Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > MASSACRE EM DENVER

A tartaruga e a metralhadora automática

Por Lúcia Guimarães em 24/07/2012 na edição 704
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 23/7/2012; intertítulos do OI

Se você já parou para observar a indignidade de uma revista de aeroporto, como, por exemplo, a mãe que vê a mamadeira do seu bebê ser confiscada ou o idoso que mal se aguenta em pé, tendo a bengala desmontada, pode ter ponderado: este é o custo da segurança. Mas se você foi a uma sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge no cinema de Times Square na sexta-feira à noite (20/7), faria outra ponderação. A presença ostensiva de policiais armados e discretos, de sabe-se lá quantos à paisana, não garantia proteção contra o que o comandante da polícia de Nova York admitiu temer: o crime copycat, cometido por alguém tentando uma vaga sob o holofote da infâmia do atirador de Aurora.

A via crucis em que se transformou a vida do passageiro aéreo é um produto do terrorismo, ainda que não possa ser explicada apenas por ele. Já o risco que corremos na plateia do cinema, na sala de aula de Virginia Tech e Columbine, ou no bar do Alabama, onde outro dia um homem entrou atirando e acertou em 17 pessoas, é filho legítimo de uma convicção americana: a liberdade individual só sobrevive numa democracia se você puder comprar uma arma automática com o poder de disparar 600 tiros por minuto.

Logo depois do massacre de Aurora, uma deputada do Partido Republicano pelo estado do – adivinhem? – Texas, declarou que a tragédia foi causada “pelos ataques às crenças judaico-cristãs” e concluiu o pronunciamento com a pérola: “Com tanta gente dentro do cinema, por que não havia alguém armado para reagir contra o atirador?” Voltemos ao Velho Oeste, ela parece recomendar.

“A melhor segurança de um país livre”

No ano passado, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que os registros de porte de arma dispararam nos Estados Unidos durante o governo Obama. Comerciantes que mal dão conta das encomendas de munição acreditam que a demanda se deve à certeza de que o presidente vai tentar passar leis de controle de porte de armas. Barack Obama nunca demonstrou a menor disposição de assumir o risco eleitoral de mexer no vespeiro do porte de arma. Deixo ao leitor a conclusão sobre a diferença entre a percepção e a realidade.

A trilogia do Batman, dirigida por Christopher Nolan, termina, mas a sequência do reality show de horror dos assassinatos em massa com armas de fogo tem reprise garantida graças à interpretação obscena da Segunda Emenda da Constituição americana: “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido.”

A emenda, redigida por James Madison, em 1789, tinha o objetivo de acalmar o temor dos anti-federalistas contra o abuso de poder do governo federal do país recém-fundado. O texto original dizia: “O direito do povo de portar armas não deve ser violado; uma milícia bem armada e bem regulada é a melhor segurança de um país livre.”

A falta de coragem do Partido Democrata

Não passou pela cabeça dos fundadores dos Estados Unidos que eles estavam defendendo o porte de arma privado ou os direitos dos caçadores.

O assassino de Aurora não precisava de escopeta e centenas de rodadas de munição para acertar numa rolinha e morava num complexo residencial universitário onde a manutenção da segurança não lhe compete. Ainda assim, comprou armas, explosivos e armadura militar no exercício escatológico de liberdade que é celebrado pela deputada texana mentecapta. Se eu pisar numa calçada nova-iorquina com o copo de vinho que acabei de pedir num bar, posso ser convocada para me explicar diante de um juiz.

O inesgotável arsenal do lobby das armas para acertar políticos e a falta de coragem do Partido Democrata para enfrentar a carnificina não serão abalados pelo que aconteceu na sessão do Batman.

Até o próximo massacre.

***

[Lúcia Guimarães, do Estado de S.Paulo]

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