Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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JORNAL DE DEBATES >

Não são “islâmicos”

Por Mauro Malin em 22/01/2013 na edição 730

O grau de desconhecimento do chamado Ocidente sobre os conflitos no norte do Mali se reflete na hesitação da imprensa ao denominar as forças que agora são combatidas por militares franceses.

Os fenômenos sociopolíticos nessas áreas sulinas do Deserto do Saara são tão intrincados e remotos que a imprensa, e mesmo especialistas, têm dificuldade para descrevê-los. Isso é compreensível. Mas não o é a simplificação preconceituosa que leva praticamente toda a mídia jornalística a usar o adjetivo “islâmicos”, acompanhado ou não de outro adjetivo – por exemplo “radicais” –, para denominar esses guerrilheiros e terroristas.

A imprensa joga assim água no moinho dos jihadistas, ou, mais precisamente, combatentes ligados à al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) ou a qualquer outro dos grupos que se haviam coligado para lançar em 2012 a primeira ofensiva no norte do Mali. A saber: a dissidência do AQMI chamada Mujao – Movimento pela Unidade e o Jihad na África do Oeste; o grupo salafista tuaregue Ansar Dine, “defensores da fé”; e o também tuaregue MNLA, Movimento Nacional de Libertação de Azauade, área de confluência do Saara com a região do Sahel.

Lenha na fogueira

Os islamitas adeptos da luta armada e do terrorismo usam a bandeira do insulto que é feito a todos os islamitas. Em dezembro, o londrino The Independent publicou declaração de um “veterano líder islâmico” segundo a qual o povo dos Estados Unidos é “contra o Islã”.

“Jihadistas” nem sequer é denominação aceita consensualmente pela cultura muçulmana como designação de guerrilheiros ou terroristas. Talvez menos preconceituosa, certamente quando comparada a islâmicos, ou islamitas (islamistas, na versão de Portugal), muçulmanos, maometanos etc.

A denominação só revela a dificuldade de descrever o objeto e não faz o menor sentido quando se sabe que em toda a parte setentrional da África, imprecisamente segundo uma linha que vai de Monróvia, capital da Libéria, até Adis-Abeba, capital da Etiópia, predomina amplamente a religião muçulmana.

A denominação neutra (combatentes, insurgentes, rebeldes) não traduz preconceito. Mais preciso é usar o nome específico: militantes da AQMI, terroristas da al-Qaeda etc.

Eis uma amostra de designações encontradas no fim de semana de 19-20/1 em jornais e revistas:

>> O Globo –Radicais islâmicos, rebeldes.

>> O Estado de S. Paulo – Militantes islamitas, combatentes islâmicos, militantes da AQMI, islamitas, insurgentes, grupos islâmicos, insurgentes islâmicos, fundamentalistas islâmicos.

>> >> Folha de S. Paulo –Islamitas, militantes islamitas, grupo islamita, grupo terrorista, militantes do grupo terrorista "Signatários por Sangue", terroristas.

>> Veja – Fundamentalistas, tuaregues, terroristas islâmicos, mercenários (uma parte dos rebelados), indivíduos adoráveis, bando, rebeldes, força terrorista, islâmicos (“islâmicos e demais facínoras”), terroristas, praga fundamentalista, terroristas islâmicos, terroristas da al-Qaeda, grupos islâmicos, cão cérbero.

>> Valor (21/1) – Militantes islâmicos ligados à Al Qaeda.

>> Época – Radicais islâmicos, grupos terroristas islâmicos, militantes, combatentes, insurgentes, terroristas próximos ao grupo AQMI, fundamentalistas, islamistas, movimento tuaregue por independência do norte malinês, discípulos salafistas africanos, grupos radicais, extremistas, grupos islâmicos, militantes, grupos extremistas, extremistas, forças fundamentalistas.

>> Associated Press – AQIM (AQMI)

>> The Economist – Incursão islamita, coluna rebelde, grupos islamitas, jihadistas.

>> El País – Rebeldes tuaregues, rebeldes islamistas, grupos islamistas, radicais islamistas.

Um mínimo de informação

A questão de fundo é a vasta ignorância que preside todo esse noticiário. Um mínimo de informações deveria ser passado aos leitores. (A ignorância não é atributo dos jornalistas. É ampla, geral e irrestrita. E inevitável, dadas as características geográficas, históricas e sociais da região. Ver "Guns, cigarettes & Salafi dreams: the roots of AQIM", de Andy Morgan.)

O Mali é uma construção artificial da França, antiga potência colonial (ver no mapa as fronteiras oeste-centro, centro-norte e norte-leste, todas imensas linhas retas).

O governo militar nacionalista da Argélia transformou em sangrenta guerra civil uma vitória eleitoral de partido religioso islâmico em 1991.

Os tuaregues são um povo berbere (hoje, em torno de 1,5 milhão de pessoas, segundo o El País) que estabeleceu rotas comerciais transaarianas quando camelos foram domesticados. Tornaram-se nômades quando foram deslocados do sul do Mediterrâneo por tribos de invasores árabes nômades saídos do Oriente Médio ou da Península Arábica.

Os tuaregues são divididos em tribos e confederações de tribos. Em sua descida rumo ao centro do continente, houve mesclas étnicas com negros. A descolonização fez com que suas terras ficassem repartidas entre Mali, Argélia, Níger, Líbia, Chade, Burquina Faso e Nigéria. Durante séculos, transportaram cativos negros para senhores árabes. O ressentimento das populações negras não foi superado.

