Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Redes sociais, imprensa e esfera pública

Por Maria Lúcia Becker em 25/06/2013 na edição 752

As manifestações que vêm ocorrendo em todo o Brasil colocam algumas perguntas importantes para os profissionais e pesquisadores da área de comunicação. Entre elas por quê?, como?, quem?

A primeira questão remete às principais reivindicações colocadas pelos manifestantes: transporte público, corrupção, políticas públicas. Ora, não é de hoje que o transporte público, com raras exceções, é caro e precário quanto à qualidade e quantidade. Também não é novidade para ninguém a existência de corrupção desde sempre em todas as instâncias da administração pública do país. Da mesma forma, é uma realidade de todas as épocas a insuficiência das políticas públicas nas áreas de educação, saúde, moradia, mobilidade urbana, juventude, entre outras. Aliás, basta prestar atenção nas propagandas políticas partidárias para ver que há um consenso no país quanto a avanços significativos neste ponto nos últimos dez anos.

Pois bem, se estas “condições objetivas” há muito estão colocadas, qual a razão de as ruas serem tomadas por protestos só agora? Dizem: o aumento das passagens de ônibus foi o estopim. Claro, foi. Mas quantos outros aumentos já aconteceram e não tiraram de suas casas mais que, quando muito, algumas centenas de manifestantes? Argumentam: a mídia de massa teve um papel fundamental quando, primeiro, criminalizou o movimento, e depois promoveu-o na tentativa de desgastar o governo federal. Mas a velha mídia não teve sempre este tipo de atitude?

Então, nestes apontamentos, outra hipótese precisa ser colocada: a de que o direito de se comunicar tornou-se acessível a amplos setores da população. Como é sabido, as manifestações começaram e vêm se reproduzindo a partir de chamadas feitas no Facebook, às quais milhares de pessoas aderem e passam a reproduzir em suas redes pessoais, tornando-se centenas de milhares de confirmações de presenças. A mobilização para o ato do dia 17 em São Paulo, por exemplo, teve 276 mil presenças virtuais e cerca de 65 mil presenças físicas na rua.

A era do paradoxo

Uma pesquisa feita pela Scup, uma empresa de monitoramento das mídias sociais, divulgada pelo Estado de S.Paulo, revela que cerca de 236 mil itens foram publicados e reproduzidos, gerando 79 milhões de compartilhamentos de fotos, vídeos e notícias feitos em cinco dias – de 12 (quarta-feira) a 17 de junho (segunda-feira). O levantamento mostrou que as tags “o gigante acordou”, “vem pra rua” e “acorda, brasil” dominaram o Twitter, Facebook e YouTube.

Assim, indicativos de respostas para a última questão já podem ser colocados. Quem? Três aspectos chamam a atenção ao se observar os acontecimentos deste momento histórico. Em primeiro lugar uma “geração digital”: os nascidos desde o final da década de 1980, que agora são os jovens, com idade entre 18 e 25 anos. Em segundo, uma “geração internet”: as pessoas que vivem no período de uso público da tecnologia de rede (desde 1995). E, em terceiro, uma “geração online”: as pessoas, principalmente da chamada classe “C”, que passaram pelo processo de inclusão digital nos últimos três ou cinco anos e que, atualmente, se comunicam pelas redes sociais. Ou seja: as ruas estão repletas de jovens, conectados, pertencentes majoritariamente à classe média, o que indica a apropriação do uso da tecnologia de rede e, com isso, pela primeira vez no Brasil, o exercício do direito de comunicar, com todas as implicações e consequências próprias dos momentos de profundas mudanças na sociedade – uma delas, o acesso à disputa efetiva de hegemonia na esfera pública.

O número de 79 milhões de compartilhamentos significa milhões de cidadãos trocando informações, argumentando e demonstrando os fatos com imagens e dados. Mais do que a constituição de “esferas públicas”, como tem sido refletido nos últimos dias, portanto, é preciso referir-se ao conceito mesmo de esfera pública. E aí, cabe reconhecer que chegou o momento de dar um passo adiante em relação à definição da imprensa – feita por Habermas, no livro Mudança estrutural na esfera pública – como instrumento “por excelência” da esfera pública. Hoje pode ser dito que a imprensa também, é claro.

Em tempo: Vale citar, a título de, digamos, curiosidade preocupante, o fato de que as tags predominantes nas manifestações (em outros tempos chamadas de “palavras de ordem”) foram reproduzidas de campanhas publicitárias de grandes corporações empresariais globais: “Vem pra rua” é o conceito do vídeo da Fiat, feito pela agência Leo Burnett Tailor Made, e “O gigante acordou” foi disseminado pela campanha da Johnnie Walker, criada pela Neogama/BBH. Claro, vivemos a era do paradoxo.

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Maria Lúcia Becker é professora do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, jornalista, mestre em Multimeios e doutora em Ciências da Comunicação

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