Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Um Legislativo e muitas vozes

Por Manoel Roberto Seabra Pereira em 27/01/2009 na edição 522

O Observatório da Imprensa nasceu para ser uma espécie de fiscal da chamada grande imprensa, denominada de o quarto poder desde o século 19.

De uns tempos para cá, no entanto, o OI vem abrindo espaço para análises e críticas ao que se convencionou chamar Comunicação Pública, representada pelos canais governamentais e de instituições públicas.

Mesmo considerando que a mídia privada é infinitamente mais poderosa e que possui muito mais recursos econômicos do que a nascente mídia pública, acho importante abrir, desde já, espaço para a crítica dessa comunicação que nasceu dentro dos governos e que ensaia os primeiros passos fora da ‘casca do ovo’ do Estado.

Até porque só a fiscalização permanente da mídia pública poderá evitar que ela se perca em seu caminho de se tornar realmente um espaço do interesse público, e não de interesses de corporações e grupos políticos.

No entanto, no afã de se fazer essa crítica a qualquer custo, muitas vezes se cometem erros. Refiro-me ao artigo ‘Suprapartidária pero chapa-branca‘, do professor Eugênio Bucci, publicado neste Observatório em 20/01/09.

80 mil páginas eletrônicas

Em sua crítica, Bucci parte de uma matéria publicada pelo jornal O Globo, ‘Deputados brasileiros para inglês ver‘ (19/01/09) para atacar a comunicação feita pelos veículos de comunicação da Câmara dos Deputados (TV, Rádio, Jornal e Agência Câmara). Em resumo, a matéria de O Globo usa trechos de perfis parlamentares de deputados da Mesa Diretora da Câmara, publicados em inglês e espanhol na página institucional do site do Poder Legislativo, para questionar um tom ‘promocional’ do material.

A matéria do jornal carioca refere-se, portanto, a textos institucionais de inteira responsabilidade dos deputados, e não a material jornalístico assinado por jornalistas lotados na Secretaria de Comunicação da Câmara.

A partir dessa matéria do jornal carioca, Bucci questiona o caráter público da comunicação feita no âmbito do Poder Legislativo, acusando os jornalistas que lá trabalham de fazer um trabalho ‘chapa-branca’ e ‘promocional’.

Antes de mais nada, é preciso informar os leitores do OI que o portal da Câmara possui mais de 80 mil páginas eletrônicas, referentes ao trabalho legislativo dos 513 deputados, serviços de atendimento ao cidadão, notícias e programação educativa e cultural, além das páginas da área administrativa da Casa. Afinal, há mais de 50 áreas da Câmara que se responsabilizam por inserir informação no portal. Entre elas está a Secom.

Transparência a atos dos legisladores

A porção jornalística de todo esse material está disponível apenas nas páginas da Agência Câmara de Notícias e dos demais veículos da Secom (TV, Rádio e Jornal), além do site Plenarinho, destinado ao público infantil.

Ao usar trechos de páginas voltadas para a divulgação institucional dos deputados (espaço este que, na minha opinião, é um direito legítimo dos representante do povo e que só poderá ser julgado pelos eleitores) para criticar o jornalismo público realizado pelos profissionais da Secom, o professor Bucci confunde comunicação pública com atividade política.

Seria impossível, e mesmo condenável, que a Secretaria de Comunicação da Câmara fosse responsável pelo conteúdo das mais de 80 mil páginas eletrônicas do Poder Legislativo. Por ser o espaço do debate, do contraditório e da ação política diária e permanente, a Câmara dos Deputados é um universo de idéias e opiniões contrárias.

Cabe a nós, jornalistas do Poder Legislativo, avançar nesse processo de dar transparência a todos os atos e ações dos legisladores, sem contudo se arvorar no direito de ser o espelho fiel de todo o universo de informações produzido no âmbito na casa parlamentar. Afinal, o jornalismo corresponde apenas a uma parcela (importante e fundamental, mas ainda assim uma parcela) da mediação social que existe entre os poderes e a população brasileira.

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Jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e diretor da Secretaria de Comunicação da Câmara dos Deputados; co-organizador do livro Jornalismo Político – Teoria, História e Técnicas (Editora Record)

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