma versão teatral de seu terceiro romance, As Meninas (1973), pela dramaturga Maria Adelaide Amaral . Os dois livros já foram anteriormente adaptados, o primeiro para a TV, em 1981, e o segundo para o cinema, em 1996. Nenhum dos dois antigos projetos é particularmente memorável, o que torna ainda mais difícil a tarefa dos adaptadores, sobrecarregados com a responsabilidade de traduzir para a televisão e o teatro a ousadia dos dois livros, entre os melhores produzidos pela escritora, que completa 85 anos no dia 19.


Lygia, sem comentar as antigas adaptações, mostra-se confiante nas novas. A delicadeza do dramaturgo Alcides Nogueira, tanto no teatro (A Javanesa) como nas inúmeras telenovelas que assinou, garante um tratamento refinado ao argumento de Ciranda de Pedra, romance revolucionário que há meio século já tratava de temas interditos como impotência sexual e lesbianismo. Quanto à adaptação de As Meninas, a recente incursão de Maria Adelaide Amaral nos anos de chumbo, a minissérie Queridos Amigos, atestou extraordinário domínio do período para tratar desse romance sobre três amigas em que sexo, drogas, rock e engajamento político dão as cartas num país amordaçado pela ditadura.


As Meninas é um retrato seqüencial do Brasil de Ciranda de Pedra, que entra na modernidade nos anos 1950 – momento em que começa a fabricar automóveis – para recuar na década seguinte.’


 


***


Ascensão e queda da classe média


‘O dramaturgo Alcides Nogueira revela sem temor que recuou deliberadamente ao adaptar o livro de Lygia Fagundes Telles, Ciranda de Pedra, para o horário das seis da tarde. Assim, na novela que a Globo começa a exibir dia 5 de maio, a tenista Letícia, campeã das quadras no livro Ciranda de Pedra, será derrotada em sua atração por mulheres, uma vez que a classificação por faixa etária – eufemismo para censura – não permite que crianças vejam pessoas do mesmo sexo se amando na televisão. E o que vai ser de Conrado, o amor de infância de Virgínia, a heroína do romance, um homem amargurado e isolado por sua impotência sexual? E de Frau Herta, a empregada recolhida a um cômodo imundo, doente e abandonada na periferia do mundo? E da família burguesa do patriarca Natércio, que decai a ponto de se tornar irreconhecível? Tudo isso cabe no horário das seis?


A saída encontrada por Alcides Nogueira para driblar a camisa-de-força da classificação etária foi compensar o tônus peculiar de Ciranda de Pedra – a força social do romance – com o desenvolvimento do perfil psicológico dos personagens. Assim, a lésbica Letícia deixa de ser a desbravadora do virgem território da sexualidade alternativa, nos anos 1950, para ser simplesmente uma mulher que rejeita o modelo patriarcal, assumindo sua autonomia como esportista profissional. Conrado, o correspondente brasileiro do ‘belo Antonio’ de Brancati, homem consumido pela desolação, não será um impotente sexual, mas ‘afetivo’, tendo dificuldades para assumir o cargo de diretor da siderúrgica que recebe como nefasta herança.


‘Lygia tem aquela coisa das pequenas tragédias de Katherine Mansfield’, define Nogueira, justificando sua opção por um caminho mais intimista para narrar essa história de desestruturação familiar, na qual a matriarca Laura (Ana Paula Arósio) seria o que hoje se conhece como vítima de transtorno bipolar. Laura, porém, não é a protagonista, mas sim sua filha Virgínia (Tammy DiCalafiori), uma solitária rejeitada pela família, espécie de gata borralheira que herda as sobras das reformas dos quartos das irmãs quando a mãe decide se separar do rico marido advogado, Natércio (Daniel Dantas), para assumir sua relação extraconjugal com o pobre médico Daniel (Marcello Antony).


É na casa de Natércio – ‘um Dom Casmurro dilacerado’, na visão do autor da novela – que existe a ‘ciranda de pedra’ do título. São anões ao redor de uma fonte no jardim do patriarca, que mantém a distância a filha ilegítima. Deslocada, Virgínia vai para um colégio interno e, em seu retorno, testemunha a morte da mãe e o suicídio do médico para, finalmente, voltar ao jardim que tanto amou e concluir que jamais fez parte daquela ciranda de cimento.


Na telenovela das seis, Virgínia vai adotar uma atitude reagente, garante Nogueira. ‘Natércio aceita o papel de pai para não passar por marido traído e comprometer sua posição social, enquanto Virgínia se fortalece quando volta do colégio, desistindo de pertencer a essa ciranda social fechada.’ O autor assume como modelo o folhetim balzaquiano e diz que viu o suficiente dos filmes de Douglas Sirk para não sentir vergonha do melodrama. ‘Talvez seja mesmo a forma que a sociedade contemporânea tenha de entender o sentido da tragédia’, observa o dramaturgo, citando a adaptação que Fassbinder fez nos anos 1980 do épico Berlin Alexanderplatz, de Alfred Dõblin, minissérie produzida para a televisão alemã com 15 horas de duração, depois exibida nos cinemas. Fassbinder é um modelo assumido, por sua coragem de enfrentar o monumento literário de Dõblin, sofisticado autor expressionista alemão marcado pela leitura de Kierkegaard e ele mesmo roteirista em Hollywood nos anos 1930.


