Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Watergate ainda dá o que falar

24/02/2009 na edição 526

Com o filme Frost/Nixon revivendo memórias do escândalo Watergate, os leitores do New York Times esperavam maiores revelações sobre o caso ao ler a manchete ‘O papel de John Dean em questão no debate das fitas de Nixon’. No entanto, o artigo apenas relembrava argumentos de uma década atrás sobre a edição das já citadas transcrições das escutas de Watergate. Foram repetidas acusações de diversos críticos de que o historiador Stanley Kutler deliberadamente omitiu e distorceu material para forjar uma imagem positiva de Dean, conselheiro presidencial que teria denunciado Richard Nixon e ajudado a fazer com que ele renunciasse.


Segundo coluna do ombudsman Clark Hoyt [22/2/09], a matéria demonstrou a força do diário em impulsionar uma questão que estava adormecida no debate público. A repercussão da controvérsia foi grande em sítios de internet, que questionavam a decisão do NYTimes de ressuscitá-la. Além disso, o artigo trouxe à tona questões jornalísticas sérias: o que torna notícia uma disputa acadêmica e qual é a obrigação do jornal de tentar descobrir quem está certo?


Exageros e irresponsabilidade


O ombudsman acredita que ter dado destaque de capa ao caso foi exagerado, pois permitiu ataques à integridade de um respeitado historiador sem evidências para apoiar as acusações. Além disso, os leitores ficaram a ver navios, pois acharam que leriam algo novo que ajudasse a entender melhor o escândalo que levou à renúncia de Nixon.


O gancho e justificativa para o artigo pareciam fracos: o historiador independente Peter Klingman submeteu um manuscrito para a publicação American Historical Review, da Associação Americana de História, acusando Kutler de fraude intencional. Em 2002, ele teria feito acusação semelhante. Alguns acadêmicos ficaram furiosos com a atitude do NYTimes. ‘O artigo foi muito irresponsável’, opinou Rick Perlstein, autor de Nixonland, estudo sobre o caso. ‘Quanta besteira’, desabafou Bernard Weisberger, autor de dezenas de livros sobre História americana. Menos de uma semana depois, o manuscrito de Klingman foi rejeitado pela revista. Robert Schneider, editor da American Historical Review, afirmou que o material era baseado em um argumento ‘ad hominem’, sendo um ataque direto a Kutler.


A repórter Patricia Cohen, que assinou o texto no NYTimes, defende-se: o manuscrito foi o gancho para o artigo, mas ele foi motivado pelo fato de um grupo de historiadores estarem falando de novo do assunto, que surgiu após a publicação de um livro de Kutler, em 1997. Len Colodny, autor cujas teorias de conspiração do Watergate são desacreditadas pela grande mídia, reconhece que foi ele quem reacendeu a discussão. Há seis meses, ele teria enviado as fitas e as transcrições de Kutler para cinco pessoas – incluindo Klingman – e pedido uma avaliação.


Quatro destes cinco são mencionados no artigo de Patricia. A fonte que fez a acusação mais séria contra Kutler foi Frederick J. Graboske, encarregado das fitas de Nixon no Arquivo Nacional dos EUA quando o historiador fazia pesquisa para seu livro. Ele acusou Kutler de deliberadamente editar duas fitas, mas não deu evidências para provar isto. Patricia alega que garantiu que a defesa de Kutler estivesse na capa e citou outro acadêmico que trabalhou com as fitas de Nixon, alegando que qualquer erro seria previsível. Kutler diz que não minimizou o papel de Dean, mas a figura central no caso, segundo ele, seria Nixon.


Hoyt perguntou a Graboske se ele tinha certeza de que Kutler tinha editado propositalmente as fitas e ele teria respondido: ‘isto é o auge da sujeira e Stanley ou é um pesquisador de má qualidade ou fez isto deliberadamente’. Não foi a mesma resposta que ele deu à repórter e, se o erro foi apenas uma possibilidade, não justifica o destaque de capa.

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