Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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INTERESSE PúBLICO > MÍDIA & GOVERNO 2

Uma câmera na mão, irresponsabilidade na cabeça

Por Hugo Teixeira em 10/07/2008 na edição 493

Sobre o artigo ‘Angu-de-caroço em Minas Gerais’, publicado no Observatório da Imprensa em 8/7/2008 de autoria de Daniel Florêncio, a Superintendência de Imprensa do Governo de Minas vem se pronunciar em razão da grave acusação de cerceamento à imprensa formulada pelo autor, que assina também o vídeo Gagged in Brazil.


Em seu trabalho veiculado na internet e fartamente distribuído por meio de e-mails de servidores gratuitos, Daniel Florêncio afirma que ‘recentemente’ existiram rumores de que o governador Aécio Neves ‘tem suprimido a liberdade de imprensa no Estado’. Não há rumores recentes. O que existiu – e é de conhecimento de todos os profissionais de imprensa que realizaram a cobertura jornalística das eleições de 2006 – é um vídeo produzido naquele ano, lançado na internet como arma de campanha da oposição nas eleições para governador, com ampla divulgação e espaço no programa do horário eleitoral gratuito.


Gagged in Brazil, publicado neste ano no You Tube, basicamente reedita as imagens e depoimentos da produção realizada em 2006 e, o mais grave, descumpre os procedimentos mínimos necessários a um trabalho que pretenda tratar de fatos reais veiculando acusações falsas. É como se o célebre slogan de Glauber Rocha pudesse ser tristemente atualizado para: uma câmera na mão e nenhuma responsabilidade na cabeça.


Vamos aos procedimentos adotados pelo autor.


O vídeo afirma ‘ser difícil encontrar qualquer notícia negativa sobre o governador’, mas Daniel Florêncio não realizou qualquer pesquisa sobre o noticiário publicado no país ou em Minas em qualquer período de tempo, ou mesmo utilizou qualquer critério que possa ser considerado como base de pesquisa para a acusação que faz. Simplesmente editou recortes de jornais e matérias de TV, coletados aleatoriamente. Uma análise de conteúdo e de comparação entre a cobertura oferecida por veículos de diversos estados seria suficiente para jogar por terra a afirmação feita.


Gagged in Brazil exibe dois depoimentos que seriam de supostos jornalistas, embora não tragam qualquer identificação de nomes, funções, local ou cidade onde teriam ocorrido. O autor do vídeo usa do recurso de distorção de voz e imagem pretensamente para proteger suas ‘testemunhas’. Num deles, de um suposto jornalista da Rede Globo, afirma-se que todas as matérias sobre o governo de Minas são revisadas pelas chefias. Ora, não apenas as matérias sobre o governo de Minas são revisadas. Em qualquer veículo, os editores revisam matérias sobre acidentes de trânsito, resultados do futebol, ocorrências policiais ou agenda cultural – sem que isso se caracterize ato de censura. É assim em Belo Horizonte, no Rio, São Paulo, Londres, Nova York… O repórter apura e redige; o editor edita.


Os únicos depoimentos de jornalistas claramente exibidos são cópia do vídeo de 2006. E não merecem credibilidade alguma, já que foram renegados pelos entrevistados. Os jornalistas Marco Nascimento e Ugo Braga gravaram, ainda naquele ano, depoimentos acusando ter havido edição enganosa de suas falas, com vistas a provocar distorção de entendimento.


Daniel Florêncio, que gosta de produzir documentários sobre ética e comunicação, abandonou a ética na criação de Gagged in Brazil. Ele sonega à sua audiência a informação de que o vídeo foi contestado pelos próprios entrevistados e, contrariando outra regra básica, não se preocupou em ouvir pessoalmente os dois únicos jornalistas possíveis de serem identificados em seu trabalho.


O vídeo traz um quinto depoimento com críticas ao governador de Minas, todas elas inerentes ao debate político-ideológico. Entre as quais, a de que ele ‘representa a direita conservadora a serviço da privatização de todos os serviços’.


Por fim, Gagged in Brazil trata equivocadamente informações sobre investimentos financeiros feitos pelo governo na área de comunicação, utilizando a moeda americana, mas sem considerar a variação cambial do período, gerando uma grave distorção na informação apresentada.


Mesmo não sendo jornalista, como afirma em seu artigo, é inaceitável que o autor não se sinta eticamente obrigado as ouvir as fontes que utilizou, checar dados ou confirmar números antes de dar eles publicidade.


Florêncio fez contato com a Assessoria de Imprensa do Governo de Minas solicitando posicionamento oficial em agosto de 2007, quando afirmou estar em Londres, onde residia. Mesmo tendo assegurado ter estado em Belo Horizonte durante a produção de seu vídeo, em nenhum momento de sua estada procurou o governo de Minas para gravação ou coleta de depoimento. O produtor também não veiculou o teor da nota enviada pelo governo do Estado, por e-mail, em 31 de agosto de 2007.


Nos exatos 7.199 caracteres de seu texto para o Observatório da Imprensa, o autor do vídeo não respondeu a nenhuma das contestações feitas ao trabalho. Vale destacar que ele próprio manifesta, no seu artigo, estranheza com a forma rápida, intensa e antinatural com que o trabalho foi distribuído pela internet.


O governo de Minas acompanha com atenção as críticas publicadas pela imprensa, mesmo porque elas servem de balizamento para a correção de rumos na administração estadual. A relação entre veículos de imprensa e diversas instâncias de governo – municipais, estaduais ou federal – tem sido tema de importantes discussões. A internet – espaço democrático e propício ao debate – está repleta de questionamentos dessa natureza. É necessário, no entanto, discernir o legítimo e necessário debate de insinuações que afetam a honra pessoal e profissional de tantas pessoas.

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Superintendente de Imprensa do Governo de Minas

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