Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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21/07/2009 na edição 547


CUBA
Duda Teixeira


Os primeiros sinais de vida


‘O filme que é a sensação do verão cubano foi feito pelo serviço secreto, a
mando de Raúl Castro, o irmão mais moço (só tem 78 anos) que em fevereiro do ano
passado assumiu o poder na ilha depois que Fidel ficou doente demais para
aparecer em público. Editada em duas versões, uma de seis horas e outra de três,
a película vem sendo exibida exclusivamente aos filiados do Partido Comunista.
Raúl aparece nas primeiras cenas vestido com seu inefável uniforme militar (ele
é o chefe das Forças Armadas há meio século). Pede respeito às instituições e
regras do país. Fica-se sabendo então que os vilões são os fidelitos, a jovem
guarda banida no expurgo de março. O que o irmão em comando pretende demonstrar
é que a juventude brilhante, escolhida por Fidel para ser a herdeira da
revolução, não passou de um bando de jovens transviados, aproveitadores e, pior,
sem respeito pelos velhos comunistas. Uma turma de ‘conduta indigna’, que se
deixou seduzir pelo ‘mel do poder’, escreveu o comandante en jefe, de seu leito
de enfermo.


Para assistir à exibição, é preciso mostrar a carteirinha de comunista e
deixar celulares e câmeras fotográficas do lado de fora. Mas, como um em cada
dez cubanos é membro do PC, não há ninguém na ilha que desconheça os detalhes. O
filme é o resultado dos três anos em que a polícia secreta grampeou, filmou e
espionou os fidelitos. As cenas mais quentes foram feitas em momentos de
descontração, em comemorações ou em reuniões para jogar dominó e comer churrasco
na chácara de um deles. O clímax é a festa de casamento do cardiologista Raúl
Castellanos Lage, em um dos melhores hotéis de Havana. Carlos Lage, primo de
Castellanos Lage, era vice-presidente de Fidel e esperava ser mantido no cargo
por Raúl Castro e, quando fosse a hora, suceder-lhe. Não foi o que aconteceu.
Ele entra macambúzio na festa de casamento, vindo da reunião do partido que
definiu a cúpula do regime. Reclama que o novo vice é José Ramón Machado
Ventura, de 78 anos, semianalfabeto, fiel aos irmãos Castro desde os anos 50. O
chanceler Felipe Pérez Roque, no cargo desde 1999, acrescenta, em tom furioso,
que Ventura iria arruinar o país. A título de brincadeira, o primo Castellanos
Lage comenta que ‘a nação ficaria mais bem servida’ se os cardiologistas
implantassem erroneamente, e de propósito, stents (dispositivos que aumentam o
calibre das artérias) nos velhos do PC. Em outra cena, Lage qualifica Machado
Ventura de ‘fóssil vivo’ e ‘dinossauro’.


Outra parte do filme é dedicada a Carlos Valenciaga, secretário privado de
Fidel e membro do Conselho de Estado, que comemora seu aniversário num salão do
Palácio da Revolução. Um mês antes, com ar compungido, Valenciaga tinha
anunciado a doença de Fidel Castro – por sinal internado naquele mesmo prédio.
Visivelmente bêbado, ele usava o quepe do comandante, de quem parecia zombar. As
imagens mostram que do zíper da calça saía, jocosamente, o gargalo de uma
garrafa de champanhe. A maior qualidade da fita talvez seja a de mostrar que,
apesar de publicamente submissos aos Castro, ocupantes de altos cargos em Cuba
podem ter opiniões próprias, ainda que só possam mostrá-las na intimidade.
Infelizmente, essa cúpula jovem, irreverente e rebelde foi toda condenada ao
ostracismo e alguns de seus integrantes estão na cadeia (veja o quadro).


O primo Castellanos Lage, que zombou da saúde dos poderosos e do qual não se
conhecem fotos, está na cadeia. Outro preso é Conrado Hernández, dono da chácara
na qual os fidelitos se reuniam. Sua carreira como representante dos negócios do
País Basco em Cuba se confunde com a ascensão de Carlos Lage e Pérez Roque, dos
quais é amigo de juventude. Ele é acusado de trabalhar para o serviço secreto
espanhol – ainda que pela posição que ocupava seja mais verossímil que fosse
espião do governo cubano. Entre as acusações feitas contra Conrado, está a de
perguntar à própria mulher, militar, sobre a saúde de Fidel. Ela também está na
cadeia.


A película é uma tentativa de Raúl de reafirmar sua autoridade. Ele não tem o
carisma do irmão, carece da legitimidade dada por uma eleição democrática e está
acuado pela maior crise econômica desde o início dos anos 90, quando perdeu a
mesada da União Soviética. ‘O expurgo serve para mostrar aos subordinados que,
se não demonstrarem a Raúl o mesmo respeito que reservavam a Fidel, serão
severamente punidos’, disse a VEJA a americana Lauren Vanessa Lopez, da
Universidade de Miami. Por sorte, a concentração do poder nas mãos dos
dinossauros paranoicos está com os dias contados. A idade é um inimigo que os
irmãos Castro não podem prender ou fuzilar.’


 


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