A principal adaptação que Alcides Nogueira fez foi transferir para 1958 o ponto de partida da novela, um ano simbólico por incorporar momentos históricos de ruptura como a bossa nova, a ascensão da classe média, a conquista da copa mundial de futebol e o começo da construção da nova capital. Para o dramaturgo, um proustiano de carteirinha, essa evocação do tempo perdido vai além da nostalgia. É uma oportunidade de repensar onde o Brasil tropeçou no terreno da ética.


Apesar disso, Alcides não pretende fazer da novela um tratado sociológico sobre a ascensão da classe média que, nos anos 1950, cedeu ao vale-tudo para entrar no circuito do consumo. A tradicional família Prado, avesso da pobre família de Daniel, adota, segundo o dramaturgo, um modelo chekhoviano de ser. Ou seja: no meio de um turbilhão social, tenta sobreviver como se nada pudesse afetá-la. Não é familiar?’


 


***


Amor, loucura e morte social num clássico cinqüentenário


‘Lygia Fagundes Telles, a autora do livro Ciranda de Pedra, prefere não dar palpites quando o assunto é a adaptação de suas obras . Não deu na primeira versão, de 1981, assinada por Teixeira Filho, e não será agora que a dama da literatura brasileira vai intervir. A própria escritora já teve uma desagradável experiência ao adaptar a obra de outro autor – no caso, nada menos que o Dom Casmurro – e ver no cinema algo bem diferente do que havia escrito no roteiro, feito em parceria com o marido Paulo Emílio Salles Gomes.


Portanto, considera normais algumas modificações em seu romance, como a supressão do lesbianismo da tenista Letícia ou a camuflagem da impotência de Conrado. ‘Acho até bom, porque há tanto sexo nas novelas hoje em dia que Ciranda de Pedra vai inovar com essa sexualidade velada’, brinca, lembrando a resistência com que a sociedade da época recebeu o romance, finalmente lido por recomendação dos maiores críticos literários da época (e republicado este mês pela Rocco). ‘Em 1954 não se podia falar de homossexualidade, impotência e suicídio, e creio que até hoje temas como o último continuam tabus’, diz, referindo-se ao caso do filósofo vienense André Gorz, que cometeu duplo suicídio com sua mulher, em setembro do ano passado.


Em Ciranda de Pedra, quem se mata é o médico Daniel, por não suportar a morte da companheira Laura. ‘É estranha essa ligação com o suicídio de Gorz anos depois, mas entendo que grandes amores como o dele por Dorrine ou o de Daniel por Laura levem à morte, pois são experiências intensas’, diz, lembrando que, no caso de Laura, a deterioração de seu estado mental corresponde a uma morte social , antes da morte física. Vale lembrar: o desajuste que leva à loucura e ao confinamento tampouco era um tema incomum em 1952, quando Lygia começou a escrever Ciranda de Pedra. Foucault só trataria disso duas décadas mais tarde.


Lygia, claro, tem consciência de seu pioneirismo, mas diz que não foi uma provocação deliberada. O livro nasceu de um passeio romântico por Higienópolis. Ela entrou num casarão demolido e, ao ver uma fonte com anões de pedra formando uma ciranda, lembrou-se de um poema de Rilke. Como só a poesia ‘é capaz de dizer o que as próprias coisas jamais pensaram ser na sua intimidade’, ela decidiu: iria escrever a história dessa família desaparecida junto às paredes do velho casarão. E é ela que agora chega à novela das seis.’


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Negociação aberta


‘A O2 Filmes, criadora de sucessos como Cidades dos Homens, deve renovar seu contrato com a Globo nos próximos dias.


Ainda com projetos em sigilo, a produtora de Fernando Meirelles adiou os planos de duas co-produções com a Globo, entre elas, a de uma série de Roberto Moreira em que procuradores do Estado apareciam como heróis. Uma nova temporada de Antônia também foi enterrada.


‘Nunca houve a idéia de uma terceira temporada. A segunda só aconteceu por causa do sucesso da primeira. TV é assim, não? Vai na onda da audiência’, fala Fernando Meirelles.


Mas o diretor não descarta a volta de Acerola e Laranjinha (Cidade dos Homens), a longo prazo. ‘Daqui a uns dez anos, com os garotos adultos, pode ser interessante.’


Em fase de negociação com a Globo, Meirelles se irritou com a divulgação de que a O2 estaria fechando um contrato com a Record. Na verdade, ele é co-produtor de um filme produzido pela emissora. A O2 em nada tem a ver com o projeto.


Enquanto as novidades com a Globo não vêm, a O2 prepara a segunda temporada de Filhos do Carnaval para a HBO em setembro.’


 


 


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