Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Uma esperança para a cooperação jornalística na América Latina

Por Pedro Aguiar em 28/04/2015 na edição 848

Uma boa notícia para o jornalismo latino-americano: entrou em operação na quinta-feira (24/4), depois de mais de um ano de adiamentos, o portal Ansur.am, que reúne conteúdo produzido pelas agências de notícias membros da ULAN – União Latino-Americana de Agências de Notícias. Agora, notícias de países da América Latina serão reunidas numa fonte unificada, com informações produzidas em cada país por jornalistas locais, e não por olhares estrangeiros. A representante brasileira na iniciativa é a Agência Brasil, subordinada à EBC (Empresa Brasil de Comunicação), do governo federal.

Ao contrário do que divulgaram algumas fontes, não se trata de uma nova agência de notícias supranacional – o próprio logotipo do site diz que são “agencias de noticias del sur”, no plural, e não uma unificada “Agencia Suramericana de Noticias” –, mas sim uma interface colaborativa entre as agências participantes. O conteúdo do portal é editado a partir dos envios fornecidos por cada agência. Além de textos, o Ansur traz também fotos, vídeos e está disponível também para plataformas móveis (celulares smartphones e tablets). O site ainda tem um “mapa de notícias” interativo, pelo qual é possível navegar pelos textos segundo o país de procedência. Por enquanto, todo esse conteúdo – inclusive sobre o Brasil – está apenas em espanhol.

A iniciativa não é de todo nova: há mais de 30 anos, muito antes da popularização da internet, projetos de cooperação entre empresas de comunicação pipocavam na região. Um dos primeiros do tipo foi o LATIN, consórcio entre 13 jornais latino-americanos criado em 1969 sob os auspícios da Reuters, que buscava organizar parcerias para reforçar presença num mercado tradicionalmente dominado pelas agências americanas (na época, AP e UPI, que depois quase faliu e foi comprada pelo sul-coreano reverendo Moon). O consórcio realizava intercâmbio de textos entre as redações e entre estas e a Reuters, pondo correspondentes a serviço da agência inglesa. Participavam os brasileiros O Globo, Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, junto com jornais hispânicos como El Mercurio chileno, El Tiempo colombiano e Excelsior, mexicano. O LATIN durou até 1981.

Função primordial

A agência espanhola EFE seguiu o exemplo e montou uma parceria permanente com jornais da América Central, incluindo La Prensa (Nicarágua), La Tribuna (Honduras), Panamá América, El Mundo (El Salvador) e El Nuevo Diario (Porto Rico). Chamada de ACAN – Agência Centro-Americana de Notícias, existe desde 1973 e está ativa até hoje.

Anos depois, em 1976, a agência alternativa IPS – InterPress Service, sediada em Roma, tentou montar uma cooperativa de jornalistas latino-americanos que resultasse numa agência regional e independente: seria a ALASEI – Agência Latino-Americana de Serviços Especiais de Informação. Entretanto, embora tenha começado a operar apenas em 1984, a agência não chegou a ter seus despachos aproveitados na grande mídia e foi extinta no início dos anos 2000.

Enquanto a Comissão MacBride da UNESCO realizava seus trabalhos sobre os problemas da comunicação internacional, a agência da ONU ajudou a articular uma iniciativa semelhante, mas com as agências de notícias dos governos da América Latina. Surgia, em 1979, a ASIN – Ação de Sistemas Informativos Nacionais, uma cooperação bastante semelhante à Ansur, mas usando telex em vez de websites. Os canais de transmissão eram arrendados da IPS. Na época, a participante brasileira era a estatal EBN – Empresa Brasileira de Notícias, sucessora da Agência Nacional (criada em 1940) e antecessora da ABr e da EBC.

Fora da América Latina, esse tipo de cooperação Sul-Sul aconteceu com relativo sucesso desde 1975, no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Naquele ano, auge dos debates pela NOMIC – Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, os governos não-alinhados estabeleceram uma cooperativa entre suas agências de notícias: o NANAP – Pool das Agências de Notícias Não-Alinhadas (na sigla em inglês), que funcionava como um mecanismo permanente de intercâmbio de textos e fotos, capacitação em recursos humanos e equipamentos (na época, as agências dependiam da rede de telex e transmissão por satélite, o que era oneroso demais para o orçamento de países subdesenvolvidos) e lobby conjunto nas organizações multilaterais – por exemplo, fazendo pressão para reduzir as tarifas de telecomunicações cobradas das agências mais pobres.

