Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Ah, a liberdade

Por Lúcio Flávio Pinto em 05/03/2013 na edição 736

O que conduz a esquerda no poder ao totalitarismo é a teoria do partido único. Sua matriz é leninista. Mas sua origem é mais remota. Funda-se na presunção do escolhido, que é uma crença milenarista. Os escolhidos por deus, um deus ex-machina entre os homens, têm o monopólio da verdade. O que sai das suas bocas é lei, dogma, o absoluto.

Devia constar do currículo de formação da juventude a leitura do trecho da Montanha Mágica em que Thomas Mann justapõe o jesuíta Leo Naphta ao supostamente humanista Giuseppe Settembrini. Os duelos verbais dos dois personagens são um resumo, ou um corte epistemológico, da história da humanidade, em progresso (na visão idealista) até o impasse ou a barbárie. O diálogo Naphta-Settembrini é uma das culminâncias da criação humana.

Sua leitura ajuda a entender – e a repudiar – a ação, em forma de hordas, dos esquerdistas que atacaram a blogueira cubana Yoani Sanchez. Eu gostaria muito de ver um embate entre esses opostos com as armas das ideias, o confronto através da eloquência do discurso e da substância dos argumentos. Como foi travado, com regras impostas unilateralmente por um dos contendores, se transformou num espetáculo de intolerância e obscurantismo.

A blogueira, perseguida e proibida em seu país, não é guia de nada. Mas é personagem da história cubana. Ela existe de maneira similar ao que mantém Fidel Castro e seu regime vivos: o estúpido bloqueio americano à ilha vizinha. Em um ambiente mais pluralista, como o nosso, Yoani se sentiu numa democracia, ficção de mau gosto na sua pátria. Mas nós, apesar dos pronunciamentos a que de vez em quando estamos sujeitos, não achamos que isto seja uma democracia. Afinal, depois de tanta gritaria, a livraria Saraiva cancelou o lançamento do livro da ativista cubana. Mais um pouco e os volumes teriam sido lançados a uma fogueira em praça pública.

Se alguém quiser tirar uma lição dessa experiência, chegará a uma conclusão: o melhor referencial da nossa humanidade é a liberdade que pudermos conquistar. E que estaremos dispostos a tudo para não permitir que seja destruída. Sem ela, voltamos na escala civilizatória à condição de primatas. Como os que perseguiram Yoani.

***

[Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem