Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & GREVES

A cobertura das greves

Por Bruna Rodrigues em 28/08/2012 na edição 709

Quando adolescente, eu queria ser jornalista. Não era minha vocação, e sim, extrema admiração pelo que me fascinava: a missão jornalística, de levar as informações a público, checar as fontes, olhar todos os lados na busca pela utópica imparcialidade. Já digo utópica porque vejo a imparcialidade como um ideal, um objetivo a ser alcançado, não uma certeza do trabalho do jornalista, que certamente transmitirá sua opinião pessoal ou de seus empregadores, mesmo que de maneira não intencional. Mas a busca dessa imparcialidade deve nortear suas ações e, principalmente, seus textos.

Sou engenheira química, encontrei meu caminho, passei em alguns concursos públicos e hoje sou reguladora federal. Esse termo é novo para mim, embora eu seja servidora pública de uma agência de regulação há quatro anos. Surgiu da greve atual do serviço público, da qual as agências participam e estão sendo duramente criticadas pela imprensa, sobretudo a Anvisa. Estou em greve.

Meu sonho antigo de ser jornalista e aquela admiração que eu sentia está se transformando em alívio. Definitivamente, não gostaria de ser jornalista como os que vejo fazendo a cobertura desta greve. Porque, sinceramente, ainda não vi aquele jornalismo em busca de imparcialidade que eu visualizo como próprio da profissão. Do contrário, vejo reportagens que julgam e condenam os servidores públicos, mas ninguém explica à população o que está acontecendo pela ótica do servidor. Para mim, parece óbvio que uma greve significa que há dois lados envolvidos – empregador e empregados – e que ambos deveriam ser procurados pelo jornalista para elaborar qualquer reportagem. Mas não é isso que tenho lido ou assistido, que vou separar em itens, pois, como mencionado, sou engenheira, então é meu jeito de observar a situação.

Salário melhor

A quantidade de reuniões realizadas pelo MPOG desde março com as diferentes carreiras do serviço público representa um valor significativo, mas qualitativamente não quer dizer nada, já que não foram apresentadas propostas, ou no jargão sindical, não foi aberta a mesa de negociações. O comportamento do MPOG chegou a ser desrespeitoso, em minha opinião, desmarcando reuniões em cima da hora sem qualquer explicação, frustrando vários servidores que nem sequer pensavam entrar em greve, mas acabaram participando do movimento por não enxergarem outra maneira de fazer com que o governo negocie.

Se não for por meio de greve, de que outra forma os servidores podem se fazer ouvir pelo governo? Paralisações? Operação padrão? Antes da cobertura jornalística, tudo isso foi feito e não houve resultado algum. O governo só começou a negociar depois das greves. E o que é greve? É um direito ou é uma atitude radical? Creio que cabe à imprensa esclarecer para a população o que está previsto na Constituição e por que estão se observando problemas na execução da greve, ou seja, a falta de regulamentação do direito de greve do servidor público. Por que isso nunca foi feito?

A maioria da população sabe o que significa a correção da inflação nos salários e que isso é bem diferente de um aumento. Antes de ser servidora pública, não sabia que não havia correção anual da inflação nos salários dos servidores. Ou seja, você entra ganhando um valor determinado, vem a inflação e seu salário não é atualizado. É errado querer a correção porque seu salário é considerado acima do que grande parte da população ganha? Então queremos que todo mundo ganhe pouco e quem tem um salário melhor fique com ele congelado até ficar ruim?

Produtos essenciais

Como funciona uma negociação sindical? Ora, até antes da greve eu sabia que os sindicalistas sempre pedem a mais do que precisam e que os empregadores sempre oferecem a menos do que podem. Logo, a negociação busca encontrar o meio-termo, razoável para os dois lados. Então, somar todas as reivindicações do serviço público significa apresentar um número que já apresenta um desvio para um valor maior do que será realmente acordado e que de fato está sendo considerado pelas categorias. Mas o número é assustador, isso eu concordo. Só vejo uma forma de analisar esse tipo de valor: comparando-o com o atual, com a arrecadação, com outros valores conhecidos e com a variação da inflação. Lembrando que esse número apresenta uma distorção, dada a natureza das negociações, como descobrir qual seria o real impacto? Não caberia conversar com as lideranças sindicais?

Há reivindicações que impactam na forma da remuneração – gratificações, subsídios. E isso é muito importante para o servidor, dá segurança na execução de suas atividades. Não tinha ideia e até hoje tenho dificuldade em entender a quantidade de carreiras, de cargos, tipos de remuneração etc., no serviço público. A população também não sabe. O que ficou sabendo é quanto ganham as principais lideranças sindicais. Ser jornalista é olhar no portal da transparência a remuneração dos servidores, ao invés de entender suas reivindicações?

Fiquei em dúvida sobre a liberação dos fármacos e produtos essenciais pela Anvisa. Como grevista, recebi informações contrárias ao que foi noticiado, mas, infelizmente, estou sem confiança na imprensa, que simplesmente repetiu o que dizia o governo.

Desafios similares

E os cabides? Os concursados não são “sangue azul”, e sim, pessoas esforçadas, estudiosas, que se prepararam e passaram em um concurso que exige conhecimento e bons antecedentes. Além disso, nossa rotina inclui geralmente falta de pessoal. Trabalhamos muito e muitas vezes fazemos horas-extras (que não são remuneradas) para dar conta da demanda. E o que dizer dos indicados políticos, que representam parcela significativa dos servidores? Quanto eles ganham, quantos são, quem são? Não seriam eles os verdadeiros “sangue azul”? Não sei, só gostaria de ver uma reportagem sobre isso. Ou não, porque se for do tipo das reportagens da greve é melhor que nem se produza.

Por fim, o que achei de mais positivo nesta greve foi o surgimento de categorias, como a de reguladores federais. Percebemos, através da união entre as agências, que enfrentamos desafios similares e que podemos aprender com a experiência uns dos outros. O que certamente vai resultar na melhoria do nosso trabalho. Ainda é muito motivador saber que não estamos sozinhos. Por isso, apesar de tudo que tem se falado, hoje eu tenho orgulho de ser reguladora! (E também de não ser jornalista.)

***

[Bruna Rodrigues é engenheira química, Rio de Janeiro, RJ]

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