Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > LÍNGUA & LINGUAGEM

Deriva?

Por Sírio Possenti em 07/08/2012 na edição 706
Reproduzido do Ciência Hoje On-line, 27/7/2012

Uma das poucas coisas que se sabem com absoluta segurança sobre as línguas é que, aconteça o que acontecer, nenhuma será no futuro como é hoje. Ou seja, é certo que as línguas mudam. As variações que podem ser facilmente observadas são sua origem e seu mais forte sintoma. Vejamos um exemplo: coexistem formas como [peixe] e [pexe], [outro] e [otro]. A queda da semivogal (i, u) implica a eliminação de ditongos. Mas o fenômeno não é linear; obedece a certas restrições que levam em conta uma relação entre a semivogal e a consoante que a segue. Por exemplo, ocorre [otro] (outro), mas não [oto] (oito). Ou seja, o /u/ cai antes de /t/, mas o /i/ não.

A queda é “geral” antes de /x, ch/ (caixa / caxa, deixa / dexa, frouxo / froxo). Formas como [partiro] são parte do mesmo fenômeno. A grafia final da palavra, am, pode enganar um observador desatento, mas a pronúncia é [ãw], um ditongo. Aliás, a posição final das formas verbais escritas com ou é a que mais favorece o fenômeno, praticamente geral: [pegô], [matô], [deixô] etc.

Uma boa pergunta é se todos os ditongos que hoje concorrem com sua variante desaparecerão. É difícil ter certeza, mas o que ocorre em línguas da mesma família pode ser uma indicação, embora não uma garantia absoluta. Observe-se que, em espanhol, a forma exclusiva é otro, já sem concorrência, sem contar ocho. Em francês, embora a escrita seja autre, a pronúncia é [otr(e)], exatamente como no popular [otoridade].

Previsões no inglês

Edward Sapir, já em 1921 (no livro A linguagem: introdução ao estudo da fala), propôs a análise de um caso de variação do inglês que lhe permitiu sustentar a tese de uma tendência geral da língua, que chamou de deriva. A tese diz que há mudanças previsíveis: formas hoje consideradas erros podem sobreviver e virem a ser as corretas, enquanto as atuais corretas desaparecerão. Sapir afirma que se pode profetizar que, dentro de duas centenas de anos (uma quase já passou…), nem o mais erudito jurisconsulto dirá Whom did you see?, porque whom desaparecerá. A correlação I : me = he : him = who : whom será posta de lado. Sua análise parte da constatação de que essa forma soa artificial. Seus argumentos são quatro.

O primeiro é que as únicas formas pronominais objetivas (isto é, objetos diretos) em inglês são me, him, her, us, them e whom. Em todos os outros casos, o objeto tem a mesma forma do sujeito. O segundo é que who e whom são associados aos pronomes relativos e interrogativos which, what e that (e não aos pessoais), e também a where, when e how, todos invariáveis e, geralmente, enfáticos. O terceiro, que as formas subjetivas e objetivas dos pronomes ocupam, em inglês, posição fixa na frase – e esta é sempre diferente, complementar: nunca ocorrem formas objetivas antes do verbo, como em português (me disseram, te vi etc.), nem mesmo nas interrogativas (não se diz Him did you see?).

O quarto argumento é baseado no ritmo: o enfático whom, “com sua pesada estrutura”, contrasta com a sílaba “leve e sutil” seguinte. A forma “soa mal”, diz Sapir. Esse juízo não se aplica a what did, when did. “Nosso instinto rítmico” não aceita a forma, assim como um poeta não aceitaria “dreamed” num verso de cadência rápida.

Os quatro fatores operam em conjunto, afirma Sapir, formando uma resultante. O mais importante em sua tese não é, no entanto, a explicitação desses fatores, que tendem a produzir mudanças definitivas no inglês. O que mais importa é que são sintomas de tendências que trabalham na língua. É a essas tendências que o autor chama de derivas. São três, segundo ele, que devem persistir por séculos, talvez milênios.

A primeira é a tendência a igualar a forma do sujeito e a do objeto (a diferença entre essas formas é o último suspiro do velho sistema indo-europeu). O sistema de casos foi se enfraquecendo progressivamente, e já se ouve mais vezes “the fases of the moon” do que “the moon’s fases” e “the appearence of it” do que “its appearence”. Resistem apenas as formas flexionais relativas aos seres animados. Por isso, dificilmente se dirá “Me see him”, até porque a diferença sonora entre I e me é grande.

A segunda tendência é a de tornar as posições das palavras cada vez mais fixas, à medida que as flexões diminuem. Trata-se de fato histórico atestado (em português o fenômeno é similar: “o homem vê o cão” não quer dizer a mesma coisa que “o cão vê o homem”; e é apenas a posição das palavras que define o sujeito e o objeto). Assim, diz Sapir, he e him não são mais, a rigor, sujeito e objeto, mas formas pré e pós verbais.

A terceira tendência leva o inglês na direção das palavras invariáveis. Sapir menciona que ainda resistem as formas verbais de terceira pessoa (works) e os plurais (books), mas demonstra que palavras derivadas perdem progressivamente seu sentido original: goodness significa cada vez menos “bondade” e cada vez mais “aptidão”; unable está tão descolado de able quanto stupid. Finalmente, diz Sapir, “sentimo-nos bem com believe e credible (…) Good e well vão melhor entre si do que quick e quickly”. Todas são formas não relacionadas morfologicamente.

Hipóteses para o português

Nunca se deve desprezar as forças sociais, especialmente as diversas formas de contato entre falantes das diversas variedades e seu peso social. A escola pode impedir ou retardar mudanças. Já os meios de comunicação tendem à informalidade, associada à mudança. Mas não esqueçamos que a TV pode mudar até expressões consagradas, como “perigo de vida”, muitas vezes substituída por “perigo de morte”, processo que se iniciou por mero capricho de um mandachuva. No que se refere às forças gramaticais, no entanto, esse tipo de intervenção não teria efeito. Até porque, em grande medida, escapam à consciência.

Podem ser detectados casos que indiquem derivas no português? Algumas hipóteses são:

>> tendência a aumentar o “peso” do lado esquerdo da frase – isto é, antes do verbo –, que se deve a vários fenômenos, como a diminuição do número de flexões verbais, derivada, por sua vez, da mudança dos pronomes (a substituição de “vós” por “vocês” é o caso mais claro, porque a forma verbal associada a “vocês” e a “eles” é uma só); acompanha esse fato a maior presença de sujeitos explícitos; além disso, cresce o uso de estruturas como “A inflação, ela é cíclica”;

>> tendência a substituir proparoxítonas por paroxítonas, embora essas formas populares sejam muito marcadas, como são os casos de “figo” (fígado), “uter /utro” (útero), mas também “chacra” (chácara), “xicra” (xícara) e “abobra” (abóbora), estas menos marcadas, além de claramente presentes nos diminutivos “chacrinha / xicrinha / abobrinha”;

>> tendência de aumento das formas analíticas, substituindo as sintéticas, muito clara na conjugação verbal, de que são prova formas como “vou estudar” (estudarei), “tinha saído” (saíra); o fenômeno ocorre também nas relativas, especialmente no emprego cada vez mais raro de “cujo”: em vez de “o time cujo técnico muda muito…”, “o time que o técnico (dele) muda muito”…

Uma coisa é certa: línguas mudam. Outra é menos clara: quais mudanças podem ser previstas. Mas, sem dúvida, algumas apostas têm boas chances de acerto.

***

[Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas]

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