Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > GREVE NAS FEDERAIS

A paralisação nas universidades vai continuar

Por Elaine Tavares em 31/07/2012 na edição 705

Já se vai mais de um mês da greve dos trabalhadores técnico-administrativos das universidades, mas, no geral, essa parece ser uma greve invisível porque na mídia, quando os jornalistas falam em greve nas universidades, se referem no mais das vezes aos professores. Isso, em verdade, não se configura novidade, pois desde sempre a hierarquia nas universidades tende a colocar o trabalho dos técnicos sempre em segundo plano, como se esse contingente de pessoas atuasse apenas numa atividade meio, não fazendo muita diferença no resultado do trabalho educativo.

Há um filme de produção estadunidense que mostra explicitamente como é usual esta relação complicada entre os técnicos e os professores. É o Quase deuses, que conta a história da inusitada parceria entre um faxineiro da Universidade John Hopkins e um médico professor/pesquisador que busca descobrir novas técnicas para a cirurgia do coração. O faxineiro Thomas, um homem simples e negro, é um exímio inventor de ferramentas que começa a operar corações junto com o professor, conseguindo criar novas técnicas cirúrgicas e ferramentas que fazem a pesquisa avançar e tornam o professor famoso. Há uma cena paradigmática na qual o fotógrafo/jornalista chama todos os dirigentes da universidade para posar para a foto da matéria que anunciará as novidades científicas descobertas ali. O pesquisador vai, todo vaidoso, e vê, ao longe, o faxineiro, que na verdade é o real inventor da técnica. Ele se cala, segue para a foto e não o chama, não anuncia a sua façanha, não o inclui na vitória que, de fato, é do trabalhador.

Esta atitude do professor não é isolada num mundo em que as relações de trabalho impostas pelo sistema de produção de mercadorias, como é o capitalista, são vistas de forma separada. Desde Immanuel Kant que o mundo moderno inaugura a separação radical entre o que seja trabalho manual e trabalho intelectual. E essa visão kantiana é a que domina na sociedade capitalista, o que faz com que na divisão de trabalho do mundo universitário apareça como absolutamente natural que um técnico seja considerado inferior ao docente. No contexto ali desenhado, apenas o docente estaria realmente vinculado à atividade fim proposta pela universidade.

Trabalho manual x trabalho intelectual

Pois é justamente essa verdade moderna que o economista Alfred Sohn Rethel procura desconstruir ao apresentar uma teoria materialista do conhecimento em contraposição à visão kantiana. Segundo ele, Marx já havia anunciado que na fase mais elevada da sociedade comunista haveria de desaparecer a subordinação servil dos indivíduos a divisão do trabalho e, com ela, a antítese entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Esta antítese, insiste Marx, existe em todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na exploração econômica, sendo, inclusive, um dos ingredientes do fenômeno da alienação no qual se baseia a exploração. Daí não ser nenhuma novidade que esta tensão se explicite na universidade, também um espaço de poder, de divisão do trabalho e de exploração.

Mas Sohn Rethel também observa que na sociedade capitalista os considerados “trabalhadores intelectuais” não são os máximos beneficiários do sistema, e sim, os servos do domínio, logo não deveriam vangloriar-se disso. Para o pensador francês, a superação do capitalismo é elemento fundamental para a mudança destas relações, que pode libertar tantos uns como outros. Kant dizia que a divisão entre mãos e mente é uma necessidade transcendental. Já Sohn Rethel afirma que ela é apenas fruto da sociedade produtora de mercadoria. Assim, os antagonismos de classe que engendra a produção de mercadorias na sociedade burguesa – e a produção de conhecimento está entre elas – estão intimamente ligados às formas de divisão entre mente e mão.

Sohn Rethel discute o tema do ponto de vista formal, assim como Kant, mas numa outra perspectiva. Ele mostra como num ato cotidiano de compra e venda de uma mercadoria existe um momento x em que tanto quem compra como quem vende está envolvido em uma abstração (um ato intelectual). É o momento em que se efetua o intercâmbio propriamente dito, este espaço de tempo em que alguém busca algo para seu uso e outro estabelece um valor de troca, fazendo-se assim a transação. Assim, a abstração não é uma coisa exclusiva da mente – como queria Kant – mas aparece no dia-a-dia da vida real, tem origem nos atos concretos. Sohn Rethel insiste que assim como os conceitos de ciência natural são abstrações-pensamentos, o conceito econômico do valor é uma abstração real. É certo que ele existe só no pensamento, mas não brota dele. Sua natureza é social. Não são os homens que produzem estas abstrações, e sim, as suas ações, o que fecha com o conceito de que é o ser social que determina a consciência.

Ao povo, as batatas

Assim, se para Kant estava certo que existia uma separação radical entre mente e mão, e Hegel conferia ao espírito a primazia e o domínio sobre o manual, Marx desorganiza tudo isso relacionando com o tempo, compreendendo que isso muda na história. Logo, não há como determinar antecipadamente as formas do manual e do intelectual. É por isso que a sociedade sem classes proposta por Marx só pode existir se houver uma unidade concreta entre o trabalho manual e o intelectual, sem a primazia de um sobre o outro, que é o que em última instância provoca toda essa lógica de dominação tão bem engendrada dentro da universidade, assim como em qualquer outro setor do mundo capitalista.

