Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

Enganos, mitos e tropeços da revolução tecnológica

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 13/11/2012 na edição 720

Há uma tendência no pensamento contemporâneo em considerar a revolução digital como uma ruptura quase absoluta com as tecnologias mais antigas, de tempos há muito passados. Como se a revolução digital fosse um sonho projetado do futuro no presente. E os tempos que vivemos não guardassem relação com o mundo do passado. A ilusão de velocidade e a capacidade de superar as barreiras do espaço através das mídias digitais provocam a ilusão de que estamos vivendo num mundo futurístico sem passado, em que as grandes corporações que lideram a revolução digital vão criando cotidianos virtuais e conteúdos que preenchem nossas vidas e de nossas crianças como em outros tempos os velhos mestres e a boa escola o faziam.

São as ilusões do progresso tecnológico que nos impedem de contar a verdadeira história do desenvolvimento da tecnologia e o quanto o mundo e a humanidade pagaram para viver neste “admirável mundo novo”. Uma fixação obsessiva com o presente high-tech impede a maioria da população de entender que o nosso futuro previsto nas projeções dos tecnologistas, onde toda a “engenhosidade científica resolveria nossos problemas”, infelizmente já se perdeu. Pelo menos por enquanto, se projetarmos para o amanhã a situação que temos hoje.

Garry Kasparov e Peter Thiel publicaram no Financial Times (8/11) uma matéria de opinião extremamente lúcida sobre os perigos que a ilusão com o progresso tecnológico podem trazer. Kasparov foi um campeão de xadrez muito famoso. Tido por muitos como o maior jogador de xadrez do mundo, ganhou e perdeu do computador da IBM “Deep Blue”, num dos momentos clássicos da era tecnológica. Hoje é ativista político e desafeto de Vladimir Putin. Peter Thiel é um dos fundadores do PayPal, um sistema de pagamentos seguro pioneiro na web, e também atua como administrador de fundos de cobertura (hedge funds).

“Mercado de ações é um culto de despesas”

Os dois juntaram-se para produzir uma das melhores reflexões sobre o impacto da tecnologia em nossas vidas e os perigos advindos da crença falsa que nega a história do saber tecnológico e o promove a tecnologia a semideusa libertária que chega para redimir os males do mundo.

A primeira coisa que a dupla fez foi destruir a falsa ideia de que o atual século é o período das inovações incessantes que vai mudar o mundo de vez. Isso pode ainda acontecer. Afinal, ainda estamos no início do século. Mas os sinais atuais não são animadores para os autores. Segundo Kasparov e Thiel, regredimos de uma “cultura de risco e exploração em direção a uma de segurança e regulação. Nós descartamos um século de ambição realizadora construída sobre rápidos avanços em tecnologia e a substituímos por uma cautela demasiado satisfeita com melhorias gradativas”.

Os autores também não pouparam os capitalistas do setor financeiro, que projetam lucros futuros baseados em cálculos econômicos do século passado. Ignoram o fato de que o progresso tecnológico se escora em “feitos tecnológicos que não podem ser repetidos”. A inovação não pode parar. Se ninguém mais quer correr riscos como no passado e continuar a inventar novos produtos e indústrias, todo o sistema colapsa. “Sem inovação”, dizem os autores, “o mercado de ações é um tipo de culto de despesas.”

Medicina pós-hipocrática

O tempo todo, os dois pregam contra o pensamento determinista, onde cada fato corrente tem sua origem em algo que já ocorreu antes. O determinismo é o maior inimigo da inovação. E foi graças a ele que aconteceu a crise do mercado imobiliário de 2008, nos Estados Unidos. Os investidores continuaram a acreditar na apreciação dos investimentos em imóveis em plena era tecnológica porque, no fim das contas, era assim que sempre acontecia: investir em imóveis sempre foi um bom negócio. Esse pensamento está por trás da crise das hipotecas americanas.

Outro ponto de destaque no artigo é o reconhecimento de que não haveria revolução digital sem os grandes avanços científicos dos anos de 1950 e 1960. “Foi nesse período que o uso da propulsão a jato foi popularizada, os primeiros reatores nucleares saíram de seu esconderijo militar para a vida civil, foram lançados os primeiros satélites de comunicação e os primeiros circuitos integrados foram montados”, explicam os autores. A revolução digital nasceu ancorada nos pilares erigidos no século passado, “quando os cientistas não apenas acreditavam num futuro melhor, mas o inventavam”.

Kasparov e Thiel reconhecem o valor das lições da História, mas também conhecem os limites do nosso modelo de desenvolvimento em TI. Todo o progresso que aconteceu dos anos de 1970 até a virada do século 21 também trouxe com ele vários males: a estagnação da infraestrutura em nível mundial, o declínio do espaço e vida pública, da agricultura e da medicina. Estamos na época da medicina pós-hipocrática, que não tem compromisso com o bem-estar da população, mas com fundos de pesquisa para curas hiper-tecnológicas, às quais só terão acesso os mais abastados.

