Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > TV CULTURA SEM NASSIF

“2010 já começou”

Por Priscila Lobregatte em 16/01/2009 na edição 520

Depois de ser comunicado sobre sua saída da TV Cultura, anunciada na terça-feira (13), Luis Nassif falou ao Vermelho sobre as razões que poderiam ter levado o canal a tal decisão já que, no final do ano passado, a direção cogitava renovar seu contrato. ‘O ano de 2010 já começou, este é o ponto’, declarou. Para ele, ‘a maluquice das eleições de 2006 voltou antecipadamente’.


Nassif disse não saber quais razões reais teriam levado o canal público a romper o contrato, mas lançou algumas luzes que podem clarear o entendimento sobre a decisão.


A aproximação do ano eleitoral e a subordinação do canal ao presidenciável José Serra – governador que tem fama de perseguir veículos e jornalistas críticos à sua gestão – poderiam ter pesado na decisão. ‘Fiz uma matéria sobre o balanço da Sabesp, tratando da publicidade que a empresa fez em termos nacionais. Como pode uma empresa que tem atuação estadual patrocinar eventos de televisão no Brasil inteiro?’, questionou. A intenção é clara: trata-se de divulgar a gestão Serra, contribuindo para torná-lo uma figura mais conhecida nacionalmente com vistas à disputa de 2010.


Outro episódio que demonstra as divergências entre a visão crítica de Nassif e a orientação da TV Cultura foi a publicação no blog do jornalista de release sobre o programa Roda Viva com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. No texto, constava a formação da bancada de entrevistadores: Reinaldo Azevedo, da Veja; Macio Chaer, do site Consultor Jurídico e Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo, entre outros.


Na época, Nassif postou o seguinte comentário:




‘Um belo feito jornalístico do Paulo Markun (presidente da Fundação Anchieta, mantenedora da TV Cultura). Garanto que a bancada colocará à prova todo o saber jurídico do presidente do STF e fará todos os questionamentos que precisarem ser feitos a ele, tudo aquilo que os telespectadores gostariam de perguntar’.


A repercussão bateu no canal. Os internautas ‘entupiram a Cultura de protestos’, lembra o jornalista.


Distanciamento


Ao falar da demissão de Nassif ao portal Imprensa, a Fundação Padre Anchieta disse que eram freqüentes ‘ao longo do período de vigência do contrato, as situações em que a direção do Jornal da Cultura solicita a presença do jornalista e ele não está disponível, em razão de viagens ou outros compromissos profissionais. Isso obriga o jornal a adequar-se às conveniências de seu colaborador e não o contrário, como seria de esperar’.


Nassif desmente tal versão: ‘A alegação de que eu não estava disponível quando a TV Cultura me chamava não é verdade. A negociação que fizemos ano passado – até em função da crise financeira da Cultura – era que eu teria participação esporádica lá’. Ele contou ainda que em dois dos episódios mais importantes da área econômica no ano passado – a explosão da crise e a fusão entre Unibanco e Itaú –, ‘liguei para eles dizendo que eram fatos relevantes e eles disseram para não ir porque tinham outras prioridades’.


De acordo com o jornalista, ‘eu ligava sempre e dizia: `pessoal, vocês não vão me chamar?´’. Mas, a orientação do canal, disse, tem sido a de abordar temas leves. ‘Querem montar um jornal para competir com os das grandes redes, mas sem ter estrutura. E o diferencial da Cultura – que era aprofundar o tema, avançar nas informações – deixou de existir. A Cultura tinha várias caras e a partir do momento em que o Markun assumiu, ele esvaziou o canal de todas elas.’


Apesar dos sinais de distanciamento, Nassif foi convidado por Paulo Markun para uma reunião em dezembro, que não chegou a acontecer, na qual seria tratado o retorno do programa de Luis Nassif à grade do canal. ‘E de repente, nesta semana, disse que o contrato não seria mais renovado. Então, o que quer que tenha ocorrido, ocorreu entre o momento em que a reunião ia acontecer e agora.’


Para Nassif, a decisão veio de cima. ‘O Markun não tomaria sozinho essa decisão. E se em dezembro ele estava acertando ampliar minha participação, é evidente que a mudança de orientação se deveu a outros fatos.’ Nassif declarou ainda que não vai ‘entrar em guerra com o Markun’, mas ‘ele é um cara fraco e não toma nenhuma decisão se não passar por instâncias superiores’.


Afastado da televisão e tido com um dos mais importantes blogueiros e jornalistas do país, Nassif não tem planos para continuar na televisão. E renova sua aposta: ‘Praticar jornalismo está cada vez mais difícil. O caminho é a internet’.

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Da equipe do Vermelho, em São Paulo

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/01/2009 Gerson Chagas

    Cada vez fica mais evidente que a Internet fica sendo o único reduto de discussão minimamente democrática. E ainda assim, exigindo uma mobilização hercúlea do cidadão-internauta, para separar o joio do trigo. Ao Nassif, parabéns pelo posicionamento firme e destemido, frente aos canalhas de plantão.

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