Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > THE WASHINGTON POST

Um bom exemplo de jornalismo investigativo

16/01/2006 na edição 364

A ombudsman do Washington Post, Deborah Howell, dedicou sua coluna de domingo [15/1/06] ao relato da investigação de dois anos do jornal sobre os acordos feitos pelo lobista Jack Abramoff, ligado a vários políticos do Partido Republicano, que se declarou culpado numa corte da Flórida por crimes de corrupção, sonegação de impostos e fraude de financiamento de um cassino em um navio que pertencia a uma tribo indígena.

Susan Schimidt, que trabalha no Post há 23 anos, foi a jornalista responsável pela investigação de um dos maiores escândalos de corrupção política na história de Washington, desde que ele começou a vir à tona, em 2003. Posteriormente, os repórteres R. Jeffrey Smith e James V. Grimaldi juntaram-se a ela na apuração do caso, supervisionada por editores das seções nacional e de jornalismo investigativo.

Deborah informa que diversos repórteres do Post – exceto Susan – usaram Abramoff como fonte antes do escândalo ser divulgado. Ele foi freqüentemente citado em matérias sobre políticos republicanos, arrecadação de fundos para campanha política, causas judaicas, seus dois restaurantes e uma fundação criada por ele. Muitos artigos o descreviam como ‘amigo íntimo’ de Tom DeLay, então líder da maioria na Câmara, e ‘influente’ entre legisladores conservadores.

A investigação passo a passo

Em 2003, um lobista ligou para Susan para lhe dar uma informação secreta de que Abramoff estava obtendo milhões de dólares de tribos indígenas para pedir votos a membros da Câmara em relação a legislações sobre cassinos. A partir de então, a jornalista começou a checar registros de contribuições de campanhas de Abramoff na Comissão Federal Eleitoral (FEC, sigla em inglês). Ela rapidamente descobriu que o lobista estava conseguindo valores 10 a 20 vezes mais altos do que as tribos indígenas costumavam pagar a outros lobistas e que ele havia feito contribuições significativas para a campanha dos dois maiores partidos. ‘Era o suficiente para me interessar’, afirmou Susan. Ela também descobriu que Michael Scanlon, ex-assistente de DeLay, administrava uma empresa de relações públicas que fazia negócios com tribos indígenas.

A jornalista telefonou para líderes indígenas em todo o país, procurando por aqueles que desconfiavam de Abramoff. A primeira grande matéria escrita por Susan, em 22/2/04, revelava que Abramoff e Scanlon haviam recebido US$ 45 milhões de tribos indígenas. O senador John McCain abriu uma investigação no Congresso, assim como o Departamento de Justiça. Susan acompanhou ambas atentamente, como o fez por seis anos como jornalista investigativa na administração do ex-presidente Bill Clinton, inclusive durante o escândalo Monica Lewinsky.

Com seu talento investigativo, Susan estava sempre obtendo informações antes dos investigadores. ‘Era uma rede extremamente complicada, inacreditável e engenhosa de fragmentos’, conta ela. A jornalista fez apenas uma entrevista com Abramoff – em fevereiro de 2004 – e disse que ele mentiu sobre não ter vínculos financeiros com Scanlon – os investigadores posteriormente revelaram que eles dividiam o dinheiro retirado dos indígenas. Na entrevista, Susan perguntou a Abramoff sobre a compra do cassino SunCruz, fato conhecido na Flórida, mas não em Washington. ‘Sua reação foi de um espanto tão grande, tão convulsivo, que eu sabia que havia algo ali’, relembrou a repórter.

Depois disto, Grimaldi e Susan passaram dias em tribunais federais da Flórida para procurar por registros de falência do cassino SunCruz. Grimaldi descobriu uma aplicação de empréstimo bancário no qual Abramoff listava como referências Tony Rudy, então vice-chefe de gabinete de DeLay, e o deputado republicano Dana Rohrabacher. ‘A grande descoberta foi que havia membros do Congresso envolvidos na fraude do cassino’, diz Grimaldi. ‘Fontes geralmente sabem dados importantes, mas que eles não vão revelar até que saibam como a história vai se desenrolar. Quando ficou claro que Abramoff estava sendo desmascarado, as pessoas ficaram mais confortáveis em ser entrevistadas’, afirmou o repórter Jeffrey Smith.

Respostas às críticas

Em relação a este caso, Deborah recebeu duas reclamações. Uma delas vinda da parte dos democratas, que alegaram que o Post estava tentando distanciar DeLay de Abramoff, pois uma matéria de 29/12/05 dizia que os dois não eram íntimos. A ombudsman alega que DeLay uma vez chamou Abramoff de ‘um dos meus amigos mais íntimos e queridos’ e afirmou na Fox News, recentemente, que eles eram amigos. Susan e Grimaldi justificam que a apuração investigativa feita por eles mostrava que os dois tinham um vínculo político forte, mas não eram amigos íntimos.

Já a segunda crítica veio dos republicanos, que alegam que o Post, propositalmente, não atacou nenhum democrata. Deborah afirma que diversas matérias, incluindo uma de 3/6 escrita pelo repórter Jeffrey H. Birnbaum, mencionaram que diversos democratas – incluindo o líder da maioria no Senado, Harry Reid, e o senador Byron Dorgan – receberam dinheiro de Abramoff. Susan e Grimaldi alegam que suas matérias não colocaram os democratas como prioridade nas investigações. A ombudsman afirma, no entanto, que este caso ainda está longe de acabar e muito ainda pode ser revelado.

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