Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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INTERESSE PúBLICO >

Vaias e Woodstock em Porto Alegre

Por Luiz Antonio Magalhães em 01/02/2005 na edição 314

A imprensa brasileira cobriu intensivamente a quinta edição do Fórum Social Mundial, realizada na semana passada em Porto Alegre. Apesar da ampla cobertura, é provável que os brasileiros que acompanharam o Fórum pela mídia nacional não façam a mais remota idéia do que realmente foi debatido na capital gaúcha.


Pode ser paradoxal, mas é a pura verdade. Os grandes jornais, as revistas campeãs de tiragem e mesmo as maiores emissoras de televisão não esconderam o Fórum dos descontentes com os rumos da economia e da política mundial em pés de página ou finais de blocos dos telejornais. O FSM ocupou manchetes, ganhou horário nobre na tevê e nem assim o público foi informado sobre o conteúdo do evento.


Antes mesmo da abertura do Fórum, a mídia começou a especular sobre a presença do presidente Lula e a possibilidade de ele ser vaiado pelos militantes que se reuniriam em Porto Alegre. Assim, toda a cobertura do primeiro dia do FSM girou em torno da presença do presidente e da reação da platéia: os jornais mais conservadores, como a Folha de S.Paulo, amplificaram a vaia, ao passo que os mais governistas, como O Estado de S.Paulo, noticiaram também os aplausos e a habilidade de Lula ao dialogar com os ‘filhos do PT’ que o vaiavam.


O presidente deixou Porto Alegre rumo a Davos e o Fórum continuou com cobertura intensa, mas deficiente. Como ocorreu em anos anteriores, a mídia tratou o evento como uma espécie de reedição ideológica do festival de Woodstock. O que mais se viu foram fotos das ‘tribos’ mais excêntricas, relatos sobre as propostas mais escalafobéticas e, da parte dos mais conservadores, uma condução do noticiário de modo a ridicularizar o mote do Fórum Social Mundial – ‘Um outro mundo é possível’.


Desculpa falsa


Além da centralidade no caráter ‘Woodstock’ ou de ‘feira ideológica’, a cobertura da grande imprensa deu grande espaço para as chamadas ‘estrelas’ de um evento que justamente despreza os tais ‘grandes nomes’. Assim, a palestra do prêmio Nobel José Saramago e a passagem do presidente venezuelano Hugo Chávez ganharam as manchetes, ao passo que as milhares de discussões travadas entre os representantes da sociedade civil organizada de todo o planeta não mereceram sequer notas de pé de página.


A desculpa de que o FSM é um evento muito fracionado e complexo para ser acompanhado pela mídia é falsa. Não é difícil fazer uma cobertura um pouco mais profunda sobre o que estava sendo debatido – veículos de imprensa alternativa, como o Brasil de Fato ou a Agência Carta Maior, por exemplo, conseguiram, com parcos recursos, mostrar mais sobre o conteúdo Fórum do que todos os grandes jornais juntos.


O que falta na grande imprensa é vontade de apresentar ao público as polêmicas levantadas por um segmento significativo da sociedade mundial, inconformado com o que assiste no mundo de hoje. Talvez porque ao revelar essas polêmicas, tivesse que tratar de sua própria condição – um dos temas centrais de todas as edições do FSM é a luta pela democratização da mídia…

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