Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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“Convenções mobilizaram bases, mas não mudaram campanha”

Por Fernanda Godoy em 11/09/2012 na edição 711

O cientista político Robert Y. Shapiro, especialista em política presidencial e opinião pública da Universidade Columbia, avalia que as convenções dos partidos Republicano e Democrata não mudaram o curso da campanha americana. Para Shapiro, os números da economia, a credibilidade que os candidatos conseguirem quanto à sua capacidade de realização, e o grau de mobilização das bases partidárias serão os fatores que definirão se o vencedor em 6 de novembro será o presidente Barack Obama ou seu adversário, Mitt Romney. Shapiro diz que esta é a eleição mais polarizada nos EUA em 40 anos, e que a vitória de Obama em 2008 solidificou divisões raciais do eleitorado.

O senhor avalia que alguma das duas convenções conseguiu mudar o rumo da campanha?

Robert Y. Shapiro – Acho que ambas as convenções funcionaram, em termos de mobilizar seus adeptos, suas bases. Os republicanos se saíram bem, e os democratas talvez um pouco melhor, mas a eleição está muito apertada, e acho que o efeito de uma anulará o da outra. O que provavelmente fará mais diferença será a interpretação do relatório de desemprego, em conjunção com os discursos dos democratas, que afirmaram que o país está melhorando.

Mas é uma queda pequena, de apenas 0,2 ponto percentual, na taxa de desemprego, não é uma grande mudança, certo?

R.Y.S – Não, e é claro que muitas coisas podem acontecer até a eleição. O eleitorado de ambos os candidatos parece bastante estável em seu apoio, então a discussão se dá em torno de 15% dos eleitores, nos 12 estados onde a disputa é acirrada. Ainda teremos que esperar alguns dias para que as pesquisas mostrem se esses eleitores foram afetados.

O senhor acha que Obama teve sucesso em sua estratégia de fazer da eleição uma escolha entre duas alternativas claramente distintas, em vez de um referendo sobre seu governo?

R.Y.S – Esta eleição tem uma das escolhas mais claras em muito tempo, desde 1964 (Lyndon Johnson x Barry Goldwater) ou 1972 (Richard Nixon x George McGovern). Mas, sendo uma eleição de escolha, baseada em ideologia, isso significa que os dois partidos estão essencialmente tentando mobilizar sua base de apoio. Minha dúvida é se, ao fazer isso, os democratas estão abandonando a estratégia de apelar aos eleitores independentes.

Isso estaria de acordo com o cálculo político de que as eleições vão ser decididas pelo grau de motivação e de comparecimento às urnas, certo?

R.Y.S – É muito possível que isso aconteça. Em termos de probabilidades, parece a melhor aposta.

O senhor acha que faltou substância aos discursos de Obama e Romney?

R.Y.S – Sim, e isso ficou mais evidente quando contrastado com o discurso do ex-presidente Bill Clinton, que falou mais de políticas públicas e foi específico. Para os indecisos, essa falta de substância é prejudicial? Acho que os indecisos estão procurando outras qualidades, estão fazendo comparações entre os candidatos. Isso pode incluir projetos, mas também outras coisas, como a capacidade de ser eficaz. Uma das coisas que prejudicam Obama com os indecisos é que a economia não se recuperou. Para esse grupo, a decisão pode vir com a convicção de que a economia estará melhor daqui a quatro anos ou com a conclusão de que Obama não se saiu bem e é hora de mudar.

Se o maior desafio de Obama é convencer os americanos de que a economia estará melhor em quatro anos, qual é o de Romney?

R.Y.S – Mostrar que ele pode ser eficaz na construção e negociação de políticas que um presidente tem que fazer. A ironia é que, se Romney pudesse reivindicar o crédito pela reforma da saúde que fez em Massachusetts, ele teria algo concreto, em termos de políticas públicas, para mostrar. Mas ele não pode, porque sua reforma é muito parecida com o que os republicanos chamam de Obamacare, e ele precisa se afastar dela.

O que esperar até as eleições, mais polarização?

R.Y.S – Pelo menos no plano nacional, acho que não vai parecer mais polarizada do que já está. Por outro lado, com as enormes quantias de dinheiro que serão gastas em anúncios de TV nos 12 estados decisivos, o quadro será mais agudo lá. A polarização apareceu nas plataformas dos partidos e nos discursos nas convenções, claramente opostos em assuntos econômicos e enfatizando os temas sociais, como aborto e direitos dos homossexuais, muito mais do que no passado.

As convenções deram muito destaque a políticos de origem latina. A comunidade hispânica está ganhando influência real?

R.Y.S – Eles estão ganhando mais atenção em virtude de se tornarem uma parcela maior do eleitorado. Os democratas podem exibir líderes políticos latinos em um número que reflete a participação da comunidade no partido. O mesmo não pode ser dito dos republicanos. Basta olhar o público da convenção e ver que havia muito poucos não brancos.

Isso mostra uma eleição claramente dividida em termos raciais, não?

R.Y.S – É verdade, mas todas as eleições recentes têm sido assim. Uma proporção de 90% dos negros votam nos democratas, e uma maioria não tão grande, mas expressiva, dos brancos vota nos republicanos. Os eleitores mais em disputa são os latinos, entre os quais os republicanos gostariam de voltar ao patamar que tinham na era Bush, que era de cerca de 40%. Agora estão tendo dificuldades em se manter na faixa de 30%.

Quatro anos após a eleição de Obama, esse abismo racial aumentou?

R.Y.S – Acho que a eleição pode ter solidificado o abismo com relação aos latinos. Em relação a outros grupos, não acho que a divisão tenha se acentuado. O fator-chave aqui será a proporção desses eleitorados que comparecerá para votar.

***

[Fernanda Godoy, de O Globo]

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