Inovação em segundo plano

Os autores explicam que a principal ilusão do atual progresso científico está baseada no fato das tecnologias de informação “conduzirem a processos de globalização e administração eficientes sem aumentar os salários reais médios”. Isso é possível porque as indústrias agora não mais dependem de mão de obra local cara e amparada por conquistas sociais históricas: podem recrutar trabalhadores chineses que moram em barracas em campos de trabalho de grandes companhias estatais, e que trabalham por uma fração do que ganha um trabalhador no Ocidente industrializado.

Todas as proezas que os novos gadgets proporcionam, todas as maravilhas do novo mundo digital são como ídolos sobre pés de barro: enquanto nos divertimos na web, a enviar arquivos, fotos e a nossa própria privacidade, a paisagem geográfica das cidades revela espaço público degradado, áreas subutilizadas e nenhum planejamento urbano. O espaço público caiu num estado permanente de decrepitude, mas dentro das casas das famílias que escaparam da crise todos estão ocupados demais com os novos brinquedos digitais para notar que seus filhos já não podem brincar na rua há décadas. Hoje, as crianças de condomínios fechados e áreas urbanas privatizadas e isoladas do caos urbano brincam de “brincar na rua”. O que era ordinário e maravilhoso, agora é perigoso e transformou-se em sonho de criança apertada entre quatro paredes e um condomínio fechado, onde ela só convive com gente igual a ela.

Hoje, quando mencionamos a palavra tecnologia em geral nos referimos às grandes corporações digitais (Apple, Google, Facebook e outras) e não a “um processo de transformação permanente em cada indústria, tal como foi visualizado lá atrás, nos anos de 1950”. Há uma “pequena corte” de megaempresas digitais que, em vez de dar continuidade às inovações necessárias, engalfinham-se em guerras de patentes, espionagem industrial, contrainformação, sabotagem industrial e tentativas de monopolizar o mercado, num processo competitivo vicioso e autodestrutivo. É um jogo do tipo “o vencedor leva tudo”: em vez de lutarem por oportunidades de negócios para o conjunto das empresas (como faziam as firmas japonesas nos anos de 1980), tentam destruir umas às outras. A inovação passou para segundo plano. O idealismo acabou.

Dias de glória

Os autores estão certos. Não é a toa que todas as grandes do mundo digital sonham em voltar no tempo, para a época onde os recursos eram poucos, mas a criatividade e espírito inovador eram imensos. Querem recuperar o fôlego e o idealismo do início de seus grandes negócios. Sonhos vãos de jovens bilionários que começam a perder o entusiasmo com a transformação do mundo e da sociedade para administrar seus fundos de investimentos e colocar bem suas empresas em Wall Street. Deslumbraram-se com seus bilhões e a inovação foi deixada para segundo plano.

O que os autores afirmam é que a economia do planeta estagnou em certas áreas e a sociedade ainda não aprendeu a viver com isso. O progresso tecnológico foi engolido por um oceano de consumo desenfreado e conspícuo e tecnologia passou a ser sinônimo de posse de objetos tecnológicos. Ora, tecnologia não é algo que se compra numa loja de computadores. Não se resume à posse de certos objetos, mas antes à capacidade de um povo em absorver as técnicas de domínio, uso e controle das inovações. Só assim a inovação levará a novas invenções.

Mas, infelizmente, ainda não compreendemos isso como deveríamos. Ainda não percebemos, como diz o artigo, que vivemos uma realidade de “estagnação”:

“O único grande salto proposto é um salto para trás: desacelerar em nome do meio ambiente. Mas o único meio para a humanidade consumir menos recursos é através de novas tecnologias. Governos são parciais com relação a administração, e portanto perpetuam problemas. Os dias de glória da Guerra Fria para a Nasa e da Agência de Pesquisa e Projetos de defesa já vão longe. Enquanto isso, expectativas trimestrais de lucros de analistas de Wall Street encorajam pensamento de curto prazo em empresas de capital aberto.”

A mediação da sociedade

O papel nocivo do capital financeiro no mundo contemporâneo não poderia ficar de fora de uma crítica tão bem estruturada e correta. Em quase todos os pontos eu concordei com Kasparov e Thiel. Escreveram um excelente artigo sobre tecnologia e sociedade, dois insuspeitos articulistas para um jornal de economia. Uma lição de esforço combinado de saberes e conhecimentos diferentes e complementares.

Só não concordo com as conclusões finais dos articulistas. Há uma fé exagerada na iniciativa privada e no poder do indivíduo na produção da inovação. O indivíduo pode ter um papel essencial na produção e introdução de inovações, mas ele sempre vai precisar de um coletivo (ainda que mínimo) para trabalhar nas suas invenções. Não é só o indivíduo que traz a inovação. Temos também que considerar o poder e a influência do meio ambiente e do contexto de época, para a criação, aceitação e divulgação das inovações que vão sendo introduzidas. Em outras palavras, há a mediação da sociedade e do contexto de época na gênese da inovação tecnológica. O coletivo deve ser o centro e o foco da inovação. Não o indivíduo.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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