Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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JORNAL DE DEBATES >

Hobsbawm, Lobato e os autos de fé

Por Ricardo Antônio Lucas Camargo em 23/10/2012 na edição 717

Muitas vezes, os meios de comunicação e os movimentos que se formam em torno de qualquer causa, apesar de serem fruto – e não pressuposto – da liberdade de expressão e manifestação do pensamento, chegam a ingressar em terrenos que os poderiam tranquilamente equiparar aos tão temidos e execrados censores. Tomo em consideração dois episódios que, embora tenham motivações diferentes – ou declaradamente diferentes – vêm a se enquadrar precisamente na frase que abre o presente texto: os casos de Hobsbawm e Monteiro Lobato.

O caso de Hobsbawm vem a abrir-se a partir de um ataque desfechado, via revista Veja, à sua obra como marcada pela cegueira ideológica, quase beirando à desqualificação, como algo absolutamente imprestável a quem não tenha uma postura contrária aos horrores do estalinismo, abrindo de plano com a adjetivação “idiota moral” (ver aqui), e também pelo texto de Demétrio Magnoli à Folha de S.Paulo em 10 de outubro deste ano. O primeiro, objeto de um repúdio da Associação Nacional de História – ANPUH (ver “Resposta a uma crítica tosca”), o segundo, de uma resposta de uma das mais brilhantes penalistas de sua geração, a professora Beatriz Vargas Ramos, da Universidade de Brasília (ver aqui). Aí, para se neutralizar a validade dos argumentos da resposta, desqualifica-se a defesa, no sentido de que, para emprestar a esta credibilidade, seria necessário esposar o mesmo credo doutrinário que Hobsbawm. Um dos mais conhecidos estratagemas voltados para atacar as pessoas e não propriamente o argumento porque, a rigor, a situação pessoal de quem enuncia não torna falso um argumento cujo enunciado traduza correspondência com o dado que ele visa representar (Schopenhauer, Arthur. A arte de ter razão exposta em 38 estratagemas. Trad. Alexandre Krug. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 67; Lutero, Martinho. Do cativeiro babilônico da Igreja. Trad. Martin N. Dreher. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 35).

A canonização de Thomas More

Eu mesmo já disse em vários momentos, neste Observatório, que não sou marxista (ver aqui, aqui, aqui e aqui) e falei várias vezes acerca do apagar da fotografia como uma medida mais sórdida do que a própria eliminação física porque isto vale pela eliminação da memória (ver aqui; O direito exaurido – a hermenêutica da Constituição Econômica no coração das trevas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2011, p. 11, i.a.). E, que eu saiba, os pronunciamentos dos marxistas em relação aos antimarxistas nunca foram tomados muito a sério pela maioria da população brasileira.

É bom recordar que nem todos os que se servem dos dados de fato de Hobsbawm e assinam a nota da ANPUH são marxistas, posso assegurar: muitos há que se voltam ao método de Durkheim (odiado pelos marxistas, como todos sabem, por conta de tomar como pressuposto a solidariedade social, oposta ao pressuposto da luta de classes) e outros ligam-se à Nova História, muito mais preocupada com a compreensão das épocas estudadas a partir do exame do cotidiano das pessoas comuns do que com as grandes movimentações de massa. Mas se um testemunho (não um juízo de valor) deve ser desconsiderado por conta das convicções ideológicas de quem o oferta, deveríamos também – e ninguém pensa nisto, por certo – desconsiderar a própria contribuição de um Heidegger à filosofia, ou de um Carl Schmitt ao Direito Constitucional e à Ciência Política, ou de um Karl Larenz à filosofia do Direito e ao Direito Civil por terem sido eles nazistas, ou de um Carnelutti ou de um Pareto, diante de terem sido fervorosos fascistas. Ou de um Miguel Reale, que integrou, como se sabe, a Ação Integralista Brasileira e foi um dos grandes entusiastas do movimento militar de 1964. Adotar tal premissa vale por questionar, também, o próprio acerto do papa ao canonizar quem certa vez disse que asseguraria ao próprio Demônio as garantias da lei se verificasse estar ela a seu lado (Thomas More). E eu ainda não soube que o papa tivesse determinado a excomunhão de quem quer que, no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, tivesse obtido o diploma de história, pelo simples fato de ter obtido tal diploma.