Em 2005, já longe da Guerra Fria e com a internet consolidada, a parceria foi transferida para a interface web, sob a forma do portal NNN – Non-Aligned News Network, bem parecido com o que agora faz o Ansur.

A ULAN é uma das caçulas entre as associações regionais de agências de notícias. Já existem, há anos, a Aliança das Agências Europeias (EAPA, desde 1956), a Organização das Agências de Notícias da Ásia-Pacífico (OANA, 1961), a Federação das Agências de Notícias Árabes (FANA, 1974), a Associação das Agências dos Bálcãs (ABNA, 1995) e a Federação Atlântica das Agências de Notícias Africanas (FAAPA, 2014), entre outras. Desde 1996, a Agência Brasil também participa da Aliança das Agências de Informação de Língua Portuguesa, junto com a Lusa (Portugal), Angop (Angola), AIM (Moçambique), ANG (Guiné-Bissau), Infopress (Cabo Verde) e STP-Press (São Tomé e Príncipe). Todas essas entidades agrupam, na maioria, agências estatais.

Sim, são agências estatais, e não simplesmente públicas, uma vez que sua criação, gestão e financiamento são conduzidos pelo Estado. Algumas delas nem têm autonomia jurídica, funcionando como serviços de outras empresas estatais ou departamentos de ministérios e secretarias de comunicação. Isso não significa que estejam impedidas de exercer o jornalismo no “interesse público”, que é o termo-chave que conduz a política editorial da EBC.

Essa confusão ainda é particularmente comum no Brasil, em parte por causa da redação ambígua do artigo 223 da Constituição Federal, que menciona “sistemas privado, público e estatal”, sem definir nem especificar cada um. Graças a isso, predomina aqui uma interpretação que mescla “estatal” com “governamental”, como se a gestão pelo Estado fosse automaticamente submissa ao governo da vez. Um dos problemas frequentemente apontados nessas iniciativas de cooperação entre agências é o oficialismo de suas matérias, geralmente engajadas na autopromoção. Esse tipo de crítica nada construtiva é derivado da visão neoliberal, que nos anos 1990 investiu muito em vilipendiar o Estado como mau gestor, inclusive no campo da comunicação.

Em outros países, porém, a ideia de serviço público de informação e de comunicação pública como funções geridas pelo Estado é bastante naturalizada, sem que isso implique dirigismo ou perda de independência editorial. É assim na Europa, onde a comunicação pública é um setor consolidado, e em vários da América Latina, onde renasce de um esforço a partir da redemocratização nos anos 1980. O desafio do jornalismo feito em agências estatais é mostrar-se distinto de orientações “chapa-branca”, não apenas ao se pautar pelo interesse público, mas principalmente ao agir como verdadeiras distribuidoras de notícias, que é a função primordial de uma agência.

Cooperação jornalística

O jornalismo de agências estatais não precisa ser propaganda. Ele cumpre um papel essencial de realizar a logística de informação para a imprensa doméstica, alimentando especialmente jornais – e, mais recentemente, websites jornalísticos – de médio e pequeno porte, do interior e das periferias (ou “diarios de provincia”, como dizem em espanhol). Esses veículos, por não terem orçamento para manter sucursais nas capitais e centros financeiros, compram conteúdo de agências privadas, tanto estrangeiras (especialmente AP, Reuters, AFP e EFE) quanto nacionais (no caso brasileiro, a Agência Estado, a Folhapress e a Agência O Globo), e é nessa seara que o conteúdo das agências públicas, fornecido gratuitamente, pode ganhar espaço como um fator novo.

Ou seja: o real valor da ULAN, do Ansur e das agências estatais na economia da informação latino-americana será medido pelo aproveitamento de seu conteúdo na mídia de médio e pequeno porte, especialmente regional e alternativa, que atualmente depende das grandes agências mundiais ou das agências nacionais privadas ligadas aos grandes jornais.

