Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Digitalização da mídia não ameaça textos longos

Por Silvia Bittencourt em 29/05/2012 na edição 696

Os longos textos intelectuais, que há décadas têm um espaço garantido nos principais cadernos de cultura da Alemanha, não estão ameaçados pelo fenômeno da digitalização da mídia. Eles sempre terão um lugar ao lado da informação curta e rápida dos portais jornalísticos.

A opinião é de Moritz Müller-Wirth, 48, editor de cultura do jornal semanal mais importante do país, Die Zeit.

“Nunca o Zeit impresso contou com tantos leitores como nos últimos anos”, declarou à Folha por telefone, de seu escritório em Hamburgo.

Isto, segundo ele, acontece ao mesmo tempo em que o número de usuários da versão online do jornal também aumenta – e de forma muito mais rápida (4,72 milhões em fevereiro passado, 17% a mais do que em 2011).

Jornalismo cultural

Coautor e coeditor de vários livros, assim como cofundador de uma plataforma contra nazistas (www.netz-gegen-nazis.de), Müller-Wirth participará do 4° Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, que começa na segunda, no teatro Tuca, em São Paulo.

Promovido pela revista Cult, o evento terá como tema “A Dialética do Conhecimento – Alta e Baixa Culturas” e receberá como palestrantes, além de Müller-Wirth, o cartunista Art Spiegelman, o escritor Gay Talese e a cineasta Claire Denis.

O editor do Die Zeit participa de uma mesa sobre a universidade nas páginas do jornal, da qual também fazem parte o editor da “Ilustríssima”, Paulo Werneck, e o professor da Unicamp Marcio Seligmann-Silva.

Müller-Wirth é otimista quanto ao futuro da divulgação de estudos acadêmicos, que a seu ver continuarão encontrando espaço nos feuilletons, os cadernos culturais alemães. No entanto, defende que podem ser apresentados em reportagens, perfis ou debates.

Leitura obrigatória para a intelectualidade alemã, o Zeit foi fundado em 1946.

É um calhamaço em formato nórdico (57 centímetros de altura por 40 de largura), com cerca de 80 páginas.

Traz longos textos de política, economia e cultura, entre outros temas, além de uma revista de variedades.

Liberal de esquerda, o jornal tem como editor o ex-chanceler social-democrata Helmut Schmidt, de 93 anos.

Otimismo

Os números do Zeit (“tempo”, em alemão) confirmam as declarações de Müller-Wirth. O jornal impresso aumenta a cada ano sua tiragem (mais de 505 mil exemplares por semana no ano passado). Também teve um recorde de vendas em 2011.

O editor apontou, porém, para um desafio do jornalismo cultural na era da internet: buscar novos formatos, sobretudo para os leitores mais jovens, usuários das novas mídias, que hoje se educam por meio da internet.

“Mas a leitura como caminho para a educação sempre permanecerá como o núcleo da coisa”, afirma ele.

O semanário alemão já vem adotando alguns desses formatos na sua versão digital, o Zeit Online, que conta com uma Redação própria.

Ali, redatores do jornal impresso também apresentam críticas de livros na forma de vídeo, assim como procuram o contato com o leitor na rede social Facebook.

Impresso e online

Para o editor do Zeit, a formação de jornalistas da área cultural deve ser diferenciada entre quem trabalha num portal on-line e quem escreve para o impresso.

Segundo ele, o portal exige textos mais leves, com uma estrutura diferente daquela dos textos da publicação em papel. “O ponto de intersecção é educação e um conhecimento amplo”, diz.

O leitor do Zeit continua a ser, sobretudo, o chamado Bildungsbürger (ou “cidadão culto”), de acordo com Müller-Wirth.

***

[Silvia Bittencourt para a Folha de S.Paulo, de Heidelberg, Alemanha]

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