Mulher perversa

Nunca tive afinidades com o pensamento político de Hobsbawm, mas nem por isto desprezava-o enquanto fonte de informações importantes para a compreensão do século 20, máxime em virtude de sua experiência de vida e de seu conhecimento das fontes primárias. Por outro lado, em relação ao iluminismo estamos ainda engatinhando, não conseguimos ainda assimilar o papel que este teve na valorização do ser humano enquanto integrante da humanidade e não enquanto crente de determinada religião, militante de determinado partido político, sectário de determinada cosmovisão. E tanto isto é verdade que, para muitos, que ignoram a contribuição de Hobsbawm para a historiografia, apenas se comemorará “um comunista a menos”, dentro daquela odiosa falácia conhecida como argumentum ad personam.

O ataque de Magnoli a Hobsbawm vem a colocar-se rigorosamente no mesmo patamar que a redução da obra de um Lobato a uma mera propaganda racialista. Quanto a Lobato, afora a crença que alguns têm de que estariam investidos em direito líquido e certo de “expurgarem do Brasil sua perniciosa obra racista, corruptora das mentes das crianças”, o novo ataque vem a um livro para adultos – Negrinha – no qual estes mesmos identificam um perigoso conteúdo racista e sexista, de acordo com o que se vê noticiado no jornal Estado de Minas (ver aqui).

O Monteiro Lobato que querem apagar da fotografia disse que “um país se faz com homens e livros”, muito preocupado com o analfabetismo extremo e a falta de informações no contexto da época em que viveu – 1882-1948 –, quando poucos tinham telefone, o rádio era novidade, a televisão ainda não existia no Brasil. E hoje, pela presença dos sofrimentos da personagem-título de Negrinha, pretende-se que o conto em questão seja considerado propaganda de racismo porque não aparece nenhuma passagem dizendo que fazer uma negra sofrer é errado. Será que estas pessoas não percebem que a “excelente D. Inácia” do conto é uma mulher perversa? Desde quando o comportamento do vilão da história é considerado, pelo respectivo autor, como o exemplo a ser seguido, de acordo com o seu referencial ético?

O verdadeiro alvo dos críticos

Produzi textos nos quais discuto as passagens de Lobato, com transcrições, comentários etc. etc. etc. E, sinceramente, vê-se que nos trabalhos que procuram apontá-lo como um perigoso corruptor da juventude (onde já ouvimos esta acusação antes?), não se pejam em, ao lado de passagens que poderiam ser aptas a permitir a discussão em torno do propalado racismo, há outras que se põem nitidamente no campo da invencionice, com o objetivo de identificar o diabo a ser exorcizado, como já tive a oportunidade de ouvir em particular a uma pessoa de extrema má vontade: onde é que ele chama a Nastácia, por exemplo, de “imbecil”? Nem assumindo a voz do narrador, nem assumindo a voz de Emília, sempre desrespeitosa, por sinal, com todos, tal qualificativo aparece.

Por outro lado, existem 18 livros por ele escritos para crianças e 18 livros escritos para adultos (dentre os quais Negrinha), todos publicados pela Brasiliense. Aí dir-se-á: mas ele retrata o negro como o ser inculto. Sim, mas não como o ser vil. A vileza, reserva-a à D. Inácia de Negrinha, branca, carola, hipócrita e sádica; a ignorância do negro não é a ele atribuível, justamente pelo rosário de sofrimentos e opressão a que foi submetido, com todas as salvaguardas da legalidade, até a Abolição da Escravatura, ao contrário do que ocorre com o coronel Teodorico, personagem de Serões de D. Benta, de O poço do Visconde – verdadeiro alvo desta campanha –, de A chave do tamanho (Lobato combatendo o Eixo na época em que com este flertava o Estado Novo?), homem branco, rico e ignorante por opção, ou ao coronel Lupércio, cuja cupidez o faz tornar-se espírita para designar-se, na próxima encarnação, herdeiro da fortuna acumulada, no conto “Herdeiro de si mesmo”, que encerra Negrinha.

