Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CRISE

Mídia tenta ocultar cataclisma do capitalismo

Por Reinaldo Cabral em 21/08/2012 na edição 708

Há quase quatro anos a economia dos EUA cambaleia impactada pela crise do setor imobiliário. Para neutralizar seus efeitos, o governo Obama já investiu alguns bilhões de dólares, que amorteceram suas implicações, mas não impediram a contaminação do sistema. O aprofundamento da crise resultou no abandono de milhares de imóveis pelos seus ocupantes e na migração deles para se abrigarem em moradias de lona nas cidades litorâneas. O agravamento do quadro macroeconômico dos EUA provocou a diminuição dos impulsos intervencionistas comuns a um país acostumado a manter uma política externa belicista.

Da mesma forma, o aprofundamento da crise financeira no continente europeu já se converteu, há mais de dois anos, na maior crise vivida pelo modelo econômico, que tinha no euro seu principal esteio, cuja consequência é a própria desagregação econômica e social continental. Grécia, Itália e a Espanha são os países mais afetados com índices de desemprego sem precedentes.

Com as exceções de sempre, a grande imprensa tem se pautado como se uma cobertura mais arrojada sobre os dilemas e as transformações ocorridas no interior da Europa fossem contaminar a sociedade brasileira. Apesar desse quadro, e talvez por isso mesmo, quem folheia a grande imprensa nacional nos últimos seis meses, tem a impressão de que toda essa conjuntura econômica desfavorável dos EUA e da Europa não afetaria o Brasil.

O buraco negro

Na verdade, a crise vinha batendo à porta brasileira cada vez com maior afinco até arrombá-la. Contudo, os nossos repórteres e analistas se limitavam a ouvir o governo, em cuja cantilena apostavam todas as suas fichas: o Brasil passaria ao largo da crise, como se a economia há anos não estivesse globalizada. Os índices de preços já haviam sido afetados, porém ainda assim a mídia tergiversava, fingia que ficaríamos imunes, como se o Brasil fosse uma ilha. Nas matérias de atenuação, o ministro Guido Mantega aparece inúmeras vezes como se fora escalado pela presidente Dilma Rousseff para ser o porta-voz da bem-aventurança.

Como a seca dos EUA derrubou em mais de 80 % a produção de milho, prejudicando as importações brasileiras, finalmente não há como fechar os olhos à nova realidade: o bolso da família brasileira já começa a ser atingido com o reajuste nos preços do frango e da carne bovina. Assim, não há como esconder mais o vertiginoso reajuste de preços em curso. E não será nenhuma novidade se os índices inflacionários da década de 70 (de até 80% acumulados no mês) voltarem com toda a força, apesar da opereta aritmética já introduzida pelo governo para neutralizar os efeitos sazonais nos cálculos dos índices.

Pela apreciação e leitura deste Observatório, o leitor já tem uma noção precisa das transformações em curso no interior da sociedade. A explosão da criminalidade e a omissão consciente e consentida da iniciativa privada nas políticas públicas formam a vara de condão do buraco negro em que o país está mergulhado.

Arrogância e individualismo

Entretanto, é preciso enxergar que um novo país está nascendo, com suas demandas sociais cada vez maiores – o resultado das eleições municipais deste ano poderá mostrar isso – e o julgamento público do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal servirá como norteador de um novo momento para a sociedade brasileira.

É nesse ponto que a cobertura do julgamento pela Folha de S.Paulo, embora ainda muito resumida, dá o tom para o que deveria ser um espetáculo cívico: o patenteamento de valores como honestidade, lealdade, amor à pátria, em contraste com o que a apuração dos fatos demonstrou até esta semana: a arrogância, o individualismo, a ganância, o mafiosismo.

***

[Reinaldo Cabral jornalista e escritor, Maceió, AL]

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