Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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JORNAL DE DEBATES >

Clichês do repórter de um tempo que já passou

Por Luciano Victor Barros Maluly em 07/05/2013 na edição 745

As informações estão concentradas nas mãos de pessoas que, pelo poder adquirido em virtude das atribuições profissionais e pessoais, são responsáveis por manter/planejar a ordem, ou seja, responder as dúvidas, mostrar o caminho das pedras, autorizar e disponibilizar os documentos comprobatórios, entre outras tarefas. São lacunas que contêm as possíveis respostas às dúvidas dos repórteres. Resumindo, as notícias dependem da boa vontade de outrem. Por isso, é possível reforçar que, durante a fase de coleta das informações necessárias à produção da notícia, a insistência torna-se uma condicional ao trabalho de jornalista no Brasil.

Diante de tantas dificuldades, a paciência e a determinação em conseguir certos dados são condições fundamentais para o sucesso na profissão. Assim, conquista-se e se mantém a credibilidade e, por conseguinte, a própria sobrevivência do veículo onde trabalha.

O telefone e a internet são ferramentas utilizadas frequentemente nas redações, que podem até lotar a caixa postal da fonte. Porém, é por causa da pressão advinda de um encontro (cara a cara) que o jornalista capta os detalhes ainda implícitos na matéria ou mesmo ausentes das informações oficiais já divulgadas e selecionadas.

Comparecer in loco e várias vezes (até obter as devidas informações) é um procedimento indispensável à reportagem. Durante o “chá de cadeira” recebido na visita, o repórter reflete sobre a ação dele e a posição do entrevistado. Da mesma forma, é a oportunidade de vistoriar o ambiente, conversar com as pessoas e sentir o clima do local. É nesse momento que o jornalista percebe os males da burocracia ou mesmo a instalação da democracia ou da tirania em locais públicos e privados. É o instante de conhecer os protagonistas e testemunhas que estavam fora do planejamento inicial da cobertura, assim como é a chance de analisar as relações.

Burocracia do Estado

Naquela situação, o jornalista incorpora o universo do cidadão que precisa de um documento, ou de um simples cadastro ou mesmo de um número de inscrição para prosseguimento de um processo seja na área educacional, trabalhista, judicial, entre outras. Veste a camisa do sujeito que trafega por diversos postos/ repartições até encontrar a pessoa certa, considerada a que solucionará o problema. Espera ser atendido, marca horário para um novo encontro, retorna inúmeras vezes, espera mais tempo, cobra adiantamento do pedido, persiste até conseguir o que lhe é de direito.

Tornou-se o chato ou o herói de uma história que, sem luta, teria um final infeliz. Como jornalista, uma única e importante diferença é que a persistência integra a profissão, diferenciando o interesse público do privado. Não existe mérito e ninguém elogiará o trabalho daquele repórter, porque é determinado como dever do profissional de “imprensa”.

A proximidade é uma das características do jornalismo contemporâneo, não só pela possibilidade de diálogo e da busca da verdade, mas também pela necessidade manter vivo o ofício de repórter, exercício a cada dia mais distante da função original consolidada em sociedade.

Aos editores, por favor, modifiquem o atual panorama que mantém os jornalistas como simples noticiaristas, presos em salas de Redação, com ar condicionado, telefone e computadores, plagiando notícias das agências de comunicação públicas e privadas. Afinal, perde-se o valor do trabalho de apuração e da construção da notícia, diminuindo a importância e a necessidade do jornalista. Destranquem os repórteres e permitam o acesso aos ambientes abertos, cheios de gente e de vida, para que possam presenciar (e não apenas imaginar) a transformação do mundo (pelo tempo que passa). Possibilitem aos jornalistas desempenharem as suas habilidades natas ou aprendidas na prática e na teoria (conquistadas seja nos jornais e nas faculdades). Procurem conduzi-los ao exercício da reportagem, com dinâmica do sentimento de dever cumprido, sem a atual omissão de quem divulga informações sem conhecimento de causa.

A tecnologia chegou para diminuir as distâncias, não para atrapalhar. O uso das ferramentas – telefones, gravadores, computadores, câmeras e outros – são para somar e facilitar e não para destruir uma profissão determinante para o equilíbrio da humanidade. Sem jornalistas, as pessoas se distanciam, desconhecem as culturas e os fatos tornam-se duvidosos, baseados no achismo, nas lendas e no provável.

Os repórteres estão nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nas fazendas, nos parques e onde há vida. Eles estão presente no cotidiano escolar – da atribuição à sala de aula – e compartilham da angústia do educador no Brasil. Da mesma forma, unem-se aos profissionais da saúde no desgastante plantão de um hospital. Irritam-se com as filas construídas pela burocracia do Estado. Convivem e criticam o descaso com as ruas e calçadas sujas ou do cidadão que joga dejetos nos ambientes públicos. Também estão inconformados com a inflação camuflada pelos meios de comunicação ou mesmo pelas dívidas que iludem e perseguem os cidadãos de bem.

Mudanças visíveis

As angústias de quem quer um mundo melhor permitem ao jornalista perceber como existe um paralelo entre o imperfeito e a felicidade. Visualiza o também sonhado país diante de pequenas situações como a conquista de um novo emprego, dos almoços de domingo, do bem estar da família e dos amigos, a passagem pela faculdade, a saúde perfeita após uma doença, um sorriso de uma criança ou de um idoso, a natureza preservada…

Chegou a hora de o jornalista mudar a sua estratégia. Cansou das pautas sobre competições esportivas e políticas, das atitudes violentas e arbitrárias. Precisa de planejamento e respeito. A valorização do próximo passa a ser o exemplo deste jornalismo, que começa a abrir caminhos para a comunicação.

Agora, o ser humano é o protagonista capaz de preservar o ambiente. O repórter busca os detalhes, procura o novo e não a resposta perfeita. Pergunta sobre o universo, as emoções e as aventuras. Já não tem medo de enfrentar o desconhecido. O tempo é curto e a reportagem ganha corpo.

A principal informação é de que o Brasil mudou. Já não é mais o país do povo violento e vazio como está na televisão. Acordamos cedo, trabalhos e estudamos. Somos pessoas alegres e capazes de reverter uma situação difícil. Lutamos pelo bem-estar e somos honestos. Logo descobrimos que uma boa notícia também traz felicidade.

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Luciano Victor Barros Maluly é professor na ECA-USP

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