Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

INTERESSE PúBLICO > CASO CESARE BATTISTI

Um editorial desastrado

Por Celso Lungaretti em 20/01/2009 na edição 521

Causa tristeza e decepção ver O Estado de S.Paulo posicionar-se como força auxiliar do revanchismo italiano, tomando partido contra o governo brasileiro e uma das mais nobres tradições desta nação: a acolhida hospitaleira a perseguidos políticos de todos os países e orientações político-ideológicas.


Ignorando por completo as consistentes justificativas do ministro da Justiça Tarso Genro para conceder refúgio humanitário a Cesare Battisti, o editorial ‘Decisão desastrada’ (16/1) insistiu em desconsiderar o clima de histeria vingativa dominante na Itália no período subseqüente ao assassinato de Aldo Moro – semelhante, por exemplo, ao macartismo estadunidense.


Critica Tarso Genro por arvorar-se em ‘juiz da Justiça italiana’, mas qualquer cidadão com o mínimo conhecimento jurídico ficaria igualmente estarrecido ao constatar que Battisti acabou condenado à prisão perpétua mediante enquadramento numa lei que inexistia quando ocorreram os crimes de que o acusam e lhe foi aplicada com efeito retroativo.


E falta com a verdade ao afirmar que Battisti foi ‘condenado à prisão perpétua por ter assassinado quatro pessoas em sua atividade terrorista’. Disto o acusou um delator premiado, sem que nada mais o corroborasse. Só que duas dessas mortes aconteceram no mesmo dia, em cidades tão distantes entre si (Udine e Milão) que era fisicamente impossível Battisti ser o autor de ambas. Aí, uma das acusações foi alterada de ‘assassino’ para ‘mentor intelectual do crime’ – o que não impediu os tendenciosos de continuarem trombeteando que Battisti matou quatro pessoas.


Efeito bumerangue


A choradeira e as ameaças italianas têm espaço descomunal no editorial que, entretanto, em nenhum momento lamenta as agressões às instituições brasileiras, começando pela nota em que a chancelaria italiana exortou o presidente Luiz Inácio da Silva a revogar a decisão do ministro Tarso Genro, cometendo três pecados capitais: contestar uma decisão soberana do governo brasileiro; atingir a autoridade do ministro, quando o correto seria apelar primeiramente a ele; e atropelar o protocolo, já que a interlocutora da chancelaria italiana é sua congênere brasileira, enquanto o interlocutor de Lula é o presidente Silvio Berlusconi.


Esperamos que, para compensar, o Corriere della Sera faça um editorial intitulado ‘Pressão Desastrada’. Este seria mais veraz, pois a arrogância com que a Itália tentou impor sua vontade ao governo brasileiro teve o efeito de um bumerangue.

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Jornalista, escritor e ex-preso político, mantém blogs aqui e aqui

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2010 Alline Menegueti

    Olá! Estou precisando do contaoto do jornalista Alberto Dines. Gostaria de convidá-lo para um evento em Curitiba.

    Att.

  2. Comentou em 24/01/2009 Renan Vidal

    Quem é contra a decisão do estado soberano brasileiro não está argumentando bem. Acusam a ‘esquerda’ e tal. A verdade é que a Italia não concordou com a decisão (e tem direito a isso), porém ameaçou o Brasil de vingança e represálias para reverter a decisão na pressão (como se fossem um estado superior ao nosso). Estas ameaças sim são um insulto ao Brasil. Não devemos tomar nossas decisões por medo de magoar o governo italiano. A ‘direita’ retruca por interesses próprios, quer apenas desmoralizar um dos principais homens do governo Lula, mesmo que para isso defenda que o Brasil deve baixar a cabeça para os italianos e abrir mão de sua soberania.

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