Assim, aceitando-se as teses de Sohn Rethel e de Karl Marx, todo esse processo de dominação, servidão, opressão e inferiorização do outro que é o caldo cultural vivido na universidade só poderá ser superado quando os trabalhadores compreenderem a ideologia que está embutida na divisão do trabalho e a superarem. Para isso, os técnicos-administrativos, que hoje são os que estão submetidos a essa opressão, devem enfrentar o debate intelectual com mais preparo, compreendendo que para mudar esse estado de coisas há que mudar também a forma de organizar a vida. Não só na universidade, mas na sociedade. Isso é um pouco o que se faz na greve, mas, no cotidiano da vida, quando tudo volta ao normal, isso volta a se perder.

O certo é que tanto os técnicos – desde aquele que abre a porta para o aluno entrar, até o pós-doutor que dirige pesquisa – como os professores constroem o saber dentro da universidade. Muitas vezes, não tanto como deveriam, mas o fazem juntos, seja nos erros como nos acertos. Daí que falar em greve na universidade é perceber essas duas pernas da estrutura.

O governo federal, da forma como age em relação aos movimentos, só faz fortalecer a ideia de divisão e inferioridade. Apesar de manter uma atitude dura na negociação com os trabalhadores, tem recebido os professores e até já apresentou uma proposta – ruim, é verdade. Mas, para os técnicos, o que há é o silêncio. Para manter a aura de “companheiros”, alguns dirigentes chamam a Fasubra (Federação dos Sindicatos das Universidades Brasileiras) para conversar. Mas é só conversa mesmo. Nada de negociação. Quem manda é o Planejamento e a ministra já falou no bom som do colonialismo mental: “Não podemos ir à contramão da Europa, que hoje está cortando salários.” Ou seja, completamente perdida da realidade mundial, ela apenas quer copiar a Europa, sem se importar se a conjuntura de lá é muito diferente daqui. Nos países centrais a crise está rugindo. Aqui ela ainda não chegou com força. O Brasil está em ascendência econômica, crescendo cada dia mais. Dinheiro não é coisa que falta. No orçamento brasileiro, segundo dados do próprio governo, 54,9% está sendo direcionado para pagamento e amortização da dívida pública, enquanto que para o pagamento de trabalhadores públicos são utilizados parcos 9,85%. Ora, os números são luminosos. Toda a prioridade para banqueiros. Ao povo, as batatas.

Carreiras estratégicas

Na última semana os trabalhadores públicos foram à Brasília e fizeram um acampamento. Muita mobilização, barulho e incomodação para o governo. Até o Ministério do Planejamento foi ocupado, causando tensão. Mas, ainda não foi o suficiente para fazer cócegas na ministra europeizada. Talvez ela esteja esperando para ver quais as próximas ações da primeira ministra de ferro da Alemanha, para então decidir como copiá-la.

Enquanto isso, o semestre letivo que deveria iniciar agora no fim de julho já começa a ter problemas. Não há como fazer matrícula, tudo está parado. Esta tem sido uma mobilização muito significativa de professores e técnicos. Mas, ao que parece o governo federal está se lixando para a educação dos jovens brasileiros. Qualidade, criação intelectual, pensamento crítico, é coisa que só atrapalha governos tíbios, daí que quanto menos gente capaz de pensar, melhor. Não é sem razão que as greves nas universidades se arrastam por meses. Não é como uma greve nos transportes que em dois ou três dias se resolve. A educação não é produtiva.

O governo é pródigo em divulgar números utilizados para pagamento de trabalhadores, falam em alguns bilhões (de 6 a 9) e mostram tabelas que aos olhos das gentes que assistem à televisão soam como absurdas. “Dinheiro demais para os servidores públicos”. Mas a mesma mídia e o mesmo governo não mostram os números e as tabelas dos valores que enviam para os bancos, mais de 500 bilhões todo o ano.

E assim vão os trabalhadores na árdua luta contra o capital. Pois o patrão estatal é apenas formal. O embate que se trava numa greve da educação, é o velho embate contra o capital, pois é com ele que se disputam as verbas. Enquanto o governo continuar optando por servir ao “diabo” (a dívida), o atendimento ao povo através dos serviços públicos continuará ruim e isso não pode ser imputado a uma massa de trabalhadores que desde os terríveis anos de FHC vem amargando arrocho salarial e falta de perspectivas na carreira. Cada vez mais os governos, desde FHC, Lula e agora Dilma, vêm atuando na lógica de definir algumas carreiras estratégicas no serviço público e essas não tem a ver com educação, saúde, previdência ou outras que digam respeito imediato à população. Não. As carreiras estratégicas são as do judiciário e da receita federal, espaços estratégicos de recolhimento de dinheiro e de respaldo jurídico.

E é por causa disso que a luta deve continuar!

***

[Elaine Tavares é jornalista, Florianópolis, SC]

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