Contrabando e tráfico

Quando a independência dos atuais países africanos foi conquistada, na segunda metade do século 20, os tuaregues não haviam lutado por ela contra as potências coloniais, pois sua própria agenda era diferente. Os governos dos países de maioria negra não se sentem obrigados a assisti-los. Eles denunciam a intenção dos governos do Mali e do Níger de matá-los de fome.

Tuaregues, além de pastores e agricultores, foram comerciantes e provedores de rotas que passam pelo Saara. Esse tipo de comércio entrou em decadência e uma parte considerável desse povo deixou de ser nômade. Os que continuaram participam de grandes rotas de contrabando (amplo espectro, de armas a cigarros, passando por imigrantes ilegais) e tráfico (cocaína, da América do Sul para a Europa; ópio, do Afeganistão para a Europa). O conflito atual interessa, portanto, mercadores de armas das mais diferentes nacionalidades, traficantes mexicanos, colombianos, nigerianos, libaneses, sírios etc.

As potências

Interessa também à França, de modo mais urgente, porque a maior parte do urânio usado para gerar energia no país (nuclear, na proporção de 80%) vem de reservas situadas no Mali e no Níger.

Interessa aos Estados Unidos e à China, que disputam intensamente, sem muito ruído, influência hegemônica na região, não porque desejem levar escoteiros para ver como o céu do deserto é estrelado, mas porque entre os recursos da região estão sal, fosfatos, ferro, ouro, cassiterita, cobre, estanho, carvão e hidrocarbonetos.O caso americano é também ativamente estratégico. Os serviços de inteligência de Washington entenderam que o norte do Mali está no centro de uma área de intensa penetração terrorista, que, em formato de banana, vai do Afeganistão à Mauritânia, escreve Andy Morgan.

Um consórcio formado por empresas alemãs planeja estabelecer no sul do Saara uma produção maciça de eletricidade solar (informações em Patrice Gourdin, “Al Qaida au Sahara et au Sahel”, 2012, Diploweb.com).

O atual presidente do Mali é o ex-presidente da Assembleia Nacional, Dioncunda Traoré, que sucedeu o deposto Amadou Sonogo, substituto do deposto Amadou Toumani Touré. Há acusações não provadas de que Dioncunda Traoré tem interesse no tráfico de drogas.

O grau de isolamento internacional de tuaregues e militantes da AQMI e demais grupos envolvidos se mede pelo fato de que o Conselho de Segurança da ONU votou por unanimidade, em 2012, resolução que autoriza forças militares de outros países a intervir para garantir a integridade do território malinês. Por unanimidade.

Política comanda tropas

Do ponto de vista do noticiário sobre decisões de governos quanto ao emprego de recursos militares e medidas análogas, os jornalistas precisam lembrar sempre, incansavelmente, que os governantes jogam para a plateia. As decisões não são determinadas por alguma racionalidade estratégica ou tática. A estratégia e a tática disponíveis se adaptam àquilo que os governos querem passar para o público. Às vezes, com consequências desastrosas.

François Hollande não mandou tropas, aviões etc. porque achou que a situação no Mali tinha se tornado intolerável. Tomou decisões “arrojadas”, como bem percebeu e manifestou a The Economist (19/1), porque as coisas não andavam bem para ele desde sua eleição, em maio. Não houve rápida retomada do crescimento e criação de empregos, mas fábricas que continuam a ser fechadas e taxa de desemprego de 10%. A corte suprema considerou inconstitucional cobrar 75% de imposto de renda de milionários. Um milhão de pessoas foram às ruas protestar contra os planos de dar proteção legal a casamentos homossexuais e adoção de crianças por casais gays. Então, o presidente se tornou belicamente audacioso. E criou um fato consumado com o qual todos os envolvidos terão de lidar.

Não há nenhuma novidade nisso. George W. Bush fez no Afeganistão e no Iraque. Generais argentinos fizeram nas Malvinas. Hitler, Stálin (e, em proporção muito menor, mas não desprezível, Churchill e Roosevelt), na Segunda Guerra Mundial. Os dois primeiros em regimes totalitários, olhando principalmente para o espelho e para os respectivos partidos. Getúlio Vargas terá mandado tropas para a Europa devido a convicções antifascistas? Deve haver livros de história ou teses acadêmicas só sobre esse tema.

O importante é os jornalistas não esquecerem que são eles os intermediários das mensagens dirigidas ao imaginário coletivo. Talvez convenha internalizar que os fatos são menos graves do que interessa às autoridades alardear e muito mais graves, por seus desdobramentos e consequências, do que elas costumam admitir.

Mali ou Máli?

Um detalhe: apresentadores, locutores e comentaristas precisam entrar em acordo com jornalistas de texto: Mali, em português, escrito sem acento na primeira sílaba, é palavra oxítona, como em espanhol e em francês.

Como sabem todos, as palavras terminadas em “i” e “u”, seguidos ou não de “s”, são oxítonas a menos que outra sílaba tônica seja marcada por acento (júri, álibi). Ou seja, para ser pronunciadas como oxítonas, não levam acento (juriti, saci). A menos que o “i” ou “u” finais, novamente seguidos ou não de “s”, constituam um hiato (Andaraí, baús).

Para que se pronuncie Máli (certamente haverá quem defenda essa prosódia), o acento é indispensável.

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