Para não me repetir, aí vai o que já escrevi sobre o tema:

>>http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/datas-redondas-gandhi-e-lobato

>>http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/lobato-precisa-de-defesa

>>http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/avestruzes_opinioes_e_fatos

>>http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/lobato_e_o_dualismo_amigoinimigo

>>http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/politicamente_correto_e_a_apologia_da_crueldade

Mais do que reduzir uma obra de dimensões muito maiores a um aspecto secundário, no que toca à sua contribuição para a literatura infantil, a incapacidade e má vontade são tão evidentes que não perceberam, no caso do livro de contos Negrinha: 1 – que a personagem que submete a personagem-título a maus tratos é a vilã da história; 2 – que o vilão, para o autor, é precisamente aquele cujo exemplo claramente não deve ser seguido; 3 – que a qualificação de “excelente” dada à sádica D. Inácia é simplesmente irônica; 4 – que esta é uma obra para adultos; 5 – que o verdadeiro alvo dos que desejam apagá-lo da fotografia é, neste livro, o maravilhoso conto “Quero ajudar o Brasil”, no qual um valoroso negro se dispõe a engajar-se na campanha do petróleo e onde se vê um prelúdio do já referido O poço do Visconde.

Estopins das histerias coletivas

Soaria até risível, se não tivesse consequências tão trágicas, que um homem que se colocou contra o Eixo numa época em que o Estado Novo ainda flertava com este e que, mesmo não sendo comunista, se insurgiu abertamente contra o fechamento do Partido do Prestes em 1947, fosse convertido em um “ícone da direita”. Em períodos de histeria como o que estamos vivendo, sempre é bom recordar passagens como esta que aparece transcrita no elo seguinte (ver aqui). Stanislaw Ponte Preta já chamava o Brasil de deserto de ideias. Intelectualmente, cada vez mais próximo das características naturais do Saara.

Vale, por isto, ler o que no O Estado de S. Paulo do dia 20 de setembro de 2012 escreveu Luís Fernando Verissimo sobre Lobato, dizendo exatamente que não se deve privar criança alguma de lê-lo (ver aqui). O necrológio que Érico, pai dele, escreveu quando da morte do Lobato em 1948 foi um dos textos mais comoventes a que já tive acesso, sobretudo porque não fazia muito que ele havia padecido nos porões do Estado Novo.

Como deixar de entrever aqui o pleito da medida que tanto os saudosos da Redentora quanto Stalin tanto apreciavam, que é a de apagar da fotografia? Apagar da fotografia porque se não está documentado, quem garante que existe? Trotsky não pode ter participado da Revolução Russa nem ter sido prestigioso junto a Lênin, a tal foto em que ele aparecia no segundo aniversário da Revolução tinha necessariamente de ser falsa. Assim como, pela própria natureza das coisas, se o Iraque foi atacado é porque existiam as armas de destruição em massa, foi por bruxaria que as fizeram desaparecer, porque admitir o contrário é dar força às Forças do Mal.

A cada vez que se cria um bode expiatório, tenho arrepios justamente porque é o momento de se liberar a Besta escondida sob o verniz da civilização. Livros como O coração das trevas, de Conrad, Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Blasco Ibañez, ou um filme como O dia do gafanhoto, de Schlesinger, sempre me vêm à mente quando se criam estas situações que são estopins das histerias coletivas. Vão sair os que precisam de um inimigo comum para garantirem a respectiva unidade a rastrear os corruptores da juventude para realizar um auto de fé em regra… e depois ainda falamos da Inquisição… e é bom deixar claro que não me referi à Inquisição quanto ao móvel de suas ações, mas sim, quanto aos aspectos formais, aos respectivos procedimentos, que, realmente, têm um paralelo nos cerimoniais estalinistas dos expurgos.

***

[Ricardo Antonio Lucas Camargo é advogado, Porto Alegre, RS]

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