É justamente o que incomoda o setor da grande imprensa. Sintoma disso são as críticas que a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), patronal dos jornais do continente, costuma fazer a iniciativas como essas. Em 2009, quando o então presidente do Paraguai Fernando Lugo anunciou a intenção de criar uma agência nacional para o país – que, até ali, não tinha nenhuma –, a entidade atacou o projeto como “um canal de difusão de propaganda, disfarçado de informação jornalística inofensiva”. Em 2000, pediu oficialmente que o México “dissolvesse ou privatizasse” a tradicional agência Notimex, uma das maiores e mais tradicionais da América Latina, operante desde 1968, chamando-a de “suposta agência” por “instrumentar pressões” e servir como “intromissão do governo” sobre o mercado de mídia. O mesmo tipo de demérito jamais é direcionado a agências como EFE, AFP ou Lusa, todas igualmente estatais, só que europeias.

Por outro lado, a própria mídia privada já acordou para os ganhos da integração regional no jornalismo. Atualmente, os maiores jornais da América Latina estão associados em dois consórcios concorrentes: o GDA (Grupo de Diários América) e o PAL (Periódicos Asociados Latinoamericanos), que podem ser vistos como sucessores do LATIN. O GDA inclui O Globo e mais dez jornais latino-americanos, apenas um por país, todos de linha editorial conservadora e cabeças de conglomerados de mídia – em segmentos impresso, audiovisual e digital. Existente desde 1991, o grupo promove intercâmbio comercial (vendendo pacotes “casados” de anúncios em vários jornais ao mesmo tempo) e também de conteúdo editorial, com reportagens coordenadas nos países dos diários participantes. Já o PAL, fundado em 2008, reúne 45 jornais – nenhum brasileiro –, vários deles concorrentes dos membros do GDA, e se atém exclusivamente à gestão integrada do comercial. Ambos funcionam principalmente para gerar divisas em dólares para as empresas, captando publicidade de anunciantes americanos – tanto que, apesar de serem “latino-americanos”, os dois grupos têm sede em Miami.

Assim, o cenário da cooperação jornalística na América Latina parece refletir a disputa por hegemonia em curso entre o capital – representado pelos maiores conglomerados de comunicação de massa e de indústrias culturais na região – e o Estado, particularmente nos países onde partidos e movimentos chegaram ao poder executivo com o projeto de reverter a onda neoliberal dos anos 1990 – a chamada “Guinada à Esquerda”.

Integração em curso

A cooperação Sul-Sul em comunicação vem sendo tentada por ambos os lados, com resultados distintos. Os governos da “Guinada” vêm criando ou reformulando agências de notícias (AVN, na Venezuela, em 2005; ANDES, do Equador, em 2009; a IP-Paraguay, no mesmo ano; e a própria ABr, em 2003) e já tinham dado um passo nesse sentido em 2005, com a criação da Telesur – canal de televisão criado para ser regional mas que, embora tenha composição orçamentária dividida entre sete países e exiba conteúdo multinacional na programação, na prática é visto como exclusivamente venezuelano. Aliás, o primeiro diretor da Telesur foi justamente o último diretor da ASIN, o uruguaio Aram Aharonian, evidenciando a genealogia direta entre as diferentes levas de cooperativas.

A Ansur pode ser considerada uma sucessora da ASIN, aquela primeira cooperativa de agências estatais latino-americanas. A diferença maior era que, na época, os mesmos países estavam na maioria sob ditaduras militares, e o teor dos textos era bem mais oficialista. Hoje, quase todos são aderentes da “Guinada”, cujos governos vêm sendo enfrentados pelas empresas privadas de imprensa. Estas, por sua vez, alarmadas com a crise do suporte impresso (mas que ainda encontra espaço para crescer justamente por causa da ascensão social promovida pelas políticas públicas dos governos que combatem), acordam para a importância de promover trocas de conteúdo e integração publicitária, o que reduz custos operacionais e ainda gera divisas.

A integração latino-americana no setor da comunicação já está em curso, e os Estados estão voltando a investir nisso. Resta agora ver como se sairá o Ansur nesse cenário de polarização política e competição arraigada.

***

Pedro Aguiar é professor de jornalismo na Universidade Federal Fluminense e pesquisador de agências de notícias do Sul Global

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