Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > REFERENDO DAS ARMAS

Veja: perversidade, futilidade e ameaça

Por Najla Passos em 17/10/2005 na edição 351

A Veja utilizou retórica conservadora, transformou sua capa de duas semanas atrás em panfleto de propaganda contra o desarmamento. Os argumentos nada têm de jornalísticos. Tão pouco de originais. Menos ainda de congruentes. Alberto Hirschman, em criterioso estudo sobre o pensamento conservador, da Revolução Francesa até nossos dias, afirma que toda investida progressista é seguida por contra-investidas ideológicas extraordinárias.

No livro A retórica da intransigência, publicado no Brasil em 1992, ele mostra que os principais meios de criticar, atacar e ridicularizar as iniciativas progressistas reduzem-se, de fato, a três grupos de argumentos principais: as teses da Perversidade, da Futilidade e da Ameaça.

A Tese da Perversidade versa que ‘qualquer ação proposital para melhorar um aspecto da ordem econômica, social ou política só serve para exacerbar a situação que se deseja remediar’. É fácil observá-la na capa da Veja, por exemplo: ‘A proibição vai desarmar a população e fortalecer o arsenal dos bandidos’.

Tomar posição. Sempre

Já a Tese da Futilidade defende que ‘as tentativas de transformação social são, necessariamente, infrutíferas; não conseguem deixar marcas na história’. É precisamente o que a Veja alega na sua razão de nº 2, quando diz que a vitória do ‘sim’ no referendo não vai tirar as armas de circulação no Brasil.

A Tese da Ameaça, por sua vez, argumenta que ‘o custo da reforma ou mudança é alto demais, pois coloca em perigo outras preciosas realizações anteriores’. Está explícita na razão nº 3: ‘O desarmamento da população é um dos pilares históricos do totalitarismo’. Para Veja, por incrível que pareça, apoiar o desarmamento é, ao mesmo tempo, fortalecer os bandidos, não chegar a lugar algum e, também, investir contra a democracia.

As demais razões apresentadas pela revista podem ser analisadas conforme os mesmos critérios. Mas o que importa, de fato, é o que Hirschman nos ajuda a esclarecer com seu estudo. Mesmo repetitivas e incongruentes, as três teses conservadoras conseguem tocar a fundo o emocional da maioria da população. E, por isso, costumam encontrar bastante ressonância. É preciso ter isso em mente antes de tomar uma posição. Sempre. Seja qual for o tema em debate.

******

Jornalista, professora e mestranda, Cuiabá

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem